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Cristianismo e cultura

Imagem Igreja de Marco de Canaveses | Siza Vieira | D.R.

Cristianismo e cultura

O simples enunciar deste tema pode suscitar reações muito diversas: alguns sentirão que é uma questão passível de abordagem histórica (para não dizer arqueológica) mas absolutamente irrelevante no presente de sociedades secularizadas (como as nossas do Ocidente – e é essencialmente neste espaço que se situa a presente reflexão); outros, justamente a partir desse fecundo relacionamento histórico (sobretudo no Ocidente, na Europa), pensam chegada a hora de o Cristianismo se voltar a fazer presente e bem visível nos vários domínios da cultura.

O tema, em si, permanece atual, e não é possível esquecer os recentes debates sobre se, na Constituição Europeia, deveria ou não figurar uma referência explícita ao Cristianismo. Falar, pois, do Mistério de Deus, no nosso aqui e agora, pede uma reflexão serena sobre a relação cristianismo-cultura.

 

Modalidades na relação cristianismo-cultura


A relação do cristianismo com a cultura e as culturas conheceu diferentes modalidades nestes dois mil anos de história. Uma obra clássica nesta matéria – o livro de R.Niebhur, «Cristo e Cultura»(1) – considera cinco grandes modelos dessa relação: Cristo contra a cultura, o Cristo da cultura, Cristo acima da cultura, Cristo e a cultura, o Cristo transformador da cultura. Sem deixar de reconhecer o valor da contribuição deste autor, penso que poderíamos aceitar essencialmente três tipos de posição assumidas pelo cristianismo face à cultura, ainda que alguns deles se possam desdobrar em subtipos bem específicos. Refiro-me, pois, à rejeição cristã da cultura (modelo de oposição), à identificação perfeita entre fé e cultura (modelo de fusão) e, finalmente, ao diálogo entre fé cristã e cultura (modelo de síntese) (2). Nestas considerações, por outro lado, assumimos o riquíssimo conceito de “cultura” essencialmente em duas grandes aceções: a humanista-civilizacional (cultura como sendo o cultivo das artes, das letras, dos espíritos) e a das ciências sociais (cultura como arte de viver de um povo, sistema integrado de crenças, valores, instituições, usos e costumes, etc.) (3).


a) Oposição fé-cultura

Esta modalidade caracteriza-se por uma atitude de recusa da cultura (considerada pagã), pela reivindicação de um espaço próprio para a fé e por uma apologética (quer no sentido da denúncia do não-cristão quer no sentido do aperfeiçoamento e declaração do credo, da ortodoxia). Essa atitude é visível, por exemplo, logo nos inícios do cristianismo, quando a tendência judaízante das primeiras comunidades vive grande desconfiança face à cultura helenista; está patente no cristianismo dos séculos III e IV quando, diante das perseguições, as comunidades optam por uma espécie de vida em “gheto” – Tertuliano dizia : «o que tem Atenas a ver com Jerusalém? A Academia com a Igreja? Os hereges com os cristãos?» (4); a Didaskalia afirma: «Evita todos os livros dos pagãos. O que tens a ver com falas ou leis estranhas ou com profecias mentirosas que desviam os jovens da fé?» (5); foi atitude também, ao menos na prática, aquando do contacto com os povos dos novos mundos, a quem era necessário batizar e civilizar; e, claro, é algo de evidente no nosso Ocidente com as dificuldades e resistências face ao iluminismo, liberalismo e modernismo – aí a justificação para, ao fim de 400 anos de modernidade, o Papa Paulo VI declarar na Evangelii nuntiandi n. 20: «a rutura entre evangelho e cultura moderna é o grande drama do nosso tempo».


b) Identificação fé-cultura

Esta modalidade caracteriza-se pela fusão do evangelho e da vida cristã com a cultura, normalmente tomando uma cultura particular como paradigma universal, e conduzindo a uma institucionalização do elemento cristão. Dá-se uma consequente sacralização de instituições e realidades sócio-culturais e, paradoxalmente, alguma secularização da instituição eclesial (que é a configuração histórica do cristianismo), patente nos seus interesses pelos poderes temporais e nos efetivos privilégios sociais. Sem dúvida que o exemplo mais acabado desta identificação é o da era da cristandade, onde o cristianismo passa a ser ‘massa’ e se instala no Império. Esta ligação à cultura produziu os seus frutos: no ensino, desenvolvimento do pensar, criatividade nas artes, etc; mas não deixou de originar muitas conversões por imposição ou vantagens sociais, alguma superstição e, como já se referiu, a desconsideração de outras culturas onde, legitimamente, se poderia também pensar uma relação profunda com a fé cristã.


c) Síntese fé-cultura

A modalidade que hoje se propõe com a teologia da inculturação, segundo a qual o Evangelho dialoga positivamente com cada cultura. Tal perspetiva foi enunciada pelos Padres Conciliares no Vaticano II, ao afirmarem a justa autonomia das realidades terrestres, da cultura e das culturas, mas reconhecendo e afirmando também que o Evangelho «sempre levanta a cultura do homem decaído» (Gaudium et spes n. 59). Esta atitude assume uma revisão serenamente crítica quer da instituição eclesial quer das realidades sócioculturais e promove uma reconciliação com o verdadeiramente evangélico do mundo e da Igreja. É o modelo presente em todas as formas de evangelização inculturada ao longo da história da Igreja (desde S. Paulo até Libermann em África, passando por Agostinho de Cantuária na Inglaterra ou os jesuítas Nobili e Ricci no Oriente), presente no pensamento dos Padres dos primeiros séculos – quando falaram em “sementes do Verbo” nas culturas ou da cultura como “preparação evangélica” – e é, afinal, o testemunho da figura de Jesus de Nazaré, o qual assumiu naturalmente toda a cultura judaica do seu tempo mas, simultaneamente, também soube “desculturalizar-se”, sempre que a sua Boa Nova se descobria incompatível com a cultura em qualquer dos seus domínios: religioso, sócio-económico, legislativo, moral, etc.

 

Elementos de uma relação positiva entre a religião e a cultura

Hoje, é já com alguma serenidade que podemos constatar um real e desejável equilíbrio na relação entre estas duas realidades; há claramente uma influência recíproca entre religião (e aqui situamo-nos no quadro da religião cristã) e cultura (6).


a) Por um lado, a cultura é algo de essencial à vida e felicidade do homem, de qualquer homem ou mulher de qualquer tempo ou lugar. Ela «é o modo específico do ser e do existir do homem (…) ela é aquilo pelo qual o homem, enquanto homem, é mais, acede mais ao ser» (7). Qualquer religião – e o cristianismo não é exceção – serve-se naturalmente de um sem número de elementos culturais para se configurar como algo de relevante para a vida dos homens e mulheres que a professam: é a cultura agrícola que oferece os ritmos para as principais festas religiosas (no caso cristão, o Natal celebra-se num solstício, a Páscoa junto a um equinócio e a partir do calendário lunar…), é a cultura de cada povo e lugar que oferece à religião os elementos naturais que se convertem em símbolos sagrados (os sacramentos cristãos nasceram marcados pela cultura mediterrânica do pão de trigo e do vinho de uva, pelo óleo de oliveira…), a língua e o pensamento que ela ajuda a estruturar (elementos fundamentais em qualquer cultura) oferecem os quadros de cristalização da fé e do respetivo credo (lembremos que a Bíblia foi escrita em hebraico e grego, com as suas virtualidades e também condicionantes; que o credo cristão se socorreu de noções filosóficas como “pessoa” ou “natureza”), e é indiscutível que uma cultura hodierna da informática e do audiovisual abriram ao cristianismo possibilidades imensas de evangelização.


b) Por outro lado, é inegável que a religião – qual alma da cultura ou, no dizer de Paul Tillich, «a substância que dá sentido último à cultura» (8) – quase sempre foi fator de coesão social (visível em manifestações públicas ou festas comunitárias, por exemplo as da religiosidade popular aqui no nosso país), foi matriz da maior parte dos elementos culturais (no caso do cristianismo veja-se como ensinou a escrever, a pensar, a expressar-se estética e arquitetonicamente), foi até, nalguns casos, fator de desenvolvimento científico (o monoteísmo cristão ajudou à libertação duma mentalidade numinosa da criação e estimulou a responsabilidade do conhecimento e ação sobre a natureza, que deixa de estar endeusada), é capaz de oferecer um sentido e uma ‘sanção’ ao esforço humano (notemos que o cristianismo, bem como as demais religiões, transportam consigo uma ética e uma resposta às ânsias de salvação, permitindo até integrar as experiências do fracasso e do limite próprias da experiência humana). A religião, afinal, e em última instância, oferece uma pauta de humanização à cultura, a toda e qualquer cultura. Nesta linha de pensamento, nunca será demais recordar as proféticas palavras de Henri de Lubac: «Não é verdade que o homem não possa organizar a terra sem Deus. O que é verdade é que, sem Deus, ele acaba por organizá-la contra o homem. O humanismo exclusivo é um humanismo desumano». (9)

 

A persistência visível do cristianismo na cultura europeia

Há já algumas décadas, T.S.Eliot afirmou: «Não creio que a cultura da Europa pudesse sobreviver ao desaparecimento total da fé cristã (…) Se o cristianismo desaparecesse, a nossa cultura desapareceria por completo» (10). Não creio ser possível ir tão longe… sobretudo se entendermos a afirmação do autor no sentido de que a Europa é incuravelmente cristã… Também não creio ser necessário ir tão longe para sublinhar a ainda significativa presença do cristianismo entre nós. Mas creio que, humildemente, é possível dizer, como o faz J.Doré, que «pelo menos em três domínios permanece “qualquer coisa” do cristianismo» (11) na cultura europeia. A que domínios nos referimos?


a) Em primeiro lugar, a um prodigioso património artístico. Da literatura à música, passando pela pintura e a escultura, a arquitetura a tapeçaria ou o vitral, é um facto que a fecundidade do cristianismo está bem à nossa vista. E, certamente, não se avizinha o momento de deitar abaixo as catedrais das nossas cidades (não projetou, ainda há pouco, o nosso mestre bem reconhecido, Siza Vieira, mais uma imponente Igreja), nem de proibir os concertos com a interpretação da Paixão, de Bach, ou que não se continuem a fazer filmes sobre Jesus de Nazaré…


b) Em segundo lugar, a uma notável inspiração ética. A cultura europeia é claramente devedora face ao judeo-cristianismo de valores como a dignidade absoluta de toda a pessoa humana, o direito à vida e uma vida digna, a justiça para todos, uma atenção especial para com os desfavorecidos, enfim, o apelo ao amor do próximo como de si mesmo. De resto, o marxista insuspeitado M.Machovec, ainda que algo heterodoxo, foi capaz de o reconhecer, quando afirmou: «quanto tempo durará ainda a religião? Esta pergunta não tem para mim especial interesse. É que também existem muitos ópios ateus…Pessoalmente, não me traria grande desgosto o facto de a religião acabar. Mas se tivesse de viver num mundo no qual Jesus fosse inteiramente esquecido, então preferia não continuar a viver» (12); de facto, é da fonte do cristianismo que brotaram «aqueles ideais, aqueles modelos, aqueles indicadores de valores sem os quais, qualquer sociedade, mesmo a mais organizada, a mais rica e a mais aperfeiçoada no plano técnico, acabaria por se tornar lastimável e bárbara» (13).


c) Em terceiro lugar, o cristianismo deixa-se assinalar por uma viva impregnação simbólico-conceptual. Será realmente muito difícil aos ocidentais que nós somos abandonar todo um imenso reservatório de palavras e de noções, de imagens e símbolos, de representações e de conceitos, de factos e acontecimentos que, permanecendo na nossa cultura, nasceram, de facto, com a marca do cristianismo. Não se prevê que o Natal deixe de ser celebrado (mesmo pelo ateu ou crente de outra religião), que não se constituam grupos musicais de “anjos” e “santos e pecadores”, que muitos adeptos dum clube de futebol aqui bem perto deixem de ir à “catedral da luz”, esperando todos nós que o “calvário” ou “inferno” da nossa seleção nacional nos últimos jogos não nos impeça de chegar a uma fase final entre os “eleitos” nem tão pouco nos conduza a, no fim dos jogos, “chorarmos como uma Madalena”…


 

A permanente relevância do cristianismo para a cultura

Se o Ocidente, e a nossa Europa em particular, são efetivamente devedores de algo bem importante face ao cristianismo, e se este se deixa assinalar ainda hoje de forma significativa na cultura, como perspetivar o futuro dessa relação? (14) Costumo dizer que não sei de vitórias antecipadas nem de derrotas anunciadas… Creio, entretanto, que se abre hoje uma oportunidade recíproca ao cristianismo e à cultura europeia e, através desta, a toda a humanidade. Para a evocação dessa oportunidade, socorro-me de dois pensamentos que partilho por inteiro (15):


– «Não se trata de uma evocação nostálgica destinada a copiar modelos do passado. O que está em causa é a missão atual da Europa que a deve impelir, por fidelidade criativa às suas raízes cristãs, a promover a inevitável globalização na solidariedade e sem marginalizações. A Europa está chamada a ser mestra do verdadeiro progresso, a concorrer para uma paz justa e duradoira no seu interior e no mundo inteiro, a unir as diversas tradições para dar vida a um humanismo em que o respeito pelos direitos, a solidariedade e a criatividade permitam a cada homem realizar as suas aspirações mais nobres»(16);


– «A pastoral da cultura, nas suas múltiplas expressões, (…) não tem outro objetivo que o de ajudar toda a Igreja a cumprir a sua missão de anunciar o Evangelho. No limiar do novo milénio, com a força da Palavra de Deus, inspiradora de toda a existência cristã, ela ajuda o homem a superar o drama do humanismo ateu e a criar um «novo humanismo» (G.S. 55) capaz de suscitar, em toda a parte do mundo, culturas transformadas pela prodigiosa novidade de Cristo, que se fez homem para que o homem seja divinizado, se renove à imagem do seu Criador e «cresça como homem novo» (Ef.4,24). Que Ele renove todas as culturas pela força criadora do seu Espírito Santo, fonte da qual brota a beleza, o amor e a verdade» (17).


 

(1) Versão portuguesa da Editorial Paz e Terra, Rio de Janeiro, 1967.
(2) Sobre o tema, cfr J.Nunes, Mundo das culturas – epifania de Deus?, Cadernos ISTA 4/1997, pp.25-33.
(3) É esta também a perspetiva de I.Ferin, unindo-se a Edgar Morin, in Comunicação e culturas do quotidiano, ed.Quimera, Lisboa, 2002, p.45: «A palavra “cultura” oscila entre um sentido totalizante e um sentido residual, entre um sentido antropo-socio-etnográfico e um sentido ético-estético, sendo a primeira corrente inerente ou derivada do estruturalismo e a segunda fundamentada no “plasma existencial”».
(4) Tertuliano, De praescriptione haereticorum 7, 9s; PL 2,20.
(5) Didaskalia Apostolorum I, VI.
(6) Tal “serenidade” resulta, certamente, do longo processo de secularização que no Ocidente se desenrolou e conduziu a uma legítima autonomia da cultura face à religião e vice-versa. Cfr, a este respeito, o recente trabalho de J.Martin Velasco, Metamorfose do sagrado e futuro do cristianismo, Gráfica de Coimbra, Coimbra, 2004.
7 J.Paulo II, Discurso à Unesco (1980), nn.6-7.
(8) P.Tillich, Théologie de la culture, Ed.Planète, Paris, 1968, p.92.
(9) H.de Lubac, Le drame de l’humanisme athée, Cerf, Paris, 1983, p.12.
(10) T.S.Eliot, Notas para uma definição de cultura, Sec.XXI, Lisboa, 1996, pp.142-143.
(11) J.Doré, “Christianisme et Culture”, NRT 124 (2002), p.383.
(12) São estas as palavras finais do seu texto, in “Os marxistas e Jesus”, Iniciativas Editoriais, Lisboa, 1976, p.98.
(13) M.Machovec, Jesus pour les athées, Desclée, Paris, 1978, p.8. Esta mesma intuição foi expressa por P.Poupard, in “L’Eglise au défi des cultures”, Desclée, Paris, 1989, p. 131, com as seguintes palavras: «Destino trágico este do ateísmo transformado em religião e constituindo-se elemento civilizacional (…) O fracasso dramático das religiões secularistas conduziu ao retorno da ética e a uma aspiração profunda a reencontrar valores, como fundamento sólido da existência pessoal e social».
(14) Cfr, a este respeito, a reflexão muito séria e serena de P.Poupard, op.cit., sobretudo nas pp.128-144.
(15) Pensamentos, aliás, muitíssimo bem fundamentados no texto da COMECE (Comissão dos Episcopados da Comunidade Europeia), “O Futuro da União Europeia e a Responsabilidade dos Católicos”, publicado em Bruxelas, 9-5-2005. Destacaria, em particular, os nn.34-35, intitulados: “Uma ética para a vida dos cristãos: as Bem-Aventuranças como carta fundamental”.
(16) Fr.Bento Domingues, Arquitetar uma Europa sem religião?, Jornal “Público”, 22-10-2002.
(17) Conselho Pontifício da Cultura, Para uma Pastoral da Cultura (n. 39), Ed. Paulinas, Lisboa, 1999, pp. 69-70.

 

José Nunes
Faculdade de Teologia da Universidade Católica Portuguesa
In "Didaskalia", n. 38
Publicado em 10.12.2014

 

 
Imagem Igreja de Marco de Canaveses | Siza Vieira | D.R.
Há já algumas décadas, T.S.Eliot afirmou: «Não creio que a cultura da Europa pudesse sobreviver ao desaparecimento total da fé cristã (…) Se o cristianismo desaparecesse, a nossa cultura desapareceria por completo». Não creio ser possível ir tão longe…
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