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Corrupção é a pior das chagas sociais, sublinha papa Francisco

A morte e a ausência de esperança nas famílias e nos jovens são algumas das consequências da corrupção na sociedade e que, para a Igreja, «é mais desastrosa do que a lepra infame», considera o papa Francisco.

Estas e outras denúncias integram o prefácio do livro “Corrosão – Combater a corrupção na Igreja e na sociedade” (ed. Paulinas), resultante de uma entrevista ao cardeal Peter Turkson, responsável pelo departamento do Vaticano (dicastério) para o Serviço do Desenvolvimento Humano Integral.

No texto, que apresentamos na íntegra, Francisco defende que «a beleza», a que é dedicado um dos capítulos do volume, «não é um acessório cosmético, mas algo que coloca no centro a pessoa humana, para que ela possa levantar a cabeça contra todas as injustiças».

 

Prefácio
Papa Francisco
In “Corrosão – Combater a corrupção na Igreja e na sociedade”

A corrupção, na sua raiz etimológica, define uma laceração, uma rutura, uma decomposição e desintegração. Quer como estado interior quer como facto social, a sua ação pode entender-se olhando para as relações que o homem tem na sua natureza mais profunda.

Com efeito, o ser humano tem uma relação com Deus, uma relação com o seu próximo, uma relação com a criação, ou seja, com o ambiente em que vive. Essa tríplice relação – na qual também se inclui a do homem consigo mesmo – confere contexto e sentido à sua atuação e, de um modo geral, à sua vida.



Um pecador pode pedir perdão, um corrupto esquece-se de pedi-lo. Porquê? Porque já não tem necessidade de ir mais longe, de procurar pistas para lá de si mesmo: está cansado, mas saciado, cheio de si. Com efeito, a corrupção tem a sua origem num cansaço da transcendência, como a indiferença



Quando o homem respeita as exigências dessas relações, é honesto, assume responsabilidades com retidão de coração e trabalha para o bem comum. Quando, pelo contrário, sofre uma queda, ou seja, se corrompe, essas relações sofrem laceração. Assim, a corrupção exprime a forma geral da vida desordenada do ser humano decaído.

Ao mesmo tempo, ainda como consequência da sua queda, a corrupção revela uma conduta antissocial tão forte que mina a validade das relações e, portanto, os pilares sobre os quais se apoia uma sociedade: a coexistência entre as pessoas e a vocação para desenvolvê-la.

A corrupção destrói tudo isso, substituindo o bem comum por um interesse particular que contamina toda a perspetiva geral.

Ela nasce de um coração corrupto e é a pior chaga social, por que gera gravíssimos problemas e crimes que envolvem todos. A palavra «corrupto» recorda o coração roto, o coração partido, manchado por alguma coisa, arruinado como um corpo que, na natureza, entra em processo de decomposição, libertando mau cheiro.

O que está na origem da exploração do homem pelo homem? O que está na origem da degradação e do desenvolvimento falhado? O que está na origem do tráfico de pessoas, de armas, de droga? O que está na origem da injustiça social e do rebaixamento do mérito? O que está na origem da ausência de serviços para as pessoas? O que está na raiz da escravidão, do desemprego, da incúria das cidades, dos bens comuns e da natureza? O que afeta, em suma, o direito fundamental do ser humano e a integridade do ambiente? A corrupção que, na verdade, é a arma, é a linguagem mais comum inclusive das máfias e das organizações criminosas do mundo. Por isso ela é um processo de morte que alimenta a cultura de morte das máfias e das organizações criminosas.



O que sucede se as pessoas se entrincheiram em si mesmas e se o seu pensamento e o seu coração não exploram um horizonte mais vasto?



Há uma profunda questão cultural que é necessário abordar. Hoje em dia, muitos nem sequer conseguem imaginar o futuro; para um jovem, é difícil acreditar de verdade no seu futuro, em qualquer futuro, e o mesmo se pode dizer da sua família. Esta nossa mudança epocal, tempo de crise muito vasta, reflete a crise mais profunda que envolve a nossa cultura. Nesse contexto, deve ser enquadrada e ocorre a corrupção nos seus vários aspetos. Tudo isso compromete a presença da esperança no mundo, sem a qual a vida perde aquele sentido de busca e de possibilidades de melhoramento que a caracteriza.

Neste livro, o cardeal Peter Kodwo Appiah Turkson, hoje prefeito do Dicastério para o Serviço do Desenvolvimento Humano Integral, e já presidente do Conselho Pontifício «Justiça e Paz», explica claramente a ramificação destes significados de corrupção, e fá-lo centrando-se em particular na origem interior desse estado que brota, precisamente, do coração do homem e que pode germinar no coração de todos os homens. Com efeito, todos nós estamos muito expostos à tentação da corrupção: mesmo quando pensamos que a derrotámos, ela pode reaparecer.

A pessoa deve ser vista sob todos os seus aspetos, não deve ser separado das suas atividades e, assim, a corrupção deve ser lida – como se lê neste livro – no seu conjunto, para todo o homem, quer nas suas expressões criminosas, quer políticas, económicas, culturais e espirituais.

Em 2016 concluiu-se o Jubileu Extraordinário da Misericórdia. A misericórdia permite que nos superemos em espírito de busca. O que sucede se as pessoas se entrincheiram em si mesmas e se o seu pensamento e o seu coração não exploram um horizonte mais vasto? Corrompem-se e, corrompendo-se, assumem a atitude triunfalista de quem se sente melhor e mais esperto do que os outros. A pessoa corrupta, porém, não se dá conta de que está a construir para si própria o grilhão que a aprisiona. Um pecador pode pedir perdão, um corrupto esquece-se de pedi-lo. Porquê? Porque já não tem necessidade de ir mais longe, de procurar pistas para lá de si mesmo: está cansado, mas saciado, cheio de si. Com efeito, a corrupção tem a sua origem num cansaço da transcendência, como a indiferença.



Devemos falar de corrupção, denunciar os seus males, percebê-la, manifestar a vontade de afirmar a misericórdia sobre a mesquinhez, a curiosidade e a criatividade sobre o cansaço resignado, a beleza sobre o nada



O cardeal Turkson – como se compreende por este diálogo que pouco a pouco se vai desenrolando segundo um itinerário preciso – explora as diversas passagens nas quais nasce e se insinua a corrupção, desde a espiritualidade da pessoa até às suas construções sociais, culturais, políticas e também criminosas, colocando esses aspetos inclusive acima daquele que mais nos interpela: a identidade e o caminho da Igreja.

A Igreja deve escutar, elevar-se e debruçar-se sobre as dores e as esperanças das pessoas segundo a misericórdia, e deve fazê-lo sem ter medo de se purificar a si própria, procurando assiduamente o caminho para melhorar.

Escreveu Henri de Lubac que o maior perigo para a Igreja é a mundanidade espiritual – portanto, a corrupção, que é mais desastrosa do que a lepra infame.

A nossa corrupção é a mundanidade espiritual, a tibieza, a hipocrisia, o triunfalismo, o fazer prevalecer apenas o espírito do mundo nas nossas vidas, o sentimento de indiferença. E é com essa consciência que nós, homens e mulheres de Igreja, podemos acompanhar-nos a nós mesmos e à humanidade sofredora, sobretudo à que é mais oprimida pelas consequências criminosas e de degradação geradas pela corrupção.

Enquanto escrevo, encontro-me aqui no Vaticano, em lugares de uma beleza absoluta, nos quais o engenho humano tentou elevar-se e transcender-se na tentativa de fazer o imortal vencer o caduco, o corrupto. Esta beleza não é um acessório cosmético, mas algo que coloca no centro a pessoa humana, para que ela possa levantar a cabeça contra todas as injustiças. Essa beleza deve desposar a justiça. Assim, devemos falar de corrupção, denunciar os seus males, percebê-la, manifestar a vontade de afirmar a misericórdia sobre a mesquinhez, a curiosidade e a criatividade sobre o cansaço resignado, a beleza sobre o nada. Nós, cristãos e não-cristãos, somos flocos de neve, mas, se nos unirmos, podemos transformar-nos numa «bola de neve»: num movimento forte e construtivo. Eis o novo humanismo, este renascimento, esta re-criação contra a corrupção que podemos realizar com audácia profética. Devemos trabalhar todos juntos, cristãos, não-cristãos, pessoas de todas as religiões e não-crentes, para combater esta forma de blasfémia, este cancro que corrói as nossas vidas. É urgente tomar consciência disso e, nesse sentido, precisamos de uma educação e de uma cultura misericordiosa, precisamos de cooperação por parte de todos segundo as suas próprias possibilidades, os seus próprios talentos e a sua própria criatividade.



 

Edição: SNPC
Imagem: Successphoto/Bigstock.com
Publicado em 01.03.2018

 

 
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