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«Custa-nos pensar que a matéria-prima da fé é a vida tal como é»

Imagem © Pavel Prokopchik

«Custa-nos pensar que a matéria-prima da fé é a vida tal como é»

«O Evangelho é sobretudo a possibilidade de uma vida informada pela graça - a vida real, não a vida abstrata ou ideal», e por isso cada cristão é chamado a alinhar as convicções religiosas com todas as atitudes e comportamentos da sua vida, considera o superior dos Jesuítas em Portugal.

«Vivemos claramente um desencontro entre o que professamos e o que se vive», havendo «muita gente a percecionar que o discurso da fé não tem incidência nenhuma na vida», afirmou o padre José Frazão Correia este sábado, em Lisboa, na conferência "O valor do que não tem valor no caminho espiritual".

«Custa-nos pensar que a matéria-prima da fé é a vida tal como é», parecendo «que para viver uma vida de fé intensa deveríamos dispensar a vida», apontou o provincial durante a sessão organizada pelas monjas dominicanas do mosteiro do Lumiar.

«Ao separar vida e fé, colocamo-nos numa atitude de espetadores; e basta ver a liturgia para ver que a comunidade cristã é uma comunidade de espetadores», prosseguiu o religioso da Companhia de Jesus.

Não se trata, explicou, de «abençoar» tudo o que é inerente à vida, como «injustiça, desordens, sofrimento, tristeza, confusão, ansiedade», mas é preciso ter presente que a existência humana, no que tem de bom e negativo, «é a matéria-prima onde se deve inscrever a graça».

«Se não for na vida, onde é que a graça incide? A semente lançada, em que terra germinará? Parece que o cristianismo ainda precisa de se reconciliar com a realidade das coisas», declarou.

A fé, todavia, não resolve de imediato todas as cisões: «Qual foi a solução de Jesus para a samaritana, para Pedro, para a mulher adúltera? Não sei se Ele tem alguma solução. Se Jesus faz alguma coisa, é expor e acicatar a ferida; então já não se trata de uma solução para um problema, mas trata-se de atravessar a vida tomados pela graça».

«Como é que a vida dos crentes e das comunidades crentes assinala a vida dos outros com um toque de graça? Se a paróquia não coloca esta questão, como é que marca a vida concreta das famílias com esse toque da graça? Mas a nossa preocupação é “quantos estiveram?” – o valor do número, que não vale nada», vincou.

Para o padre José Frazão, o «essencial da fé» reside na «encarnação», isto é, no facto de Cristo ter habitado como homem no meio dos homens, pedra angular «que corre o risco de se tornar uma abstração».

«A verdade de Jesus Cristo, reconhecida pela fé, não sobrevoa a finitude; esta torna-se o lugar da exposição do Santíssimo; não é só uma custódia exterior, mas o lugar incontornável da revelação», referiu, acrescentando que não é possível «pensar Deus sem humanidade».

Perante a «tentação gnóstica de compreender o Espírito sem carne, sem história, sem linguagem, sem tangibilidade», urge não só «uma experiência de fé íntima, pessoal», como esta «precisa de ter visibilidade, precisa de se encarnar para testemunhar que a fé em Jesus Cristo assume uma forma reconhecível, identificável».

Para que a fé seja «um modo de fazer, estar, proceder, habitar, mais do que um código de conduta, um compêndio de moral, um baú de memórias», requer-se «discernimento», ou seja, «uma disposição a desejar profundamente e a querer verdadeiramente os sinais da passagem de Deus pelas linhas que tecem a existência».

«Por onde passa o Espírito na nossa história? O que quer de nós? Em que direção nos conduz? Não encontraremos a resposta se não se nos expusermos ao caminho que a pergunta faz diante de nós», realçou.

No entender do religioso, «o exercício do discernimento é difícil, complexo, implica compreensões diferentes sobre a mesma questão», especialmente quando entre os cristãos é notório «um défice enorme de colocar leituras diferentes da mesma realidade para se chegar a identificar a vontade de Deus».

Se, por um lado, é preciso vencer a resistência à mudança - «tornámo-nos odres velhos incapazes de conter a novidade do Espírito» -, por outro impõe-se um «tempo de espera e de paciência, para não haver precipitações a aderir ou a recusar».

O mais importante na vida espiritual, frisou o padre José Frazão, é ter a convicção de que «o valor do que não tem valor na vida espiritual são os pobres»: «São eles que nos vão julgar», segundo o Evangelho.

Na construção de «espaços habitáveis, humanos, e espirituais», dever que cabe a cada cristão, importa «escolher o que aproxima de Jesus: a pobreza, a humildade», assinalou.

 

Rui Jorge Martins
Publicado em 11.11.2014

 

 
Imagem © Pavel Prokopchik
Como é que a vida dos crentes e das comunidades crentes assinala a vida dos outros com um toque de graça? Se a paróquia não coloca esta questão, como é que marca a vida concreta das famílias com esse toque da graça? Mas a nossa preocupação é “quantos estiveram?” – o valor do número, que não vale nada
A verdade de Jesus Cristo, reconhecida pela fé, não sobrevoa a finitude; esta torna-se o lugar da exposição do Santíssimo; não é só uma custódia exterior, mas o lugar incontornável da revelação
Para que a fé seja «um modo de fazer, estar, proceder, habitar, mais do que um código de conduta, um compêndio de moral, um baú de memórias», requer-se «discernimento», ou seja, «uma disposição a desejar profundamente e a querer verdadeiramente os sinais da passagem de Deus pelas linhas que tecem a existência»
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