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Ciência é como uma «oração», um «caminho para encontrar Deus»

Ciência é como uma «oração», um «caminho para encontrar Deus»

Imagem NASA images/Bigstock.com

O diretor do Observatório Astronómico do Vaticano considera que «a astronomia, e mais em geral a ciência, é também um caminho para encontrar Deus como criador» e, nesse sentido, «um tipo de oração».

Em entrevista à agência italiana SIR, o jesuíta Guy Consolmagno sublinha que o Observatório do Vaticano, uma das instituições do género mais antigas do mundo, com raízes na segunda metade do séc. XVI, é um sinal de que a Igreja apoia a ciência e que, «obviamente», não tem medo de novas descobertas científicas.

Especialista em meteoritos, o religioso norte-americano divide a vida entre o Vaticano e Tucson, nos EUA, onde esta sediado o Vatican Advanced Technology Telescope, que é usado em colaboração com a Universidade do Arizona.

 

Quando está diante do telescópio, o que procura no universo?

Somos todos astrónomos, mas cada um de nós tem interesses diferentes. Pessoalmente interesso-me pelos objetos longínquos mas que ainda assim estão presentes no sistema solar. Outros colegas ocupam-se das galáxias e do espetro das estrelas. Cada um de nós leva por diante investigações diversas, porque a ciência não é constituída pelas grandes ideias, mas é como uma catedral em que somos chamados a construir apenas pequenas partes.

 

O que o fascina de modo particular no universo?

Para mim a grande interrogação é descobrir como é feito o nosso sistema solar e como são feitos os planetas. Durante muitos anos tínhamos ideias muito claras, mas agora, com todos os exoplanetas que têm sido descobertos, demo-nos conta de que as nossas ideias estavam erradas e por isso é preciso repensar como é feito o sistema solar. E procurar uma resposta neste sentido é muito fascinante.

 

Tinha 37 anos quando decidiu entrar na ordem dos Jesuítas e já antes tinha trabalhado como cientista. Por que fez essa escolha?

Num certo ponto da minha vida dei-me conta de que desejava trabalhar não só para mim, desejava colocar à disposição o meu trabalho também para os outros. Trabalhei na Peace Corps, uma organização de voluntariado dos EUA e agora coloquei-me ao serviço da Igreja. Tudo isto continuando a trabalhar no meu campo, a astronomia, para mostrar às pessoas não só a beleza do universo, mas também a beleza do Criador deste universo.

 

A astronomia pode abrir um caminho para Deus?

Sim. Recordo que há muitos anos, quando era criança, a minha mãe jogava comigo às cartas e uma vez apercebi-me que não o fazia para vencer, mas para exprimir o seu amor por mim. Hoje, quanto trabalho como cientista, dou-me conta de como Deus, como Pai, joga comigo para mostrar o seu amor por nós. A ciência é um caminho através do qual se exprime este amor.

 

O seu olhar de cientista é compatível com a sua fé em Deus?

Se não acredito que o universo é compreensível porque é feito por um Deus bom, não faço este trabalho. Se não acredito que o universo é feito por um Deus bom, que fez tudo isto como expressão do seu amor, o estudo do universo seria inútil para mim. E é precisamente graças à fé que posso procurar sempre a verdade e também a alegria neste trabalho, e na verdade e na alegria podemos encontrar Deus.

 

A Igreja tem medo de novas descobertas científicas?

Obviamente que não. A Igreja paga-me para fazer novas descobertas científicas. O papa Francisco disse-nos, há apenas uma semana, que não tem medo da verdade. Se alguém tem medo da verdade por causa da própria fé, falta-lhe fé na sua fé.

 

Considera que há vida extraterrestre? Quando observa as estrelas sente-se algo observado pelo alto?

Essa é uma questão de fé. Não há dados, seguros, que exista. Mas porque acredito que possam existir, posso trabalhar para a procurar. A ciência é fundada na fé. Não sei se existe vida extraterrestre... Tenho esperança, seria um universo muito mais interessante.

 

As estrelas têm influência na vida das pessoas?<

A teoria da astrologia não funciona. A astrologia é uma teoria medieval. Há muiyas coisas modernas que me parecem como a astrologia. Há quem pense que o futuro é fixado pelas estrelas ou pela genética, ou pelos pais ou pela própria raça. Parece-me que essas são ideias falsas, dado que somos homens livres para fazer as nossas escolhas e por isso é importante não limitar as possibilidades dos nossos sonhos.

 

Diz-se que Deus está no céu. Perguntamos ao astrónomo do papa: onde está Deus?

Não sei. (...) Deus não é uma força na natureza mas está sobre a natureza. Deus existe antes do tempo. Alguém se perguntará: como é possível? Como homens não temos as palavras para explicar tudo isto. Deus está fora do tempo e fora do espaço; criou o tempo e o espaço. Mas não o fez só no passado. Continua a fazê-lo sempre. Está a criar neste momento, em cada momento. A criação não é um acontecimento que se limita há 13 mil milhões de anos, mas continua, também hoje, também no futuro. Se se pensa que Deus é uma força como a gravidade ou o eletromagnetismo, então esse tipo de deus é como Zeus, que lança os relâmpagos sobre a Terra. Esse não é o nosso Deus. Creio num só Deus; há muitos outros deuses em que não acredito; creio só num Deus "supernatural", isto é, que está sobre a natureza, que fez este universo por amor na luz.

 

O papa Francisco convida-nos a ir para as periferias: o senhor vive e trabalha em grandes periferias, quais são as suas periferias?

Para mim a periferia não é só um lugar muito longínquo no espaço, mas as periferias são também os cientistas ou as outras pessoas que pensam que a ciência destruiu a razão pela religião. Acredito que as pessoas que pensam que não precisam da religião por causa da ciência estão neste momento algo alienadas da própria cultura, e também dos outros. Esta é uma fronteira importante da Palavra e se, a partir do meu exemplo, alguém se convence de que se pode trabalhar no campo científico sendo pessoa crente, então para mim é um sucesso. A meu ver, com efeito, a vida é muito mais rica com amas, a ciência e a religião. É um pecado se falta uma ou outra. Todos somos religiosos, inclusive os ateus, mas também somos todos cientistas.

 

A biblioteca do Observatório do Vaticano, localizada em Castelgandolfo, 35 km a sul de Roma, possui cerca de 22 mil volumes, incluindo obras de Copérnico, Galileu e Kepler, além de uma importante coleção de meteoritos.



 

Irene Argentiero
In SIR
Trad./edição: SNPC
Publicado em 10.06.2017

 

 

 
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