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Comissão Justiça e Paz aplica a Portugal mensagem quaresmal do papa e nomeia "conversões" a fazer na economia, saúde, justiça e trabalho

Imagem O bom samaritano (det.) | Paula Modersohn-Becker | 1907 | D.R.

Comissão Justiça e Paz aplica a Portugal mensagem quaresmal do papa e nomeia "conversões" a fazer na economia, saúde, justiça e trabalho

«Cerca de dois milhões de portugueses estão em situação de pobreza ou na iminência dela. Continuamos a ser pressionados pelas imposições do norte da Europa. Nunca como agora precisamos de coesão social. No entanto cada um (ou cada comunidade), de um modo individualista, trata de si próprio e ignora o que se passa à sua volta, esquecendo que as soluções ou são globais... ou não há soluções.»

Estas são algumas das primeiras constatações sobre as quais a Comissão Nacional Justiça e Paz (CNJP) baseia a sua reflexão para a Quaresma de 2015, que começa hoje, Quarta-feira de Cinzas, enviada ao Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura.

No documento intitulado “Da globalização da indiferença a uma ética do cuidado”, o organismo da Igreja católica presidido por Pedro Vaz Patto analisa e cita a mensagem quaresmal do papa Francisco (cf. “Artigos relacionados”), selecionando variados enunciados que aplica à realidade portuguesa e mundial.

O texto enraíza-se na identidade dos católicos, chamados a ter «uma perspetiva universal, orientando-se para todos os seus irmãos», no contexto de um mundo marcado por «enormes desequilíbrios sociais», que em Portugal se têm vindo a «avolumar» perante «alguma indiferença».

Para a CNPJ, a apatia perante as dificuldades das pessoas mais pobres e distantes quer geograficamente, quer espiritualmente, revela-se na escassez de reações públicas de protesto: «Cada vez mais raras vezes vamos para a rua manifestar-nos, denunciando as gritantes injustiças que se instalaram de modo subtil nas sociedades e países onde vivemos, a não ser que os nossos interesses imediatos sejam afetados».

«Nesta Quaresma, tempo de despojamento e de conversão interior, meditemos sobre o pecado da indiferença e pensemos nas ações que cada um ou cada uma pode escolher fazer ou não fazer», realça a CNPJ.

Nos primeiros parágrafos do documento aponta-se o dedo ao «mundo misterioso dos mecanismos do “mercado”, das empresas e contas bancárias “off-shore”, da especulação e das transações financeiras fictícias», que «representa os interesses irresponsáveis de uma minoria».

«Quem é este “deus do mercado” aqui e agora, no nosso país? Que significa para nós, cristãos, adorar um Deus Único, o Deus de Jesus Cristo, o “pobre dos pobres” e “Homem de todas as dores”?», interroga a Comissão.

A convicção generalizada de que Portugal é um «país seguro» esquece que «a fome, a ausência de condições de saúde e habitação, o atropelo aos direitos humanos mais básicos» afetam muitas pessoas.

Os atentados terroristas, por seu lado, estão próximos das fronteiras nacionais, e ainda que não atinjam as proporções de outros estados europeus, têm também tradução no país: «Será que não experimentamos também outros tipos de “terrorismo” num avolumar da “espiral de violência” na sociedade portuguesa?».

Quem é o estrangeiro que interessa aos portugueses?: «Como nos podemos tornar mais acolhedores e hospitaleiros: apenas com os turistas que trazem divisas? Em que medida nos sentimos solidários e responsáveis pelo que se passa no Mediterrâneo e na ilha de Lampedusa? Será que não temos “Lampedusas” no nosso país?».

«A capacidade de resiliência humana é infinita mas... até quando?», observa a mensagem, lembrando que «o desemprego atinge dramaticamente a sociedade portuguesa criando exclusão a todos os níveis» e «a pobreza infantil não cessa de aumentar».

O estado da saúde em Portugal é também fonte de preocupação da CNPJ, que tem como assistente eclesiástico o P. José Manuel Pereira de Almeida, coordenador nacional da ação da Igreja católica no setor.

«Tornamos presente o facto de não haver condições mínimas de saúde e sobrevivência básica noutros pontos do planeta. Mas conformamo-nos com uma saúde segregada. Queremos uma saúde para os que podem pagar e outra saúde para os que não podem pagar? Somos indiferentes à solidão, abandono, maus tratos, negligência, quando se trata de alguns outros?», questiona o texto.

No domínio da educação também há conversões por fazer: «Queremos educar todos numa escola inclusiva, que não segregue, permitindo, simultaneamente, que cada um atinja a excelência de que for capaz. Mas, então, o que é “liberdade de escolha”? Quem pode ter liberdade de escolha? Como fazemos contracorrente à exclusão escolar?».

A Comissão Nacional Justiça e Paz interroga sobre o «papel do voluntariado» e da «gratuidade» na vida dos cidadãos e acentua a necessidade de educar as novas gerações a «descentrarem-se, a recusarem perspetivas etnocêntricas», tornando-se «corresponsáveis por um “mundo aberto” e interdependente».

Além das interrogações já referidas, o documento enumera múltiplas interpelações que constituem não só caminhos de reflexão para as políticas económicas e sociais, como também para cada pessoa individualmente considerada, ao mesmo tempo que podem ser assumidas como pontos de meditação e transformação nesta Quaresma.

«Como acolhemos e ajudamos na Igreja e nas nossas famílias e comunidades, afirmando-os, aqueles que vivem nas periferias, sejam elas económicas, sociais, culturais, geográficas étnicas, religiosas, de orientação sexual ou outras? Visitamos os presos e os doentes sem família? Vamos à procura dos sem-abrigo? Apoiamos e acolhemos em nossas casas as famílias no limiar da pobreza? Como ajudamos os que se encontram no flagelo do desemprego? Que apoio damos às crianças e jovens que se defrontam com o insucesso escolar? Como nos solidarizamos com as vítimas de violência doméstica, dos abusos sexuais e da pedofilia? Como escutamos a solidão de tantos? Como cuidamos ou ajudamos a morrer os mais velhos? Libertamo-nos deles para os colocar em verdadeiros “depósitos” que não são senão antecâmaras de tristeza, solidão e morte? Tornamo-nos indiferentes àqueles que nos deram a vida, a educação e nos transmitiram valores e cultura/s?»

«Estamos dispostos a encontrar modos de vida mais frugais e simples, vivendo com menos para que “outros” tenham um pouco mais? Esses “outros” incluem os que habitam nos antípodas, os chamados países do hemisfério sul. Ou escolhemos instalar-nos na indiferença? Enquanto cristãos, pactuamos com o subemprego, a exploração pelo trabalho, a “globalização” do trabalho escravo e o assédio sexual, o “stalking” no trabalho, a discriminação no emprego das mulheres-mães ou daquelas e daqueles que querem ter filhos? Que ética de justiça queremos? Justiça diferente para uns e para outros? Para os que podem pagar e para os que não podem pagar? Como podemos ser agentes indignados da falta de Justiça, inspirados pelos ensinamentos de Jesus Cristo quando expulsa os vendilhões do templo?»

O texto manifesta a convicção de que «uma Ética do Cuidado», enquanto movimento «para fora», contrapõe-se à «globalização da indiferença», perigo várias vezes enunciado pelo papa.

«Aceitemos o convite de Francisco ao silêncio, à meditação, à escuta, à oração. Peçamos a Deus um olhar atento e “não habituado”. Balbuciemos as Bem-Aventuranças na certeza das nossas limitações mas, simultaneamente, com a fé de que, com a ajuda de Deus, saberemos “fortalecer os nossos corações”, apela a Comissão Nacional Justiça e Paz.

 

Rui Jorge Martins
Publicado em 18.02.2015

 

 

 
Imagem O bom samaritano (det.) | Paula Modersohn-Becker | 1907 | D.R.
Nesta Quaresma, tempo de despojamento e de conversão interior, meditemos sobre o pecado da indiferença e pensemos nas ações que cada um ou cada uma pode escolher fazer ou não fazer
Como nos podemos tornar mais acolhedores e hospitaleiros: apenas com os turistas que trazem divisas? Em que medida nos sentimos solidários e responsáveis pelo que se passa no Mediterrâneo e na ilha de Lampedusa? Será que não temos “Lampedusas” no nosso país?
Queremos uma saúde para os que podem pagar e outra saúde para os que não podem pagar? Somos indiferentes à solidão, abandono, maus tratos, negligência, quando se trata de alguns outros?
Aceitemos o convite de Francisco ao silêncio, à meditação, à escuta, à oração. Peçamos a Deus um olhar atento e “não habituado”. Balbuciemos as Bem-Aventuranças na certeza das nossas limitações mas, simultaneamente, com a fé de que, com a ajuda de Deus, saberemos “fortalecer os nossos corações”
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