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Converte-te em mendigo, aprende a chorar, abre-te à surpresa de Deus: Desafios do papa Francisco aos jovens

Imagem Papa Francisco com jovens que foram crianças de rua | Universidade de S. Tomás, Manila, Filipinas, 18.1.2015 | AP Photo/Alessandra Tarantino | D.R.

Converte-te em mendigo, aprende a chorar, abre-te à surpresa de Deus: Desafios do papa Francisco aos jovens

«Converte-te num mendigo», desafiou hoje o papa Francisco durante o encontro com milhares jovens que decorreu no campo desportivo da Universidade de S. Tomás, em Manila, onde também falou do dom das «lágrimas» e da necessidade de recusar a auto-suficiência e estar aberto à «surpresa» de Deus.

Francisco começou por evocar Kristel, a voluntária de 27 anos que morreu este sábado em Tacloban por causa da queda de uma estrutura montada para a celebração da missa a que o papa presidiu.

«Gostaria que nós, todos juntos, e vós, jovens como ela, rezássemos um minuto em silêncio, e depois invocaremos a nossa Mãe do Céu», disse o papa, que após a oração da Ave-maria pediu à assembleia para rezar o Pai-nosso pelos pais da voluntária, filha única.

Referindo-se à escassa participação das mulheres entre o grupo que lhe deu as boas-vindas na chegada ao campo desportivo da universidade, Francisco lançou um desafio: «Que quando venha o próximo papa a Manila, que haja mais mulheres».

«As mulheres têm muito a dizer-nos na sociedade de hoje. Às vezes somos demasiado machistas, e não deixamos lugar à mulher, mas a mulher é capaz de ver as coisas com olhos diferentes dos homens», sublinhou.

Sobre o sofrimento, Francisco afirmou que as palavras ficam muitas vezes aquém da explicação: «Ao mundo de hoje falta-lhe chorar. Choram os marginalizados, choram aqueles que são deixados de lado, choram os menosprezados; mas todos os que levamos uma vida mais ou menos sem necessidades, não sabemos chorar. Certas realidades da vida veem-se com os olhos lavados pelas lágrimas».

«Convido-vos a que cada um se interrogue: eu aprendi a chorar? Aprendi a chorar quando vejo uma criança com fome, uma criança drogada na rua, uma criança que não tem casa, uma criança abandonada, uma criança abusada, uma criança usada por uma sociedade como escravo? Ou o meu pranto é o pranto caprichoso daquele que chora porque gostaria de ter mais alguma coisa?», questionou, ao responder a uma das jovens que, antes da intervenção do papa, lhe perguntou porque sofrem as crianças.

Continuando a responder às perguntas colocadas previamente, Francisco realçou que hoje se corre o perigo do excesso de informação, mas por vezes não se sabe «o que fazer com ela»: «Corremos o risco de nos convertermos em "jovens-museus", que têm tudo, mas não sabem o que fazer. Não precisamos de "jovens-museus", mas de jovens sábios».

A matéria «mais importante» a conhecer na universidade e na vida é «aprender a amar»: «Para isto o Evangelho propõe-nos um caminho sereno, tranquilo: usar as três linguagens. A linguagem da mente, a linguagem do coração e a linguagem das mãos. E as três linguagens harmoniosamente. O que pensas, sentes e realizas. A tua informação desce ao coração, comove-o e realiza-o. E isto harmoniosamente. Pensar o que se sente e o que se faz, sentir o que penso e o que faço, fazer o que penso e o que sinto».

«Se só tendes toda a informação, estais fechados à surpresa. O amor abre-te à surpresa. O amor é sempre uma surpresa porque supõe um diálogo entre dois: entre o que ama e o que é amado. E de Deus dizemos que é o Deus das surpresas porque Ele sempre nos amou primeiro e espera-nos com uma surpresa. Deus surpreende-nos, deixemo-nos surpreender por Deus. E não tenhamos a "psicologia do computador", de crer que se sabe tudo», apontou o papa.

Francisco lembrou o chamamento do apóstolo S. Mateus: «Estava cheio de dinheiro e cobrava os impostos. Passa Jesus, olha-o e diz-lhe: "Vem, segue-me". Não podia acreditar. Se depois tiverem tempo, vejam o quadro que Caravaggio pintou sobre esta cena. Jesus chama-o, e os que estavam com Ele dizem: "A este, que é um traidor, um sem-vergonha?". E ele agarra-se ao dinheiro, e não o quer deixar. Mas a surpresa de ser amado vence-o. E segue Jesus».

«Deixa-te surpreender por Deus, não tenhas medo das surpresas. Que te sacodem o chão. Põem-nos inseguros, mas metem-nos a caminho», salientou o papa, que recordou S. Francisco de Assis: «Deixou tudo. Morreu de mãos vazias mas com o coração cheio».

O trecho do Evangelho proclamado antes da intervenção de Francisco narrou o encontro de um jovem que queria seguir Jesus, e a quem Ele lhe diz: «Ainda te falta uma coisa: vende tudo o que tens, distribui o dinheiro pelos pobres e terás um tesouro no Céu. Depois, vem e segue-me.».

«A frase mais importante que Jesus diz é: "Ainda te falta uma coisa". Cada um de nós escute esta palavra em silênico. "Ainda te falta uma coisa". Que coisa me falta? A todos os que Jesus muito ama porque muito dão aos outros, pergunto: deixais que os outros te deem dessa outra riqueza que não tens?», perguntou.

O papa explicou o seu questionamento: «Quantos jovens, não digo entre vós, mas quantos como vós sabem dar mas todavia não aprenderam a receber: Ainda te falta uma coisa: converte-te num mendigo, converte-te num mendigo. Isto é o que nos falta: aprender a mendigar daqueles a quem damos. Isto não é fácil de entender. Aprender a mendigar».

«Aprender a receber da humildade daqueles que ajudamos. Aprender a ser evangelizados pelos pobres. As pessoas que ajudamos, pobres, doentes, órfãos, têm muito a dar-nos. Faço-me mendigo e peço isso? Ou sou suficiente e só dou? Vós que viveis sempre a dar, e credes que não tendes necessidade de nada, sabeis que sois pobres? Sabeis que tendes muita pobreza e necessitais que te deem? Deixas-te evangelizar pelos pobres, pelos doentes, por aqueles que ajudas?»

Depois de se referir às mudanças climáticas, que afetam em particular as Filipinas, o papa concluiu a intervenção voltando a referir-se às pessoas com maiores necessidades.

«Vós pensais nos pobres? Sentis com os pobres» Fazeis algo pelos pobres? E pedis aos pobres para que te deem essa sabedoria que têm? Isto é o que vos queria dizer hoje. Perdoai-me por não ter lido quase nada do que tinha preparado, mas há uma frase que me consola um pouco: "A realidade é superior à ideia". E a realidade que eles [jovens que antes das palavras do papa falaram da sua experiência e lhe colocaram perguntas], a vossa realidade é superior a todas as ideias que tinha preparado. Obrigado, muito obrigado, e rezem por mim», pediu.

Na nunciatura apostólica (embaixada da Santa Sé) em Manila, o papa encontrou-se durante 20 minutos com o pai e um primo da jovem voluntária que morreu, referiu o diretor da Sala de Imprensa da Santa Sé. Foi tentado um contacto telefónico com a mãe, a residir em Hong Kong, mas não foi possível.

 

Fonte: Zenit
Trad. / edição: Rui Jorge Martins
Publicado em 18.01.2015

 

 
Imagem Papa Francisco com jovens que foram crianças de rua | Universidade de S. Tomás, Manila, Filipinas, 18.1.2015 | AP Photo/Alessandra Tarantino | D.R.
Ao mundo de hoje falta-lhe chorar. Choram os marginalizados, choram aqueles que são deixados de lado, choram os menosprezados; mas todos os que levamos uma vida mais ou menos sem necessidades, não sabemos chorar. Certas realidades da vida veem-se com os olhos lavados pelas lágrimas
A matéria «mais importante» a conhecer na universidade e na vida é «aprender a amar»: «Para isto o Evangelho propõe-nos um caminho sereno, tranquilo: usar as três linguagens. A linguagem da mente, a linguagem do coração e a linguagem das mãos
Deus surpreende-nos, deixemo-nos surpreender por Deus. E não tenhamos a "psicologia do computador", de crer que se sabe tudo
A frase mais importante que Jesus diz é: "Ainda te falta uma coisa". Cada um de nós escute esta palavra em silênico. "Ainda te falta uma coisa". Que coisa me falta?
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