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Chaves para o discernimento antes de assumir um compromisso

Mal chegados de férias, eis que somos logo solicitados por todos os lados: a paróquia pede catequistas e pessoas que assumam tarefas na liturgia, nos arranjos florais ou na guarda das crianças durante as celebrações; o clube desportivo ou a associação procura um novo tesoureiro; os escuteiros precisam de um dirigente; os voluntários ao serviço do hospital, da prisão, etc., precisam de pessoas para atender as necessidades de quem quer ser escutado; são necessárias mãos para preparar e distribuir refeições e vestuário pelos mais pobres… Muitas vezes o apelo é feito aos quatro ventos, facilitando a esquiva. Outras vezes a pergunta é-nos colocada diretamente: «Aceita assumir tal responsabilidade?». Qualquer que seja a forma como o compromisso nos é apresentado, impõe-se um tempo de reflexão, a sós, a dois ou em família antes de responder.

 

Porquê comprometer-se?

Não posso ser cristão sem me comprometer. O compromisso desenvolve em mim a virtude da caridade, o amor pela Igreja e pelos meus irmãos. Escutemos S. Tiago: «É pelas minhas obras que te mostrarei a minha fé». Não é possível dobrar-se egoisticamente sobre si, acreditando que a paróquia, a escola, a associação são assuntos dos outros. O cristão não é um aproveitador, mas um ator.

Ao realizar determinada missão, compreendemos melhor a realidade do terreno, enquanto que é muitas vezes fácil criticar ao permanecer-se consumidor. O compromisso cristão faz-nos levar frutos autênticos às comunidades que tecem a realidade social da nossa vida (família, paróquia, escola, bairro, etc.).

Estaremos nós convencidos de que fazemos parte de uma comunidade e que ela conta connosco? Uma paróquia não se desenvolve unicamente com os padres, nem uma escola com apenas os seus professores e a sua direção.

 

Como saber se estamos aptos a executar uma missão que nos querem confiar?

Colocando-nos perguntas muito concretas.

1) Tenho as competências para fazer o que me é pedido, ou falta-me um saber, uma experiência que será preciso adquirir? Dizer que não se é capaz pode esconder uma falsa modéstia e mesmo um verdadeiro orgulho. A Virgem Maria nunca disse «não sou capaz»! O compromisso é o sinal autêntico do cumprimento de si através do serviço aos outros.

2) Qual é o tempo de que disponho, objetivamente? É preciso ser muito claro sobre o que se quer fazer e o que se pode fazer. O voluntariado deve ser claramente definido nas tarefas e nos tempos. Na minha antiga paróquia há fichas de voluntariado que se assemelham a pequenos contratos. Elas estipulam, por exemplo: «Está ao serviço do acolhimento, compromete-se determinadas horas por semana durante tal período, com tal objetivo a realizar». Ser voluntário não significa seguramente ser um escravo para todo o serviço.

3) Qual é, para mim, o sentido do compromisso? Por exemplo, se eu não tenho muitas competências à partida, o facto de que ele me vai formar pode ser um argumento. Não há melhor escola de catequese que o catequizar: é catequizando os outros que a pessoa se interessa pela própria fé. É muitas vezes ao transmiti-la que se faz crescê-la. As paróquias não esperam grandes teólogos ou especialistas, mas sobretudo pessoas que desejam sentir-se preenchidas através do seu compromisso e que querem dar testemunho da sua vida de fé.

 

«Se eu não for, ninguém irá»

É a pior maneira de discernir. No entanto, não se pode ficar insensível a um apelo. Para não nos enganarmos, recordemos este princípio que orienta tudo: a vida cristã não é uma vida agitada, é uma vida fecunda. O que é uma vida cristã agitada? É fazer muitas coisas pelo bom Deus mas não onde Ele me espera. Há pessoas muito agitadas, que se dão em demasia e sem discernimento, e que depois se cansam e nunca mais são vistas…

 

«Se eu paro, não há mais ninguém que assuma esta função»

Isso pode dar à comunidade a consciência de que se deixar de estar lá, será preciso procurar alguém. Por vezes isso pode metê-la em apuros, mas ninguém é indispensável. E para os outros é relativamente fácil contar despreocupadamente com as pessoas, sempre as mesmas, que fazem tudo.

Na paróquia, a questão coloca-se sobretudo nestes termos: os paroquianos conhecem-se suficientemente bem para se chamarem e recrutarem uns aos outros? Nunca será uma armadilha se todos souberem o que podem dar. Cabe ao responsável e ao pároco validar essas propostas.

 

Quais são os critérios de um bom discernimento?

Vejo três. Em primeiro lugar, o compromisso deve ser uma resposta a um apelo de Deus. Uma coisa é fazer coisas para Deus, outra é fazer o que Deus espera de mim. Não assumo um compromisso sobretudo para responder a uma falta de reconhecimento social ou para ter poder.

Depois, deve ser compatível com o meu dever de estado. Se o meu compromisso me faz fugir dos momentos de intimidade que devo ter com o meu marido ou a minha mulher, ou das tarefas familiares, não é ajustado.

Por fim, esse investimento do meu tempo, das minhas forças, das minhas capacidades, não deve ser uma agitação, mas deve permitir uma progressão da minha vida espiritual. A vida espiritual passa pela caridade. Essa caridade é um critério muito bom para nos dar a temperatura da nossa vida espiritual.

 

Como saber para onde Deus nos chama?

Pedindo conselho à mulher, ao marido, a pessoas que já asseguram o serviço. E ao pároco. Os nossos próximos podem ajudar-nos a dar um passo atrás em relação ao que pensamos sobre as nossas capacidades e limites. Mas é também põe eles que Deus poderá fazer passar o seu chamamento.

Depois destas consultas, não resta mais nada a não ser entregar-se totalmente a Deus. Com uma certeza: se a escolha que estou prestes a tomar me coloca na paz e na alegria, é bom sinal. Podemos-lhe pedir para nos dar a graça de nos comprometermo-nos sem medo, sem temor e sem falsa humildade, e de levar um fruto de caridade para a Igreja e para a comunidade.


 

Depoimento do P. Xavier Lefebvre recolhido por Bénédicte de Saint-Germain
In Famille Chrétienne
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: Yastremska/Bigstock.com
Publicado em 11.09.2018

 

 
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