Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura - Logótipo
secretariado nacional da
pastoral da cultura
Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura - Logótipo
secretariado nacional da
pastoral da cultura

Constrói-se a cidade de Deus, amando. Destrói-se a cidade de Deus não amando

Imagem © helmutvogler/Fotolia

Constrói-se a cidade de Deus, amando. Destrói-se a cidade de Deus não amando

Espantará a quem não estiver acostumado a refletir sobre a guerra e a paz que sua Santidade, o Papa Francisco, tenha podido escrever profeticamente, no parágrafo 59 da sua "Evangelii gaudium", as palavras que antecipam tudo o que as potências demasiado humanas se encarniçam em não perceber que acontecerá se não houver uma metamorfose da humanidade, de coisa natural e depredatória, para coisa cultural, espiritual e oblativa:

«Mas, enquanto não se eliminar a exclusão e a desigualdade dentro da sociedade e entre os vários povos será impossível desarreigar a violência. Acusam-se da violência os pobres e as populações mais pobres, mas, sem igualdade de oportunidades, as várias formas de agressão e de guerra encontrarão um terreno fértil que, mais cedo ou mais tarde, há de provocar a explosão. Quando a sociedade – local, nacional ou mundial – abandona na periferia uma parte de si mesma, não há programas políticos, nem forças da ordem ou serviços secretos que possam garantir indefinidamente a tranquilidade. […] Se cada ação tem consequências, um mal embrenhado nas estruturas de uma sociedade contém sempre um potencial de dissolução e de morte.»

O contexto imediato destas palavras é sócio-económico, mas o seu sentido extravasa em muito o que hodiernamente se entende por tal contexto. As palavras aplicam-se ao que é o cerne da cidade, da «polis», da política, entendida não como um jogo de poder, jogado entre entidades que nunca são mais do que candidatos a tiranos ou a oligarcas – tiranos falhados, bestas depredatórias de seus semelhantes (cuja semelhança negam ativamente) –, mas como a totalidade da ação que constitui precisamente a própria cidade, o mundo humano em ato.

Este mundo humano é, hoje, um verdadeiro mundo, não no sentido em que seja algo de ordenado, mas no sentido em que é humanamente universal, no que se costuma chamar a «aldeia global», isto é, a cidade universal dos seres humanos; universal para o bem e para o mal. Os promotores do mal sabem desta universalidade atual; perguntamo-nos se os chamados homens de boa vontade já o perceberam realmente.

A humanidade usou de procedimentos etnocêntricos vários em fases primitivas da sua existência como instrumento de sobrevivência num ambiente em que não apenas as forças da natureza ofereciam grave obstáculo à sua continuidade, mas em que outros seres humanos, organizados de forma idêntica, procediam de forma semelhante, tornando-se, assim, uma ameaça não inferior à das forças da natureza. Não haveria forma de sobrevivência se não houvesse uma unidade intragrupal cujo cimento não fosse apenas baseado nas semelhanças internas, tendo de se basear também na oposição em regime de contraditoriedade relativamente à diferença constituída pelos grupos externos, assim os transformando em inimigos.

Este modo de proceder continua nos dias de hoje e revela que parte da humanidade vive ainda como se estivesse condenada a prosseguir um modo primitivista de existência. Tal parte da humanidade não coincide com os povos ditos atrasados, encontra-se em toda o lado em que este modo etnocêntrico ainda funciona. Recentemente tem-se assistido a um recrudescimento de tipos de tribalismo mesmo no chamado mundo ocidental, que já se havia libertado de tal praga política há muito, no que representa um retrocesso civilizacional que nos ressitua antes da reflexão platónica acerca do bem-comum.

Foi precisamente esta reflexão, alicerçada na experiência socrática da descoberta de uma humanidade possivelmente universal – o escravo pode deduzir, bem orientado, o teorema de Pitágoras –, acerca do que é o bem-comum como realidade própria do que é uma verdadeira cidade, que terminou teoricamente com a divisão dos seres humanos segundo categorias etnocêntricas: deixou de haver discriminação com base em características adjetivas, passando a situar-se a distinção entre os seres humanos apenas ao nível ético, isto é, das suas escolhas e da qualidade destas segundo o bem-comum.

Tal perspetiva impede imediatamente, do ponto de vista teórico, realidades como a tirania ou a oligarquia, transformando a sociedade numa comunidade em que todos laboram para o bem de todos que é, no mesmo ato, o bem de cada um. Aristóteles afirma a amizade como ato matricial da cidade, isto é, o ato de amor como bem do outro como construtor da cidade, numa reciprocidade universal.

O cristianismo consagra esta tradição, mas sagra-a também tornando o fim último da cidade não um impessoal encontro com uma perfeição também impessoal, caso de Platão, ou uma temporalmente finita perfeição contemplativa da infinita perfeição transcendente, caso de Aristóteles, mas um encontro com uma pessoa, Cristo, encontro cuja perfeição começa já neste mundo e que culmina numa dimensão transcendente na presença de um divino que é, ele próprio, um ato perfeito de bem-comum e seu paradigma: Deus como Trindade, plenitude do amor.

Em termos cristãos, todo o ato de amor que, por definição, é um ato de bem-comum, é a presença de Deus no mundo, por via da mediação humana, assim constituindo uma em si mesma perfeita pedrinha da cidade de Deus. Mas todo o ato que anula o bem-comum é pedra retirada desta mesma cidade, imperfeição introduzida.

Constrói-se a cidade de Deus, amando. Destrói-se a cidade de Deus não amando.

A relação negativa não se dá entre amor e ódio, pois o amor não tem contraditório senão o absoluto da sua ausência, mas entre amor como ato de bem do outro pelo bem do outro e ausência de amor, não-ato – mas atual em sua não-realidade, pois é impresença ontológica onde deveria haver uma presença – que diminui o bem do outro, e, assim, o bem de todos.

Se a eliminação, ato a ato, do bem possível do outro, no limite, o aniquila totalmente, no que é a antítese absoluta do ato de amor, a realização do bem do outro ato a ato, através de cada ato de amor, é, no limite, o equivalente à sua criação. Assim, plenamente, no genésico início de tudo; mas assim também em cada ato de amor com que construímos concomitantemente o que o outro é e pode ser e nos construímos também a nós. Cada ato de amor é um ato de misericórdia e uma obra de misericórdia. Um ato de criação.

Ora, se o não-amor mata, o amor cria. A morte, que o não-amor implica, é a fonte de toda a ontológica tristeza humana, verdadeiro inferno já aqui, infindo sem o encontro do amor que ainda nos resta – e resta sempre ou nada seríamos – e o amor sempre vocativo de Deus.

O amor, como ato de criação, é isso que se opõe, em absoluto, à morte. Amor de Deus, mas também, nesta nossa carnal dimensão, amor dos seres humanos. A possível vida eterna em Deus, com Deus, ou é este amor ou não é, de todo.

É este amor, este ato comum meu e de Deus, que é imediatamente alegria, pois é, já e sempre que acontece, presença de salvação, de eternidade no seio do tempo, do movimento. Quem ama é alegre. Quem não é alegre não ama. Quem ama não tem medo seja do que for, pois já está vivendo a alegria da eternidade, já é imortal.

Como Teresa de Ávila, pode intuir que nada já nos turba, pois o bastante Deus está connosco. Emmanuel, e nós com ele, não tem medo; Emmanuel, no momento do cálice, é angústia. Mas Emmanuel ressuscita e quem tem medo nunca ressuscita, pois, pelo medo, nega a confiança nisso que faz que possa ressuscitar: o amor de Deus, Deus como amor.

Assim, pragmaticamente, perante o terror, o ser humano, mormente o cristão, deve nunca ter medo – por maior que seja a angústia –, nunca vacilar no bem, nunca deixar de manifestar a alegria de quem sabe que, amando, mesmo que morra no tempo, vive na eternidade do amor, única que há, única que vale a pena.

Não somos os «cadáveres adiados», de Pessoa, somos pessoas que se recusam a viver como espiritualmente mortas, como habitantes do gueto ou do campo de concentração. Dizemos não ao ódio. Dizemos sim ao amor. Amamos até nos desfazermos na caridade de Deus. Não cedemos ao mal, seja ele qual for. Não deixamos que vitimizem inocentes, pelo menos antes de nos vitimizarem a nós. Morremos na cruz, mas não cedemos ao mal.

Desejamos, queremos Paz, divino transcendental sempre olvidado.

Que a Paz, que é Deus, esteja connosco.

 

Américo Pereira
Universidade Católica Portuguesa, Faculdade de Ciências Humanas
Publicado em 23.11.2015

 

 
Imagem © helmutvogler/Fotolia
Em termos cristãos, todo o ato de amor que, por definição, é um ato de bem-comum, é a presença de Deus no mundo, por via da mediação humana, assim constituindo uma em si mesma perfeita pedrinha da cidade de Deus. Mas todo o ato que anula o bem-comum é pedra retirada desta mesma cidade, imperfeição introduzida
Se a eliminação, ato a ato, do bem possível do outro, no limite, o aniquila totalmente, no que é a antítese absoluta do ato de amor, a realização do bem do outro ato a ato, através de cada ato de amor, é, no limite, o equivalente à sua criação
O amor, como ato de criação, é isso que se opõe, em absoluto, à morte. Amor de Deus, mas também, nesta nossa carnal dimensão, amor dos seres humanos. A possível vida eterna em Deus, com Deus, ou é este amor ou não é, de todo
Perante o terror, o ser humano, mormente o cristão, deve nunca ter medo – por maior que seja a angústia –, nunca vacilar no bem, nunca deixar de manifestar a alegria de quem sabe que, amando, mesmo que morra no tempo, vive na eternidade do amor, única que há, única que vale a pena
Não somos os «cadáveres adiados», de Pessoa, somos pessoas que se recusam a viver como espiritualmente mortas, como habitantes do gueto ou do campo de concentração. Dizemos não ao ódio. Dizemos sim ao amor. Amamos até nos desfazermos na caridade de Deus. Não cedemos ao mal, seja ele qual for
Relacionados
Destaque
Pastoral da Cultura
Vemos, ouvimos e lemos
Perspetivas
Papa Francisco
Teologia e beleza
Impressão digital
Pedras angulares
Paisagens
Umbrais
Evangelho
Vídeos