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Cristianismo e política

Imagem Parlamento europeu | D.R.

Cristianismo e política

Houve um tempo em que os políticos europeus sabiam muito bem que um dia teriam de prestar contas ao supremo criador e juiz. Isto exprime magistralmente Calderón de la Barca na sua obra “O grande teatro do mundo”, dizendo: «Façamos o bem, porque Deus é Deus». É a voz da consciência, que Reinhold Schneider definia como «estar consciente da nossa responsabilidade diante do Criador por tudo o que foi criado».

Diferentemente do islão, o cristianismo não tem nenhum programa político concreto.

Nem o é o “discurso da montanha”, núcleo da “philosophia Christi” para humanistas como Erasmo. Trata-se sobretudo de um convite a ser «perfeitos» (Mt 5,48), a praticar já, na Terra, «a justiça nova» (Mt 5,20) do Reino dos Céus.

E a política é, como dizia Bismarck, o terreno do possível, não do perfeito. Mas os limites do possível não são marcados pela sua mera possibilidade de ser ou pela capacidade maquiavélica da vontade do poder, mas pela moral e pela consciência, que devem caracterizar os políticos cristãos.

Os políticos cristãos têm o direito de ser orientados pela sua consciência.

Mas para saber o que corresponde ao “humanismo cristão” devem também ter em conta o magistério da Igreja e a teologia. Caso contrário, aquele tornar-se-á um mantra, um álibi para atrair os eleitores cristãos para um projeto político que o obriga depois a engolir sapos atrás de sapos e a votar com o nariz tapado.

Sublinhar o papel do magistério e da teologia da Igreja na formação da consciência dos políticos cristãos não significa voltar aos dias do tradicionalismo ultramontano, quando o leigo era considerado a extensão da mão do clero.

Na constituição pastoral do Concílio (“Gaudium et spes”), a Igreja reconheceu aquilo que, a partir do Renascimento, se tornou cada vez mais evidente: «a autonomia do homem, da sociedade e da ciência» (n. 36). Ela afirma também que «a missão própria que Cristo confiou à sua Igreja não é de ordem política, económica ou social» (n. 42), mas de «ordem religiosa». Mas acrescentou que «desta mesma missão religiosa deriva um encargo, uma luz e uma energia que podem servir para o estabelecimento e consolidação da comunidade humana segundo a lei divina».

Hoje, todavia, seria um anacronismo que bispos e teólogos fizessem sua, à letra, as palavras do mestre Francisco de Vitoria no início do seu texto “Sobre o poder civil”, de 1527: «O trabalho e a função do teólogo são tão amplos, que parece não haver nenhum problema, pergunta ou questão que lhe sejam estranhas».

Estas palavras poderiam soar hoje como uma pretensão excessiva. Quem se exprime sobre assuntos da vida pública possui apenas o valor que tem a sua argumentação, não aquele que pretenderia ter pela autoridade do seu papel.

Perante certas leis, a Igreja esperará dos políticos cristãos que sigam o exemplo do seu patrono, Tomás Moro, e saibam dizer abertamente «não» quando não podem contribuir para uma reforma de determinada legislação com o objetivo de limitar a sua nocividade moral. Aqueles que assim agem sabem que hoje não têm de pagar com a sua vida: no máximo com a renúncia do lugar (e dos benefícios inerentes), como alguns fizeram nos últimos anos.

Aos políticos cristãos não causaria dano ter mais coragem – onde está esta virtude na política de hoje? – para dizer «não» quando a dignidade humana é pisada ou os princípios do “humanismo cristão” são ridicularizados. Isto requer uma reflexão prévia, porque, como disse Baltasar Gracián, «o não e o sim são breves a pronunciar mas pedem muita reflexão».

Os políticos cristãos devem defrontar hoje algumas tentações. Uma delas é a de confundir o legítimo pluralismo com a indiferença ou o relativismo ético, o pragmatismo ou a simples salvaguarda de interesses inerentes à sua carreira política.

Nas discussões respeitantes aos valores, os políticos cristãos tendem a bater em retirada em vez de entrar no debate. Tudo para não serem tidos como conservadores, reacionários ou ligados à Igreja. Muitos políticos cristãos são mornos e especializaram-se em posicionar-se ao centro, a servir dois senhores, a entorpecer a sua consciência. Confundem a tolerância com a sua incapacidade de defender com prudência os próprios princípios e os dos seus eleitores. Esquecem que as linhas de demarcação na política não passam só pela economia, mas também através dos valores.

Os políticos cristãos devem ser «prudentes como as serpentes e simples como as pombas» (Mt 10,16).

 

Mariano Delgado
Professor de História da Igreja na Universidade de Friburgo, Suíça
In “Átrio dos Gentios”
Trad. / edição: Rui Jorge Martins
Publicado em 04.12.2014

 

 
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Perante certas leis, a Igreja esperará dos políticos cristãos que sigam o exemplo do seu patrono, Tomás Moro, e saibam dizer abertamente «não» quando não podem contribuir para uma reforma de determinada legislação com o objetivo de limitar a sua nocividade moral
Os políticos cristãos devem defrontar hoje algumas tentações. Uma delas é a de confundir o legítimo pluralismo com a indiferença ou o relativismo ético, o pragmatismo ou a simples salvaguarda de interesses inerentes à sua carreira política
Muitos políticos cristãos são mornos e especializaram-se em posicionar-se ao centro, a servir dois senhores, a entorpecer a sua consciência
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