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Civilização: não muros, mas pontes

Civilização: não muros, mas pontes

Imagem D.R.

A uma ponte dedicou, até no título, o seu romance mais célebre o escritor servo-croata Ivo Andric, Nobel em 1961, "A ponte sobre o Drina", publicada em 1945 [editado em Portugal pela Cavalo de Ferro]. É precisamente deste texto que queremos extrair uma deliciosa parábola muçulmana colocada na boca do protagonista, o jovem Mehmed Ali, um cristão deportado pelos turcos, destinado a tornar-se vizir e a construir aquela ponte, ao mesmo tempo real e simbólica, ponto de encontro entre duas etnias e religiões. Escutemos a narrativa que idealmente incarna o tema sobre o qual o papa Francisco insiste quando convida a abater os muros e a construir pontes.

«Eis como foi erigida a primeira ponte do mundo. Quando Alá o poderoso criou este mundo, a terra era plana e macia (...). Isto desagradava ao demónio, que invejava ao homem esse dom de Deus. E enquanto ela estava ainda como tinha saído das mãos divinas, húmida e mole como uma tigela não cozida, ele aproximou-se furtivamente e com as unhas riscou o rosto da terra de Deus o mais profundamente que pôde. Assim, como conta a história, nasceram profundos rios e abismos que separaram uma região da outra. (...) Lamentou-se Alá quando viu o que tinha feito aquele maldito; mas dado que não podia voltar à obra que o demónio tinha contaminado com as suas mãos, enviou os seus anjos para que ajudassem e confortassem os homens. Quando os anjos se deram conta de que os desventurados homens não podia ultrapassar as ravinas e os abismos para realizar a sua atividade, sobre esses pontos estenderam as suas asas e as pessoas começaram a passar sobre elas. Por isso a maior das boas ações é construir uma ponte» (cap. XVI). (...)



O outro polo, o único mais autenticamente religioso e humanista, é o da interculturalidade, categoria dinâmica que é uma perspetiva muito diferente em relação à chamada "multiculturalidade"



A oscilação entre estas duas metáforas [ponte e muro] é constante na realidade histórica e tem a sua representação contemporânea nas antíteses entre populismo/"soberanismo"/nacionalismo (o muro) e interculturalidade/diálogo (a ponte). O primeiro polo, nacionalista/etnocêntrico, agarra-se - além do medo da diferença e dos riscos relacionados, por vezes reais - à convicção do primado absoluto da própria civilização, numa escala de gradações que chegam até ao desprezo de outras culturas classificadas como «primitivas» ou «bárbaras». Lapidar era já a afirmação de Tito Lívio nas suas "Histórias": «A guerra existe e existirá sempre entre os bárbaros e todos os gregos». Esta atitude é reproposta nos nossos dias sob a fórmula do «choque de civilizações», codificada no famoso ensaio de 1996 do politólogo Samuel Huntington, "O choque das civilizações e a mudança na ordem mundial". Neste texto eram elencadas oito culturas (ocidental, confuciana, japonesa, islâmica, hindu, eslava-ortodoxa, latino-americana e africana), enfatizando as diferenças, de modo a acionar no Ocidente um sinal de alarme pela autodefesa do próprio tesouro de valores, assediado por modelos alternativos e pelos «desafios das sociedades não ocidentais».

Certo é que se se adota em absoluto o paradigma do «choque de civilizações» entra-se na espiral de uma guerra infinita, como já tinha intuído Tito Lívio. Nos nossos dias tal modelo faz caminho em alguns ambientes, sobretudo quando se debate a relação entre Ocidente e Islão, ou entre países europeus e pessoas migrantes e refugiadas, e pode ser adaptado a manifesto teórico para justificar operações político-militares de «prevenção» ou de «exportação» de valores como a democracia. Este modelo está na base do "soberanismo" e dos populismos, enquanto no passado aprovava intervenções de colonização ou colonialismo (já os romanos eram mestres nisso). Ele é explícita e radicalmente incarnado no fundamentalismo islâmico que tem no denominado "califado" do Estado Islâmico a sua expressão mais emblemática.



É verdade que a Incarnação testemunha que a Palavra de Deus se inseriu na lentidão e opacidade da história, como tantas vezes emerge em muitas páginas do Antigo Testamento, onde aparecem formas integralistas e etnocêntricas de cariz sacral e marcial. Todavia não faltam já nessas páginas amplos rasgos luminosos de um universalismo que reconhece uma qualidade "adâmica", primeiro que "israelita", a cada criatura



O outro polo, o único mais autenticamente religioso e humanista, é o da interculturalidade, categoria dinâmica que é uma perspetiva muito diferente em relação à chamada "multiculturalidade". Esta, com efeito, é uma realidade estática de mera justaposição ou coexistência, como acontece nos vários bairros étnicos de muitas metrópoles (pense-se em Nova Iorque com a "Little Italy", "Chinatown", o Bronx, o bairro judeu e por aí diante). A interculturalidade, ao contrário, baseia-se no reconhecimento da diversidade como uma floração necessária e preciosa da comum raiz "humana", um reconhecimento que se realiza sem todavia perder a própria especificidade.

Nesta linha propõe-se a atenção, o estudo, o diálogo com civilizações antes ignoradas ou remotas, mas que aparecem agora prepotentemente numa ribalta cultural até agora ocupada pelo Ocidente (pense-se, além do Islão, na Índia e na China), aparecimento que é favorecido não só pela atual globalização, mas também pelos novos meios de comunicação, capazes de atravessar toda a fronteira (a rede informática é disso o símbolo capital). Estas culturas, até agora estranhas ao Ocidente, exigem uma interlocução, muitas vezes imposta pela sua presença imperiosa, tanto é verdade que se tende agora a falar não só de globalização mas também de "glocalização" como novo fenómeno de interação planetária. Deve, por isso, propor-se um empenho complexo de debate e de diálogo, de intercâmbio cultural e espiritual; deve criar-se não um duelo mas um dueto onde as vozes possam ser muito diferentes (como, por exemplo, acontece na música entre baixo e soprano) mas criam harmonia.



«Quando Colombo, na aurora de 12 de outubro de 1249, encontrou os primeiros indígenas na pequena ilha das Caraíbas, por ele batizada San Salvador, acontece isto: o homem encontra-se a si mesmo e não se reconhece»



É este o espírito de base da fé cristã. É verdade que a Incarnação testemunha que a Palavra de Deus se inseriu na lentidão e opacidade da história, como tantas vezes emerge em muitas páginas do Antigo Testamento, onde aparecem formas integralistas e etnocêntricas de cariz sacral e marcial. Todavia não faltam já nessas páginas amplos rasgos luminosos de um universalismo que reconhece uma qualidade "adâmica", primeiro que "israelita", a cada criatura (leiam-se muitas páginas proféticas de grande respiração, vários escritos sapienciais e o próprio livrinho de Jonas). O ápice será alcançado no cristianismo, com a afirmação paulina segundo a qual em Cristo «não há judeu nem grego; não há escravo nem livre; não há homem e mulher, porque todos vós sois um em Cristo Jesus» (Gálatas 3, 28). Este é um discurso muito amplo que exige uma interpretação textual específica mas que compreende também afirmações impressionantes já na Torá bíblica, como estas duas normas que seriam de recordar constantemente a certos movimentos populistas pretensos defensores da civilização judaico-cristã: «Haverá uma só lei para o natural e para o estrangeiro residente que habite no meio de vós. » (Êxodo 12, 49); «se um estrangeiro vier residir contigo na tua terra, não o oprimirás. O estrangeiro que reside convosco será tratado como um dos vossos compatriotas e amá-lo-ás como a ti mesmo, porque fostes estrangeiros na terra do Egito» (Levítico 19, 33-34).

Numa conferência por ocasião do centenário da descoberta das Américas, o P. Ernesto Balducci declarava: «Quando Colombo, na aurora de 12 de outubro de 1249, encontrou os primeiros indígenas na pequena ilha das Caraíbas, por ele batizada San Salvador, acontece isto: o homem encontra-se a si mesmo e não se reconhece». (...) Só nos resta concluir deixando ainda a palavra ao P. Balducci com este belo decálogo extraído das suas múltiplas páginas, tantas vezes marcadas pelo fogo do espírito profético: «1. Não se resignar, mas lutar. 2. Não odiar mas amar. Não reprimir o desdém mas exprimi-lo com força construtiva e serviço. 4. Não calcular mas arriscar. 5. Não servir os poderosos mas os frágeis. 6. Não ceder mas crer. 7. Não repetir mas pensar. 8. Não ficar só mas rezar. 9. Não entristecer mas gozar a amizade. 10. Não fechar as fronteiras mas abrir os espaços do espírito».



 

Card. Gianfranco Ravasi
Presidente do Conselho Pontifício da Cultura
In "Avvenire"
Trad. / edição: SNPC
Publicado em 23.05.2017

 

 
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