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Cinema: Igreja devia atribuir bolsas para jovens aprenderem a realizar e escrever com coração crente

A Pontifícia Universidade Católica do Paraná, Brasil, inicia hoje a terceira edição do projeto Átrio dos Gentios, plataforma da Igreja católica para o diálogo entre crentes e não crentes, dedicada ao “Sentido da vida”.

Entre os intervenientes na iniciativa que se prolonga até quarta-feira encontram-se o teólogo checo P. Tomáš Halík e o P. Edoardo Viganò, consultor do Dicastério para as Comunicações do Vaticano, que falará sobre “O cinema e o sentido da vida”.

«A ideia é falar um pouco da narração cinematográfica, do cinema não exclusivamente lúdico, de divertimento, mas de cinema que sabe reencontrar as pregas do humano. Porque é precisamente no humano que encontramos os espaços para as grandes perguntas do ser humano, que muitas vezes são perguntas que têm o sabor que antecipa o Evangelho», declarou o responsável.

O sacerdote considera que «é importante» a Igreja «investir em jovens que saibam escrever argumentos, porque o segredo de um filme está, sem dúvida, no cineasta que sabe realizar bem, que tem um olhar particularmente interessante, mas está também na maneira como se escrevem as histórias».

«Julgo que talvez um bom investimento seria o de dar algumas bolsas de estudo aos jovens e às jovens mais meritórios das escolas de cinema, para que possam frequentar grandes estúdios, e em geral os grandes mestres e as grandes escolas de escrita cinematográfica estão nos EUA: aprender bem a arte, sabendo que dentro dessa arte está o seu coração de crentes, e isso seria muito importante para as próximas gerações», defende em entrevista publicada pela Vatican News.

 

O cinema pode ser um instrumento verdadeiramente válido para a Igreja?

Creio que sim, pelo menos se olharmos para a história; não esqueçamos que nos anos 50, por exemplo, muitíssimos missionários, precisamente para fazer catequese nos lugares de missão, mostravam pequenos filmes que eles próprios realizavam com atores improvisados. Por isso dizemos que pode ser com certeza um instrumento útil. Até porque não nos esqueçamos que se trata de uma narração, e a narração não é um ensaio, não é uma discussão, não é uma demonstração: a narração pertence àquele género pelo qual quem conta é testemunha, envolve-se. Pensemos naquelas que são as narrações no Evangelho.

 

Há ainda espaço na Igreja para utilizar o cinema para a evangelização?

Acredito que sim, pelo menos a dois níveis. Em primeiro lugar, há por exemplo a possibilidade de produzir documentários. O documentário tem um custo decisivamente menor, muito mais baixo do que a produção de um filme. Muitas vezes os documentários são também a ocasião para colocar em torno de um projeto diferentes sujeitos que podem também investir economicamente. Penso que isto é muito útil porque há aspetos da religiosidade popular, da cultura e da arte cristã que, apesar de não se tornarem s sujeito de grande interesse para as produções cinematográficas, podem tornar-se objeto para uma divulgação cultural e religiosa, da parte da Igreja.

Uma segunda maneira de valorizar o cinema e utilizá-lo em chave pastoral é o de abrir espaços – que antes se chamavam cinefóruns –, ou seja, selecionar alguns filmes que possam de alguma forma ajudar a compreender aquelas que são as grandes parábolas do Evangelho. Por exemplo – e farei ver pequenos excertos de filmes aparentemente muito distantes do mundo particular – penso nos filmes de Ken Loach, dos irmãos Dardenne, onde se colhe a sensibilidade que estes realizadores têm de entrar nas pregas inclusive feridas do humano. É daí parte uma narração de proximidade, de vizinhança. De partilha. É verdade que se trata de uma partilha humana, mas é uma partilha que provavelmente assenta sobre um mistério maior que nós que é precisamente grande condescendência de Deus com o ser humano.

 

Jesus Cristo foi protagonista de muitos filmes…

Sim, é verdade: há muitíssimos filmes – penso que quase 150 – sobre Jesus, produzidos já desde as origens do cinema. Quando ele nasce, em 1895, faz este raciocínio: todos conhecem a vida de Cristo, então podemos começar a contar essa vida, e retomam as “sacras representações”. Em França até nasce uma empresa especializada num momento da vida de Jesus chamada de “as paixões”, que é a “Passion Pathé”, ou seja, a Pathé torna-se uma casa cinematográfica francesa que se especializa precisamente nestes pequenos filmes sobre a paixão de Jesus. Depois, no arco da história, desenvolveu-se muito o cinema, e temos o cinema sobre Jesus norte-americano que é muito diferente do italiano, por exemplo: os biopic” (filmes bibliográficos) americanos, enquanto que na Itália são mais autorais, até chegar a narrações inquietas – penso em Scorsese, “A última tentação de Cristo – ou a alguns filmes que de alguma forma se aproximam da fantasia, como “Os jardins do Éden”, que procura imaginar aqueles que são os anos não narrados pelo Evangelho, até aos últimos filmes que conhecemos – Mel Gibson – ou outros mais recentes.



 

In Vatican News
Trad. / edição: Rui Jorge Martins
Imagem: gnepphoto/Bigstock.com
Publicado em 03.09.2018

 

 
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