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Catolicismo marcou democracia portuguesa desde o início, considera Marcelo Rebelo de Sousa

Imagem Marcelo Rebelo de Sousa | D.R.

Catolicismo marcou democracia portuguesa desde o início, considera Marcelo Rebelo de Sousa

Marcelo Rebelo de Sousa, professor catedrático de Direito e presença regular na televisão em Portugal enquanto comentarista, afirmou hoje em Lisboa que o catolicismo está na génese da democracia portuguesa desde o seu início.

Em declarações ao Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura, à margem do lançamento do número especial da revista "Povos e culturas", dedicada aos católicos e o 25 de Abril, o político recordou que o pensamento alternativo de alguns setores da Igreja em Portugal em relação ao regime ditatorial tem as suas raízes nos anos 40 do século passado.

Neste depoimento, Marcelo Rebelo de Sousa analisa também a presença dos católicos na vida política em Portugal, 40 anos após a revolução que permitiu a transição para a democracia, e fala da dificuldade em viver a mensagem cristã dentro da tendência política com que se identifica.

 

Os católicos não nasceram no dia 25 de abril
Marcelo Rebelo de Sousa

Os católicos, antes do 25 de abril, num processo muito longo e pouco conhecido iniciado na década de [19]40, que dá um grande salto sobretudo nos final dos anos 50, e prossegue ao longo dos anos 60 e início da década de 70, tiveram um papel tentacular pelas várias paróquias, dioceses e movimentos, bem como na sociedade civil.

Através dos seus testemunhos, da sua luta e da sua militância, acentuada após o Concílio Vaticano II [1962-1965], foram muito importantes na viragem do social-catolicismo, que numa fase muito anterior tinha estado, aparentemente, próximo do salazarismo, mas que se afasta, entra em rutura e em crítica aberta a ele, constituindo uma das componentes fundamentais dos partidos políticos nascentes.

Este social-catolicismo acaba por ter um papel essencial ao entrar, em parte, no Partido Socialista, estando no MDP-CDE, tendo muita gente no então Partido Popular Democrático [atual PSD] e no CDS, em partidos independentes de esquerda muito variados, inclusive em movimentos revolucionários, na vida sindical e na vida patronal através da UCIDT, antepassado da ACEGE [Associação Cristã de Empresários e Gestores].

Isto passa para os partidos, para os sindicatos e para a [Assembleia] Constituinte [formada na sequência da revolução do 25 de Abril para elaborar a Constituição]. Por isso, não se pode ignorar o papel fundamental dos católicos - que a própria hierarquia [eclesial], através de algumas tomadas de posição nos anos 70, começa a ecoar cuidadosa e diplomaticamente -, mas sobretudo o papel deles na base, na militância, nos pequenos grupos da sociedade portuguesa. Isto, obviamente, marca a democracia portuguesa desde o seu início.

Quando se observa o que existe de socialistas cristãos, sociais-cristãos, liberais-cristãos e sindicalistas cristãos que vão estar presentes em todo o tablado político português após a revolução, conclui-se que eles não nasceram no dia 25 de abril; têm um percurso anterior que culmina na viragem daquela data e seguem o seu rumo na democracia.

Hoje, o enquadramento é diferente. Nós, católicos - e eu assumo-o sem nenhum complexo -, somos uma minoria cultural na Grande Lisboa - provavelmente não o somos ainda no país, onde somos uma grande minoria, mas não deixa de ser minoria -, embora estejamos presentes em vários movimentos, organizações, no mundo sindical e laboral, na escola, numa grande diversidade de orientações políticas e partidárias - ou não políticas ou não partidárias.

A vivência em democracia é plural, por natureza, pelo que os católicos atuam, agem, vê-se a nossa presença, mas sempre, como é próprio de uma democracia, sem nos pormos em bicos dos pés e respeitando em espírito ecuménico um clima de liberdade religiosa, de pluralismo de opinião e organização; mas o traço católico, e cristão, para sermos mais amplos, continua presente na sociedade portuguesa.

A mensagem cristã é radical; a divisão é um pouco artificial, mas vou dizê-la: ela é mais de esquerda do que direita. Confesso que viver a mensagem cristã no quadrante de direita, que é aquele onde me situo, nem sempre é fácil. Nem sempre é fácil porque o país habituou-se a identificar o cristianismo com uma visão conservadora da vida portuguesa, e todavia o Evangelho é naturalmente radical; essa radicalidade impõe ruturas que nem sempre são facilmente percetíveis, quer à direita quer à esquerda, por razões diferentes, mas daquilo que eu conheço melhor, não são facilmente aceitáveis à direita.

 

Redação: Rui Jorge Martins
Publicado em 09.12.2014

 

 
Imagem Marcelo Rebelo de Sousa | D.R.
Não se pode ignorar o papel fundamental dos católicos - que a própria hierarquia [eclesial], através de algumas tomadas de posição nos anos 70, começa a ecoar cuidadosa e diplomaticamente -, mas sobretudo o papel deles na base, na militância, nos pequenos grupos da sociedade portuguesa
A mensagem cristã é radical; a divisão é um pouco artificial, mas vou dizê-la: ela é mais de esquerda do que direita. Confesso que viver a mensagem cristã no quadrante de direita, que é aquele onde me situo, nem sempre é fácil
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