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Crescer, mas porquê e para quê?

Imagem D.R.

Crescer, mas porquê e para quê?

Após a II Grande Guerra, talvez seja este o mito cultural mais enraizado na população da Europa. O dinheiro do Plano Marshall (dos EUA) e os trinta anos de sucessivo crescimento da economia (até às crises do petróleo, de meados dos anos setenta) geraram nos cidadãos das sociedades europeias a ideia de que o emprego e o consumo se expandiriam sempre, que haveria recursos sempre e crescentemente disponíveis para o Estado gastar e de que este modelo não teria mais um travão. Mesmo depois da crise dos anos setenta do séc. XX, sempre se foi escondendo a fragilidade crescente dos pressupostos que geraram tanto consumo, seja individual seja coletivo.

Sem o mesmo modelo de crescimento económico, nunca mais seria possível manter o mesmo tipo de vida; mas não, esta premissa muito raramente esteve sobre a mesa. Além disso, o próprio modelo de crescimento era altamente lesivo da capacidade do globo terrestre se preservar e da vida se perpetuar, num ambiente sustentável. Fez-se de conta e, nos trinta anos seguintes (1975-2005), seguiu-se em frente e, lentamente,... um carro relativamente governado foi-se desgovernando (não, esta crise não começou ontem! Eclodiu ontem, em 2008, isso sim, pelas mãos de gente sem escrúpulos, aqui, em Portugal, e na cena internacional!).

A incidência cultural desta crença é muito mais vasta do que se pode, por vezes, pensar. José Mattoso diz que «a crença no progresso constante foi um engano porque pressupõe a superação do tempo e a supressão da liberdade. Com efeito, o tempo traz consigo o envelhecimento e a morte. E a liberdade tem como contrapartida a possibilidade de escolher o bem, mas também a violência, a opressão e a crueldade. Ora o homem não pode viver sem tempo e sem liberdade. Tem de morrer para dar lugar a outros homens. Tem de conquistar a sua dignidade de forma livre e consciente.»

O nosso país, desgraçadamente perdido e por demasiado tempo, na Europa e no mundo, fechado sobre o seu «orgulhosamente só», no seu período tardio de descompressão, em democracia e liberdade, no pós-25 de abril de 1974, portanto já em cima de um ciclo de crises económicas sucessivas, ainda mais foi sendo atacado por uma tentativa fantasiosa de viver o estilo de vida típico dos “trinta gloriosos” e da ideologia utópica do crescimento e do progresso (e este foi o clima em que trabalhámos, constituímos família e educámos os nossos filhos!).

Ao mesmo tempo delapidámos muitos dos recursos naturais de que dispúnhamos, destruímos florestas, inquinámos rios, desfizemos orlas marítimas, aldeias inteiras ficaram sem vida humana e a natureza sem o humano cuidado e criámos um modelo de vida que continua a tornar-se ecologicamente insustentável. A biosfera degradou-se e os meios rurais foram sendo desprotegidos e muito abandonados. Nas cidades em crescimento, com enormes desigualdades sociais e cheias com torrentes de fluxos migratórios, optámos por criar ilhas ou silos sociais, desenhando-as como derrotas, à partida, em termos da possibilidade e da necessidade de cruzarmos as fronteiras do diferente e do desigual. Fechamos grupos sociais em bairros sociais sem atravessamentos e sem saída. Décadas mais tarde, seguindo o mesmo conceito, desenvolvemos os condomínios fechados. Nas cidades, criámos verdadeiros infernos terrestres, agora que os outros, os imaginados, vão desaparecendo do horizonte cultural. Em 2013, no Porto, até já começámos a implodi-los, porque aos infernos terrestres é impossível reformá-los.

Diversos atores dominantes revelam um “carácter não social” no seu modo de agir, quer no campo do capitalismo financeiro quer no campo da direção política, campo este por aquele capturado. As categorias morais e éticas, como diz A. Touraine e L. Bruni, desligaram-se das categorias económicas e políticas. Os capitais que estavam disponíveis para o investimento e para o crédito - de que tanto carecemos hoje - foram sendo desviados para a especulação financeira, sem finalidade económica, tendo o capital financeiro como única prioridade produzir mais capital para aplicar na especulação financeira, reduzindo a escombros muitas das promessas do capitalismo industrial; assim, os recursos disponíveis já não são aplicados em função da sua utilidade social e política, pois os valores e a cultura económica das pessoas (incluindo empresários e empreendedores) e das instituições deixam de ter voz na sua aplicação. A cultura económica baseada na solidariedade e na confiança, nas redes de entreajuda, aquela que os portugueses tanto valorizam, que é feito dela? Não terá futuro ou é a única a ter futuro e a única que nos terá no futuro?

Falhámos em boa medida a construção de um país mais justo e sustentável, mesmo que façamos, e bem, o rol das conquistas feitas: são várias e muito importantes, como sejam a liberdade pessoal, de organização e de opinião, um Estado de direito e uma sociedade democrática e aberta, um serviço nacional de saúde acessível a cada cidadão, uma educação escolar aberta a todos, liberdades pessoais e garantias sociais muito mais claras para todos, para citar só as mais importantes. Mas, sabemos com que custos o fizemos e com que custos o queremos continuar a fazer? Como a atual situação revela, desde 1974 que gastámos todos os anos o que não ganhámos, ou seja, a riqueza que não gerámos. Na hora da cobrança das dívidas, são os pobres que mais sofrem com tanta fantasia edificada, muita dela feita em seu nome e em nome de uma igualdade falaciosa. Amar a realidade é difícil, mas constitui um imperativo cultural intransponível.

Se, no pós-2008, fica mais claro o que resultou e o que não resultou, se estamos disponíveis para aprender com os erros cometidos, seria bom colocar isso em papel, fazer as respetivas listagens de ganhos e perdas e refletir sobre o que realmente se passou, em termos de processos e em termos de resultados. Vivemos uma hora em que temos de fazer o balanço não só da sua funcionalidade do modelo dominante, como da justiça e da igualdade de oportunidades (das injustiças e das desigualdades) geradas. Porque não dedicamos mais tempo a fazer este balanço? Valerá bem a pena que as jovens gerações conduzam uma avaliação deste tipo. E, logo de seguida, pensar sobre: qual a nova hierarquia de prioridades? Onde queremos chegar, assegurando a nossa sustentabilidade? Com que processos sociais, com que compromissos concretos e com que recursos?

A expansão económica tem limites, isso é hoje muito claro. O desenvolvimento social tem de seguir outro caminho, com outros referenciais e isso tem de constituir uma prioridade cultural! A verdade é que não são tão claros os modos de limitar o crescimento e, sobretudo, os modos de estabelecer outras regras de vida em comum, afastadas do mito do crescimento económico, contínuo e ilimitado (crescer porquê e para quê?). As novas gerações têm que procurar e percorrer outros caminhos, no plano nacional e comunidade a comunidade. Não vale a pena (seria o pior cenário) querermos mudar tudo por cima e de cima para baixo, seja porque nunca tal será permitido pelos atuais grupos e interesses instalados no país, seja porque, desse modo, só há um modelo para o fazermos, a saber, o de “cavalgarmos” sobre o Estado, perpetuando o modelo instituído.

 

Joaquim Azevedo
Secretariado Diocesano da Pastoral da Cultura (Porto)
Publicado em 12.11.2014

 

 
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Nas cidades, criámos verdadeiros infernos terrestres, agora que os outros, os imaginados, vão desaparecendo do horizonte cultural. Em 2013, no Porto, até já começámos a implodi-los, porque aos infernos terrestres é impossível reformá-los
A cultura económica baseada na solidariedade e na confiança, nas redes de entreajuda, aquela que os portugueses tanto valorizam, que é feito dela? Não terá futuro ou é a única a ter futuro e a única que nos terá no futuro?
Na hora da cobrança das dívidas, são os pobres que mais sofrem com tanta fantasia edificada, muita dela feita em seu nome e em nome de uma igualdade falaciosa. Amar a realidade é difícil, mas constitui um imperativo cultural intransponível
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