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Carta às Mulheres de João Paulo II faz 20 anos e Francisco sublinha «papel insubstituível» da mulher

Imagem Mulher portuguesa alta (det.) | Robert Delaunay | 1916 | Museu Thyssen-Bornemisza, Madrid, Espanha

Carta às Mulheres de João Paulo II faz 20 anos e Francisco sublinha «papel insubstituível» da mulher

O papa Francisco considera que é necessário «afirmar o papel insubstituível da mulher na família e na educação dos filhos, como também o contributo essencial das mulheres trabalhadoras na edificação de estruturas económicas e políticas ricas de humanidade».

A declaração conta de uma mensagem, assinada pelo secretário de Estado da Santa Sé, cardeal Pietro Parolin, por ocasião da realização, em Roma, do seminário internacional sobre a relação entre as mulheres e o trabalho, organizado pelo Conselho Pontifício para os Leigos, revela hoje a Rádio Vaticano.

São precisas «sugestões concretas e modelos positivos para harmonizar os compromissos laborais e as exigências familiares», realça Francisco na mensagem aos participantes no encontro que assinala os 20 anos da Carta às Mulheres, assinada em 1995 por S. João Paulo II.

«Somos herdeiros de uma história com imensos condicionalismos que, em todos os tempos e latitudes, tornaram difícil o caminho da mulher, ignorada na sua dignidade, deturpada nas suas prerrogativas, não raro marginalizada e, até mesmo, reduzida à escravidão», constatava o papa polaco.

Este legado impediu a mulher «de ser profundamente ela mesma, e empobreceu a humanidade inteira de autênticas riquezas espirituais», apontava João Paulo II, que também deplorava o envolvimento dos cristãos na menorização do sexo feminino.

«Não seria certamente fácil atribuir precisas responsabilidades, atendendo à força das sedimentações culturais que, ao longo dos séculos, plasmaram mentalidades e instituições. Mas, se nisto tiveram responsabilidades objetivas, mesmo não poucos filhos da Igreja, especialmente em determinados contextos históricos, lamento-o sinceramente», assinalava.

Depois de lembrar o comportamento de Cristo, que, «superando as normas em vigor na cultura do seu tempo, teve para com as mulheres uma atitude de abertura, de respeito, de acolhimento, de ternura», a Carta realçava a contribuição por elas dada à humanidade, «não inferior à dos homens, e a maior parte das vezes em condições muito mais desfavoráveis».

«Penso, de modo especial, nas mulheres que amaram a cultura e a arte, e às mesmas se dedicaram partindo de condições desvantajosas, excluídas frequentemente de uma educação paritária, submetidas à inferiorização, ao anonimato e até mesmo à expropriação da sua contribuição intelectual», sublinhava João Paulo II.

O rebaixamento das mulheres é também manifesto no facto de continuarem a «ser valorizadas mais pelo aspeto físico que pela competência, pelo profissionalismo, pelas obras da inteligência, pela riqueza da sua sensibilidade e, em última análise, pela própria dignidade do seu ser».

Além dos «obstáculos que, em tantas partes do mundo, impedem ainda às mulheres a sua plena inserção na vida social, política e económica», soma-se um ambiente social em que «é mais penalizado que gratificado o dom da maternidade, à qual, todavia, a humanidade deve a sua própria sobrevivência».

«Urge conseguir onde quer que seja a igualdade efetiva dos direitos da pessoa e, portanto, idêntica retribuição salarial por categoria de trabalho, tutela da mãe-trabalhadora, justa promoção na carreira, igualdade entre cônjuges no direito de família, o reconhecimento de tudo quanto está ligado aos direitos e aos deveres do cidadão num regime democrático», frisava João Paulo II.

A missiva acentuava que um dos «aspetos mais delicados da situação feminina no mundo» é «a longa e humilhante história — com frequência, “subterrânea” — de abusos perpetrados contra as mulheres no campo da sexualidade».

A Igreja, referia o documento, não pode deixar de «denunciar a difusa cultura hedonista e mercantilista que promove a exploração sistemática da sexualidade, levando mesmo meninas de menor idade a cair no circuito da corrupção e a permitir comercializar o próprio corpo».

«Diante de tais perversões, quanto louvor merecem as mulheres que, com amor heroico pela sua criatura, carregam uma gravidez devida à injustiça de relações sexuais impostas pela força», apontava João Paulo II, acrescentando que nessas condições «a escolha do aborto, que permanece sempre um pecado grave, antes de ser uma responsabilidade atribuível à mulher, é um crime que deve ser imputado ao homem e à cumplicidade do ambiente circundante».

Em contracorrente à mentalidade dominante, segundo a qual «o progresso é avaliado segundo categorias técnicas e científicas», é imperativo destacar que «mais importante ainda é a dimensão ético-social, que diz respeito às relações humanas e aos valores do espírito».

«Nesta dimensão, frequentemente desenvolvida sem alarde, a partir das relações quotidianas entre as pessoas, especialmente dentro da família, a sociedade é em larga medida devedora, precisamente ao “génio da mulher”, considerava o papa.

O texto recordava que Cristo, «por escolha livre e soberana, bem testemunhada no Evangelho e na constante tradição eclesial, confiou somente aos homens a tarefa de ser “ícone” da sua imagem de “pastor” e “esposo” da Igreja através do exercício do sacerdócio ministerial».

Todavia, essa escolha «em nada diminui o papel da mulher, como afinal sucede com os outros membros da Igreja não investidos do sagrado ministério, já que todos são igualmente dotados da dignidade própria do “sacerdócio comum”, radicado no Batismo», defendia João Paulo II.

A carta também agradece «a cada mulher, por aquilo que ela representa na vida da humanidade»:

«Obrigado a ti, “mulher-mãe”, que te fazes ventre do ser humano na alegria e no sofrimento de uma experiência única, que te torna o sorriso de Deus pela criatura que é dada à luz, que te faz guia dos seus primeiros passos, amparo do seu crescimento, ponto de referência por todo o caminho da vida.

Obrigado a ti, “mulher-esposa”, que unes irrevogavelmente o teu destino ao de um homem, numa relação de recíproco dom, ao serviço da comunhão e da vida.

Obrigado a ti, “mulher-filha” e “mulher-irmã”, que levas ao núcleo familiar, e depois à inteira vida social, as riquezas da tua sensibilidade, da tua intuição, da tua generosidade e da tua constância.

Obrigado a ti, “mulher-trabalhadora”, empenhada em todos os âmbitos da vida social, económica, cultural, artística, política, pela contribuição indispensável que dás à elaboração de uma cultura capaz de conjugar razão e sentimento, a uma conceção da vida sempre aberta ao sentido do “mistério”, à edificação de estruturas económicas e políticas mais ricas de humanidade.

Obrigado a ti, “mulher-consagrada”, que, a exemplo da maior de todas as mulheres, a Mãe de Cristo, Verbo Encarnado, te abres com docilidade e fidelidade ao amor de Deus, ajudando a Igreja e a humanidade inteira a viver para com Deus uma resposta “esponsal”, que exprime maravilhosamente a comunhão que Ele quer estabelecer com a sua criatura.

Obrigado a ti, “mulher”, pelo simples facto de seres “mulher”! Com a perceção que é própria da tua feminilidade, enriqueces a compreensão do mundo e contribuis para a verdade plena das relações humanas.»

 

Rui Jorge Martins
Publicado em 04.12.2015 | Atualizado em 04.12.2015

 

 

 
Imagem Mulher portuguesa alta (det.) | Robert Delaunay | 1916 | Museu Thyssen-Bornemisza, Madrid, Espanha
«Penso, de modo especial, nas mulheres que amaram a cultura e a arte, e às mesmas se dedicaram partindo de condições desvantajosas, excluídas frequentemente de uma educação paritária, submetidas à inferiorização, ao anonimato e até mesmo à expropriação da sua contribuição intelectual»
Além dos «obstáculos que, em tantas partes do mundo, impedem ainda às mulheres a sua plena inserção na vida social, política e económica», soma-se um ambiente social em que «é mais penalizado que gratificado o dom da maternidade, à qual, todavia, a humanidade deve a sua própria sobrevivência»
Obrigado a ti, “mulher-trabalhadora”, empenhada em todos os âmbitos da vida social, económica, cultural, artística, política, pela contribuição indispensável que dás à elaboração de uma cultura capaz de conjugar razão e sentimento, a uma conceção da vida sempre aberta ao sentido do “mistério”, à edificação de estruturas económicas e políticas mais ricas de humanidade
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