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Leitura: "Crónicas ainda atuais"

O cardeal-patriarca, D. Manuel Clemente, vai apresentar esta segunda-feira, 11 de junho, em Lisboa, o livro "Crónicas ainda atuais" (Editorial Cáritas), de Pedro Vaz Patto, presidente da Comissão Nacional Justiça e Paz.

«Ao longo dos últimos anos, venho escrevendo periodicamente crónicas que procuram olhar e ler a atualidade à luz do Evangelho e da doutrina social da Igreja», explica o autor sobre os artigos selecionados, publicados na revista "Cidade Nova", do Movimento Focolares, de que é chefe de redação, e jornal "Voz da Verdade", do Patriarcado de Lisboa.

Pedro Vaz Patto manifesta o desejo de que os textos, prefaciados por D. Manuel Clemente, sejam interpretados «como sinal de que do Evangelho e da doutrina social da Igreja não decorrem apenas uma ou outra causa isolada», mas «um conjunto muito vasto de causas, todas elas articuladas entre si».

A sessão de apresentação do volume, de que apresentamos três textos, está marcada para as 18h30, no auditório central da Feira do Livro, certame onde a Editorial Cáritas está presente, representada pela Paulus Editora.

 

Gozar a vida
Pedro Vaz Patto
In "Crónicas ainda atuais"

«Provavelmente, Deus não existe. Por isso, deixa-te de angústias e goza a vida». Estas frases servem de base a uma campanha publicitária de uma associação de ateus militantes e podem suscitar vários comentários e várias questões: o que significa “gozar a vida?”; será que Deus nos impede de “gozar a vida”?

Desde logo, é perigoso, até para a harmonia da convivência social, dar a entender que a suposta inexistência de Deus se traduz num salvo-conduto para uma conduta irresponsável no plano moral. «Se Deus não existe, tudo é permitido» - ficou célebre esta frase de uma personagem do escritor russo Dostoievsky. Se a pessoa humana se vê a si própria como criadora das regras da sua conduta, sem as receber de um Ser que a transcende e perante o qual deva responder, esse risco existe. Mas há que reconhecer que muitos ateus não se revêem nesta postura de quem, por ser ateu, pode “gozar a vida” de forma irresponsável. O Papa Bento XVI tem, por isso, sugerido que crentes e não crentes adotem regras morais comuns «como se Deus existisse».



A experiência de muitos de nós diz-nos que Deus não nos impede de desfrutar as alegrias da vida. Pelo contrário, ajuda-nos a descobrir aquelas alegrias que não se esgotam na superficialidade de um momento passageiro de euforia e que perduram no tempo



Li outro tipo de comentários a estas frases, que me pareceram oportunos: que sentido tem sugerir que se “goze a vida” a uma pessoa que, por motivo de doença ou outro, experimenta um sofrimento atroz e inevitável? Afirma o Pe. Raniero Cantalamessa O.F.M. Cap. «Coloco-me no lugar de um pai que tem um filho deficiente, autista ou gravemente enfermo, de um imigrante que foge da fome ou dos horrores da guerra, de um operário que ficou sem trabalho, ou de um camponês expulso da sua terra…Pergunto-me como é que ele reagiria a esse anúncio: “Deus não existe. Não te preocupes e goza a vida”». Com essa sugestão – acrescento eu - não estamos a dizer que a vida dessas pessoas não tem sentido? Mas todos, num ou noutro momento, de uma ou de outra forma, conhecemos o sofrimento…

Na verdade, a experiência de muitos de nós diz-nos que Deus não nos impede de desfrutar as alegrias da vida. Pelo contrário, ajuda-nos a descobrir aquelas alegrias que não se esgotam na superficialidade de um momento passageiro de euforia e que perduram no tempo porque atingem o nosso ser mais profundo (aqueles “tesouros que a traça não corrói” de que fala o Evangelho). Deus não é inimigo da vida e da nossa liberdade; quando aparentemente limita a nossa liberdade, fá-lo em função de um bem maior, fá-lo para nos tornar autenticamente livres.



A “ecologia humana” não se basta com um repouso isolado e solitário. Requer ritmos coletivos de repouso, antes de mais como uma exigência da vida familiar, porque o dia de descanso deve ser o mesmo para todos os membros da família



A fé em Deus ajuda-nos também a descobrir o sentido do sofrimento a que nunca podemos escapar. Para os cristãos, Jesus crucificado e abandonado é a expressão máxima de um Deus que assume em primeira pessoa o sofrimento humano e nos indica o caminho que, através do sofrimento, nos conduz à plenitude da vida e do amor, à Ressurreição.

Desfrutar as alegrias da vida de pouco valeria sem o horizonte da eternidade. É este horizonte que nos faz identificar as alegrias que perduram e não se esgotam e que nos permite experimentar em Deus a plenitude do amor e da alegria. Uma experiência que se inicia aqui na terra (esta não é só “um vale de lágrimas”), mas que não morre, porque culmina no Paraíso.

 

Salvar o domingo
Pedro Vaz Patto
In "Crónicas ainda atuais"

Está em discussão pública, desde março e durante seis meses, uma diretiva da União Europeia sobre a duração do tempo de trabalho e nessa discussão se inclui a questão da salvaguarda da regra do domingo como dia de repouso. Representantes da Igreja Católica e de outras denominações cristãs mobilizam-se em prol da proteção do sentido tradicional do domingo, no que se unem a sindicatos e deputados europeus de várias tendências. Um simpósio com este objetivo decorreu em Bruxelas a 24 de março. Está em causa uma norma europeia que garanta uma proteção mínima, que poderá coexistir com legislações nacionais mais restritivas, como são atualmente as da França e da Alemanha, por exemplo. Mas a questão também se discute no plano da legislação interna destes países. Em França, um documento da Conferência Episcopal a tal relativo, "Le Dimanche au Risque de la Vie Actuelle", foi publicado em 2008.

Que o domingo se torne um dia igual aos outros – é o que poderá suceder se prosseguir uma tendência que hoje se faz sentir e que poderá refletir-se na diretiva que venha a ser aprovada. São, sobretudo, as vantagens para o funcionamento da economia que daí poderiam advir que são invocadas pelos representantes dessa tendência. Diz-se que bastaria que as pessoas pudessem optar por um qualquer dia de repouso, à sua escolha.

Importa, porém, considerar que diante de vantagens económicas há «valores mais altos que se levantam», porque «nem só de pão vive o Homem».



Proteger o sentido tradicional do domingo é uma questão de fidelidade às raízes cristãs da cultura europeia (por aqui se vê que o reconhecimento jurídico deste facto histórico pode ter consequências). E também de fidelidade aos princípios em que assenta o chamado “modelo social europeu”



Está em causa – é certo – o significado religioso do domingo, dia em que os cristãos celebram a ressurreição de Jesus. Ainda que sejam minoritários no conjunto da população os que cumprem o preceito do culto dominical, o respeito pela liberdade religiosa não pode deixar de os considerar. Razões históricas, culturais e sociológicas explicam que nos países europeus de tradição cristã seja o domingo, e não o sábado ou a sexta-feira, o dia de repouso comum. Mas até na Índia, onde os cristãos são uma pequena minoria, é o domingo esse dia de repouso comum. Isso não é incompatível com o respeito pelos direitos das minorias, como os adventistas do sétimo dia, que guardam o sábado com grande zelo.

Mas o domingo tem também um significado humano. Porque é um dia dedicado a Deus, é também um dia dedicado ao Homem, cujo significado, neste aspeto, também diz respeito aos não cristãos. Na Antiguidade, como na Revolução Industrial, por exemplo, o respeito pelo domingo sempre representou um obstáculo à desumanização do trabalho. Garante um espaço de liberdade, gratuidade e convivialidade que rompe o ritmo (massacrante, se for exclusivo) da produção e do consumo. É uma exigência daquilo a que João Paulo II, e agora Bento XVI, chamam a “ecologia humana”.

Dir-se-á que para isso basta a salvaguarda de um qualquer dia de repouso, não necessariamente o domingo. Este raciocínio reflete uma perspetiva individualista, que ignora a dimensão comunitária da realização da pessoa humana. A “ecologia humana” não se basta com um repouso isolado e solitário. Requer ritmos coletivos de repouso, antes de mais como uma exigência da vida familiar, porque o dia de descanso deve ser o mesmo para todos os membros da família, quem trabalhe e quem estude. E também como uma exigência da vida associativa em domínios tão variados como o religioso, o cultural, o político ou o desportivo. Se o domingo fosse um dia de trabalho como outro qualquer, muitas atividades nesses âmbitos não poderiam realizar-se, com o consequente empobrecimento da vitalidade da sociedade civil.

E não se diga que se trata de respeitar a opção individual do trabalhador por outro dia de repouso, pois este está normalmente numa situação de dependência que o leva a aceitar condições de trabalho que não escolhe, por não ter alternativas de emprego.

É uma questão de alcance civilizacional a que está em causa. Proteger o sentido tradicional do domingo é uma questão de fidelidade às raízes cristãs da cultura europeia (por aqui se vê que o reconhecimento jurídico deste facto histórico pode ter consequências). E também de fidelidade aos princípios em que assenta o chamado “modelo social europeu”, princípios que também alguma relação têm com essas raízes.


 

SNPC
Imagem: Capa | D.R.
Publicado em 07.06.2018

 

Título: Crónicas ainda atuais
Autor: Pedro Vaz Patto
Editora: Editorial Cáritas
Preço: 15,00 €

 

 
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