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A crueldade «é um grave escândalo da nossa cultura»: Papa fala de opressão, extermínio e esperança

«A vossa [Lituânia] é uma história de invasões, de ditaduras, de crimes, de deportações. Quando visitei o museu [da KGB, antigos serviços secretos da União Soviética] em Vilnius… museu é uma palavra que faz pensar no Louvre. Mas esse museu é antes uma prisão onde os detidos eram levados por razões políticas ou religiosas.

Vi celas da medida deste assento [de avião], onde só se podia estar de pé, celas de tortura. Vi lugares de tortura para onde, com o frio que há nesse país, levavam os prisioneiros nus e lhes lançavam água. E ficavam ali horas, horas, para quebrar a sua resistência.

E depois entrei na sala das execuções: os prisioneiros eram levados até lá à força e eram mortos com um golpe na nuca. Saíam através de uma rampa mecânica para um camião que os levava para a floresta. Assassinavam 40 por dia, mais ou menos. No fim foram 15 mil.

Depois fui ao lugar do grande gueto, onde foram mortos milhares de judeus; a seguir, na mesma tarde, fui ao monumento à memória dos condenados, mortos, torturados e deportados.



Muitos homens e mulheres foram torturados e deportados para a Sibéria e não voltaram, foram assassinados, por defender a sua fé e a sua identidade. A fé destes três países é grande, é uma fé que nasce precisamente do martírio



Nesse dia, digo-vos a verdade, fiquei destruído: fez-me pensar na crueldade. Mas digo-vos, a crueldade não acabou. A mesma crueldade encontra-se hoje em muitos lugares de detenção, encontra-se em muitas prisões. Mesmo a sobrepopulação de uma prisão é um modo de torturar, de não fazer viver com dignidade. Uma prisão que não dê hoje ao detido a saída para a esperança, já é uma tortura.

Depois vimos, na televisão, a crueldade dos terroristas do Estado Islâmico: aquele piloto jordano queimado vivo, os coptas degolados na praia da Líbia e tantos outros. Hoje a crueldade não acabou. Existe em todo o mundo, e quero dar esta mensagem a vós, como jornalistas: isto é um escândalo, um grave escândalo da nossa cultura e da nossa sociedade.»

«Outra coisa que vi nestes três países [Letónia, Lituânia, Estónia] foi o ódio contra a religião, qualquer que ela seja. O ódio! Vi um bispo jesuíta na Lituânia que foi deportado para a Sibéria durante 1’ anos, depois para outro campo de concentração, agora é idoso…

Muitos homens e mulheres foram torturados e deportados para a Sibéria e não voltaram, foram assassinados, por defender a sua fé e a sua identidade. A fé destes três países é grande, é uma fé que nasce precisamente do martírio, e essa é uma coisa que talvez vós tivésseis visto ao falar com as pessoas.



Diziam-me que com o que se gasta em armas num mês, poder-se-ia dar de comer a todos os famintos do mundo num ano. Não sei se é verdade, mas é terrível



Esta experiência de fé tão importante provocou um fenómeno singular nesses países: uma vida ecuménica como não há noutro lado, tão generalizada. Há um verdadeiro ecumenismo entre luteranos, batistas, anglicanos, ortodoxos. Vimo-lo ontem [segunda-feira], na catedral, no ato ecuménico em Riga: que coisa grande, irmãos, próximos, uma só Igreja.»

«Depois há outro fenómeno nestes países: a transmissão da cultura da identidade e da fé. Habitualmente a transmissão e feita pelos avós, porque os pais trabalhavam e foram educados ateus. Mas os avós souberam transmitir a fé e a cultura num tempo em que na Lituânia era proibido o uso da língua lituana e eliminada das escolas. Essa geração aprendeu a língua mãe dos avós. Quando um governo quer tornar-se ditatorial, a primeira coisa que faz é agarrar os meios de comunicação.»

«A ameaça das armas hoje, as despesas mundiais em armas são escandalosas. Diziam-me que com o que se gasta em armas num mês, poder-se-ia dar de comer a todos os famintos do mundo num ano. Não sei se é verdade, mas é terrível. A indústria, comércio e contrabando das armas é uma das maiores corrupções, e perante isto há a lógica da defesa. (…) É escandalosa hoje a indústria das armas diante de um mundo faminto.»


 

Papa Francisco
Excertos da conferência de imprensa a bordo do avião na viagem entre Tallinn e Roma, 25.9.2018
Andrea Tornielli
In Vatican Insider
Trad. / edição: Rui Jorge Martins
Imagem: rabantos_Shutterstock | D.R.
Publicado em 26.09.2018

 

 
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