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"Cuidado ecológico e espiritualidade cristã" no "Observatório da Cultura"

Imagem © laszlolorik/Fotolia

"Cuidado ecológico e espiritualidade cristã" no "Observatório da Cultura"

A encíclica "Louvado sejas", do papa Francisco, é a semente da mais recente edição do "Observatório da Cultura", publicação do Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura que retoma agora a periodicidade bianual.

Dedicado ao "Cuidado ecológico e espiritualidade cristã", o "Observatório da Cultura abre com os textos de Luísa Schmidt ("'Laudato si'': uma esperança inovadora") e Viriato Soromenho-Marques ("Crise ambiental e condição humana: a propósito da 'Laudato si''").

O estudo de João Paulo Costa ("'Laudato si'', entre relação, latência e complexidade") e as perspetivas de Cristina Líbano Monteiro ("A fome injusta como desequilíbrio ecológico") e Luísa Couto Soares ("Formar uma 'cidadania ecológica'") completam esta edição.

A versão em papel do "Observatório da Cultura" é maioritariamente distribuída na assembleia plenária da Conferência Episcopal Portuguesa, que começou hoje, em Fátima.

Todos os artigos ficarão disponíveis durante os próximos dias na página do Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura, começando pelo texto do seu diretor, José Carlos Seabra Pereira, que assina a introdução deste número.

 

Natureza e cultura humana
José Carlos Seabra Pereira
In "Observatório da Cultura" n.º 22 (novembro 2015)

A Pastoral da Cultura é chamada a atentar e a influir nos modos de contrariar o arrastamento perverso do dualismo Natureza / Cultura e de reorientar os laços dos seres humanos com o mundo natural. 

O Homem é (também) Natureza; e a  Natureza é cultura humana. O que ao longo dos tempos se tem vindo a entendendo por "Natureza" resulta em grande parte de construções culturais, aliás sujeitas a sucessivas mudanças históricas.    

O mundo natural é parte grande do legado da Criação divina ao Homem; mas esse mundo natural evolui também pela forma como os homens o têm pensado e sentido, e sobretudo pelo que tem sido a relação com esse mundo natural e a ação exercida sobre ele. 

Quase sempre, lamentavelmente, essa relação e essa ação alheiam-se da corresponsabilidade na preservação e na fecundidade amorosa daquele legado divino - invocando muitas vezes, para se legitimarem, uma nefasta interpretação do antropocentrismo humanista.

Felizmente, no seio da tradição cristã - não obstante, a pretexto de Genesis 1.26, o Cristianismo ter sido considerado, por Lynn White Jr. e outros, a mais antropocêntrica das religiões - afirmou-se a compreensão de como a história humana está implicada na história natural e surgiram cativantes propostas de amor de todas as coisas em Deus. Com a espiritualidade franciscana, emergiu mesmo o princípio da retificação periódica do humano através do influxo da Natureza. 

Na nossa contemporaneidade, agudizou-se a consciência cristã de que a Salvação é de alcance universal - para todos os homens e para todo o cosmos; e acentuou-se a consciência de que os homens são corresponsáveis pelo destino salvífico do Mundo, devendo colocar o ecossistema a par da dinâmica social no centro da visão da Vida e da História. 

Sem dúvida, a afirmação progressiva do cuidado ecológico na segunda metade do século XX  foi poligenésica, decorreu de variadas motivações e conheceu desenvolvimentos plurais. Mas é reconfortante verificar que a atenção lúcida e generosa às naturais interdependências das formas de vida e do ambiente que partilham, desde os anos 60 se refletiam no discurso teológico - por exemplo, com o pensamento de J. Moltmann sobre as implicações cristológicas e soteriológicas (e não já apenas ético-sociais) da relação humana com o ecossistema - , ao passo que só nos anos 70 surgiam nos estudos artísticos e literários anglo-americanos  as primícias do "ecocriticism"... Depois consolidaram-se os movimentos ambientalistas e surgiram os consabidos desdobramentos radicais, com seus efeitos ou ecos ideológicos e culturais.

Tudo isso ganhou nova feição na problemática atual; tudo isso recebe nova luz com o verbo profético do Papa Francisco - colocando a Igreja na frente do debate de ideias e catapultando a missão cristã de serviço ao Mundo. Por isso o "Observatório da Cultura" do SNPC vem trazer um contributo polifónico para a receção consequente da encíclica "Laudato Si'".

 

Edição: Rui Jorge Martins
Publicado em 09.11.2015

 

 
Imagem © laszlolorik/Fotolia
Quase sempre, lamentavelmente, o ser humano, na sua relação com o mundo natural, alheia-se da corresponsabilidade na preservação e na fecundidade amorosa daquele legado divino - invocando muitas vezes, para se legitimar, uma nefasta interpretação do antropocentrismo humanista
A afirmação progressiva do cuidado ecológico na segunda metade do século XX conheceu desenvolvimentos plurais. Mas é reconfortante verificar que a atenção lúcida e generosa às naturais interdependências das formas de vida e do ambiente que partilham, desde os anos 60 se refletiam no discurso teológico
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