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Críticos do papa criam «mitologia» e apoiam Igreja «esclerótica e muito rígida», diz cardeal Ravasi

O presidente do Conselho Pontifício da Cultura considera que é preciso defender o papa contra as arremetidas daqueles que têm um conceito da Igreja «esclerótica e muito rígida».

O cardeal italiano Gianfranco Ravasi observa que os ataques colocam em crise «a arquitetura da fé», ao criar uma «confusão extrema» entre os fiéis, embora não esteja particularmente preocupado com as investidas contra Francisco, dado que houve sempre lutas internas, embora agora tenham mais repercussão mediática.

«Do ponto de vista teológico não têm onde se agarrar», assinala o responsável, para quem são «muito poucos» os simpatizantes das páginas da internet «ultraconservadoras»: «Em alguns casos tinham cerca de mil seguidores. Eu próprio tenho 105 mil seguidores no Twitter, e não é um grande número».

 

Há muitas pessoas preocupadas com as notícias que apresentam o Vaticano como um ninho de corvos. A atmosfera na Cúria Romana piorou desde que chegou a ela há 11 anos?

Diria que não, embora obviamente este período que conheço de Bento XVI e Francisco tenha sido diferente do ponto de vista da experiência pastoral. É inegável. Cada pontificado tem a sua identidade, o que faz parte do dinamismo da própria Igreja. A mudança de horizontes sociais exige também uma mudança nos horizontes pastorais. Mas ambos foram atravessados ​​por tensões fortes. Com Bento XVI houve lutas internas e já havia o problema da pedofilia. Também surgiu então o problema da Irlanda.

 

Não há, então, um ambiente irrespirável dentro da Cúria Romana?

De maneira nenhuma. Nem ela é um ninho de víboras. Nas reuniões dos chefes dos dicastérios vaticanos, por exemplo, a imprensa poderia estar perfeitamente presente para ver que não qualquer atmosfera irrespirável. Isto não exclui que existam diferentes sensibilidades e visões eclesiais com acentos diferentes, obviamente. Muitos escândalos expandem-se. Pensemos, por exemplo, o que foi o caso de Paolo Gabriele, o antigo assistente de Bento XVI.

 

A novidade é de que os ataques vêm agora do setor mais conservador, que tradicionalmente se sentiu muito ligado à figura do bispo de Roma?

Sim. Dentro do horizonte jornalístico e cultural há sempre pulsões e expressões que, no final, são instrumentais. Acontece sempre, é inevitável. O facto de que essa diversidade exista é indiscutível. Penso que essa atitude é promovida em parte pelos meios de comunicação, que mudaram muito a sua posição desde os tempos de Bento XVI. A Internet já existia, mas o poder das redes sociais explodiu nos últimos quatro ou cinco anos.

 

Como vive pessoalmente o facto de haver companheiros seus do Colégio Cardinalício, que critiquem de forma quase agressiva o papa?

Evidentemente sinto-me muito próximo por sensibilidade ao papa Francisco, mas não esqueçamos que Bento XVI me apoiou completamente no dicastério e foi ele quem me chamou para Roma. Vejo que existem sensibilidades e visões eclesiais diversas. Aqui voltamos sempre ao facto de que se pode conceber o corpo eclesial não como um corpo ideal, mas como um corpo composto por pessoas concretas e diversas.

 

Tem ideia de quantos são na realidade os inimigos internos do papa?

Uma vez fez-se uma investigação sobre aqueles que seguem as páginas da internet ultraconservadoras e viu-se que são muito poucos. Em alguns casos tinham cerca de mil seguidores. Eu próprio tenho 105 mil seguidores no Twitter, e não é um grande número. Mas eles são muito hábeis em confecionar o seu discurso. Sabem usar as técnicas da internet. E depois há o eco dos meios de comunicação social, também daqueles que poderiam ser favoráveis ​​ao papa, e assim as coisas expandem-se cada vez mais. Enquanto isso, o povo, que na sua maioria está conectado com Francisco, fica desconcertado.

 

Considera que por trás destes ataques está a vontade de conseguir que Francisco renuncie ao pontificado?

Pode ser. Mas Francisco não é uma pessoa que deixe de dormir por causa disso. Embora sejam coisas que, sem dúvida, ferem. Acontece o mesmo comigo. Quando me atacam, não tenho problemas para dormir; além disso, fico curioso para ver os argumentos que são usados. Há uma acrimónia pela qual elementos que podem ser reais são usados ​​de maneira maliciosa.

 

Existe uma estratégia planeada para atacar o papa?

Há muitos elementos que coincidem na rede que é a internet, mas não há atrás deles um "big brother”. Alguns são mais poderosos que outros, mas também há diferenças entre eles. É mesquinho perdermo-nos nessas polémicas quando se podem tratar questões delicadas e importantes. Mas é necessário apoiar o papa. Os críticos contam com núcleos de informação com os quais são capazes de criar uma mitologia. Usam para atacar problemas reais, como o dos abusos. Falam, por exemplo, do "caso McCarrick", mas foi precisamente Francisco que o expulsou do Colégio Cardinalício, o que não é um fenómeno único, mas é raríssimo.

 

Qual é a motivo de base para a falta de sintonia de alguns com o papa? Descontentamento pela reforma, pela sua posição pastoral ou pela luta contra a pedofilia?

É pelo conceito da Igreja. Muitos daqueles que se opõem a Francisco têm um conceito de Igreja esclerótico e muito rígido. Em contrapartida, do ponto de vista teológico não têm onde se agarrar. O papa Francisco colocou mais ênfase na parte pastoral do que na estrutural, tendo em conta que o quadro doutrinal já é bastante sólido. A sua pregação está ligada à tradição da Igreja. Nas críticas pesam também os interesses políticos e pessoais, porque alguns querem afirmar-se e conseguir poder.


 

Darío Menor
In Vida Nueva
Trad. / edição: Rui Jorge Martins
Imagem: Card. Gianfranco Ravasi | D.R.
Publicado em 09.09.2018

 

 
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