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Cinema, arte do espiritual

Os caminhos da fé parecem hoje passar pelos das salas de cinema. Mas após o sucesso de “Dos homens e dos deuses” (2010), a perspetiva mudou, com menos desprezo e mais abertura e escuta. Uma nova maneira de falar da fé impõe-se na sétima arte. Há por isso motivos de interrogação sobre todas essas ficções mais que benevolentes. Atestarão elas uma real procura espiritual? Uma vontade de relatar a experiência da fé cristã? Ou optam pelo caminho das Cruzadas para nos catequizar?

Paradoxalmente, o fenómeno não é recente, sendo mesmo tão antigo como o cinema. Os laços tecidos entre a religião e o cinema remontam ao nascimento do cinematógrafo. No início do século XX, nas feiras e depois nas instituições e nas primeiras salas de cinema, muitas vezes fundadas por padres, floresciam todas as espécies de Paixões de Cristo e outras cenas da vida de Jesus.

O cinema narra sujeitos religiosos com o objetivo de instruir a população e testemunhar a fé. Ele permite também mostrar Jesus como uma personagem para além do real meramente humano, que não se pode captar e cujos poderes permitem a utilização dos primeiros efeitos especiais. Em 1898 o realizador Georges Méliès dirige “Cristo andando sobre as águas”. Mais de cem anos depois, o cinema renova a sua ligação com uma intuição original: dar a ver um espetáculo edificante capaz de reforçar a fé do espetador e dar a contemplar o glória de Cristo e da sua vida. A novidade atual do fenómeno reside mais no interesse que o mundo, agora laico e aparentemente distante da Igreja, coloca sobre estes temas, sem depreciação, inclusive com um respeito, interesse e curiosidade que surpreendem.



O cinema já não se contenta em ser um vetor de uma reapropriação de uma cultura religiosa; vai mais longe e avança para a intimidade do crente. Procura sondar o mistério da fé, do interior, compreender a busca crente no plano espiritual



Enquanto expressão artística, o cinema é uma arte popular maior. O regresso em força de uma certa categoria de filmes religiosos, como o recente “Paulo, apóstolo de Cristo”, pode ser interpretado como uma reintegração da cultura religiosa no mundo moderno. Quando um cineasta faz uma adaptação literal ou filma um facto histórico e religioso, coloca claramente um ato intelectual que pode, com certeza, introduzir um debate, mas oferece igualmente chaves de compreensão.

O cinema volta a insuflar junto do grande público um certo gosto por uma cultura religiosa que perdeu após décadas, e isto num contexto geral de perda de referências de base da nossa sociedade, seja no plano cultural, intelectual e social.

No outro lado do Atlântico, observa-se que Hollywood nunca como agora produziu tantos filmes sobre o cristianismo. É um género em voga que tem público e sobre o qual os estúdios não hesitam em investir. O já referido “Paulo, apóstolo de Cristo” obteve o oitavo lugar em receitas de bilheteira – 5,2 milhões de dólares – no primeiro fim de semana de exibição. Depois de “A paixão de Cristo”, de Mal Gibson, que até hoje foi o filme sobre a fé mais lucrativo de sempre, várias foram as películas apresentadas.

Mas o cinema já não se contenta em ser um vetor de uma reapropriação de uma cultura religiosa; vai mais longe e avança para a intimidade do crente. Procura sondar o mistério da fé, do interior, compreender a busca crente no plano espiritual, o que representa uma perspetiva nova e diferente da dos norte-americanos. A novidade do fenómeno reside hoje na procura de uma representação do mistério da fé no ecrã. Será possível? Poder-se-á transcrever por imagens a interioridade de personagens?



O cinema pode muito bem tornar-se uma comunicação da incarnação desse “sagrado” que parece ter desaparecido do mundo moderno. Mais do que nunca, o cinema coloca-se como reflexão da vida, ao mesmo tempo que dá acesso a um para além das nossas existências



No filme “A aparição”, o realizador Xavier Gianoli sonda o mistério da fé num mundo onde a busca da verdade torna-se cada vez mais difícil. Em declarações ao jornal “La Croix”, afirma: «Trata-se para mim de uma busca íntima e secreta (…). Não responderemos ao sentido das nossas vidas com algoritmos, “smartphones”, promessas económicas ou ilusões». O cineasta junta-se assim a uma geração de artistas como Cédric Khan (“A oração”) ou Anne Fontain (“As inocentes”) que vão mais longe do que a história e a cultura. Os seus filmes traduzem uma procura. Uma busca espiritual onde se exprime a necessidade de compreender ou explorar o ato de crer. Por trás do processo criativo destes cineastas, entrevê-se claramente a necessidade de sentido, de interioridade, múltiplas aspirações ao espiritual às quais a sociedade de consumo não pode responder. O cinema faz-se caixa de ressonância. Através destes filmes de um novo género, volta a dar à fé o seu lugar na sociedade moderna como portador de aspirações espirituais legítimas dos nossos contemporâneos.

Não é por acaso que o cinema é utilizado como um lugar de expressão artística propício à exploração da fé, tema que representa desde sempre. Os filmes representam um terreno de surgimento do espiritual, da expressão do íntimo e da consciência. Através do seu filme, o realizador revela a sua própria interioridade. O filósofo Marcel Gauchet falava da arte como de um «substituto do sagrado». O cinema pode muito bem assumir esta função e tornar-se uma comunicação da incarnação desse “sagrado” que parece ter desaparecido do mundo moderno. Mais do que nunca, o cinema coloca-se como reflexão da vida, ao mesmo tempo que dá acesso a um para além das nossas existências. Torna-se caminho para o Outro, motor de pensamento e provocador de reencontro. Tal é certamente a razão mais profunda do interesse constante e regular que tem e terá a sétima arte para a fé: pela sua natureza, o cinema é uma arte do espiritual.









 

Pierre Vaccaro
In Narthex
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: "Paulo, apóstolo de Cristo", de Andrew Hyatt
Publicado em 01.08.2018

 

 
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