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Cardeal que pediu ao papa para não se esquecer dos pobres fala dos 4 anos de pontificado

Cardeal que pediu ao papa para não se esquecer dos pobres fala dos 4 anos de pontificado

Imagem Papa Francisco com D. Cláudio Hummes | Vaticano, 13.3.2013 | D.R.

Alguns falam dele como um dos "grandes eleitores" do papa argentino. Ele é mais modesto e não quer atribuir-se qualquer mérito. E também nunca pensou que uma simples frase, pronunciada como amigo logo após a escolha, tivesse tal impacto em Jorge Mario Bergoglio. Naquele dia 13 de março de 2013 o cardeal brasileiro Cláudio Hummes foi o primeiro a abraçar o papa logo após a eleição, sussurrando-lhe ao ouvido: «Não te esqueças dos pobres». Escassas palavras que todavia tocaram o pontífice, ao ponto de escolher o nome de Francisco, evocando o despojamento do santo de Assis.

Franciscano, ex-arcebispo de S. Paulo e prefeito emérito da Congregação para o Clero, do Vaticano, Cláudio Hummes traça um balanço dos quatro anos de Francisco como sucessor de Pedro, durante os quais a Igreja viveu e continua a viver uma «forte sacudidela», apesar de algumas oposições. Que, porém, segundo o cardeal, são «normais», porque «toda a reforma suscita resistências».

Que balanço faz destes quatro anos?
Excelente. Trata-se de um pontificado extraordinário. O papa Francisco impeliu a Igreja a abrir-se, a sair, sobretudo para a periferia e para os pobres, pedindo para ser solidária com ele e acompanhá-lo. Fá-lo sempre com grande dedicação. Este é talvez o traço mais evidente destes quatro anos. Como também a questão da paz, outro desafio concreto. O papa está sempre onde existem conflitos, está lá, vai pessoalmente ou convoca os poderes públicos e as autoridades envolvidas para as incitar a iniciar processos de paz, de diálogo, de abertura.



A questão da misericórdia sacudiu a Igreja, encorajou-a a apostar menos na lei e mais no amor, menos nas estruturas e mais sobre a vida, para fazer o bem, estar próximo das pessoas, consolá-las. Porque só a misericórdia salva, e não a lei, recordemo-lo. É um ambiente novo para a Igreja, no sentido de que está a voltar profundamente para o Evangelho, cumprindo uma peregrinação na história para incluir as pessoas e não excluir ninguém.



O que mais o tocou neste pontificado?
Recordo que pouco tempo depois da sua eleição, quando se temia a ameaça de uma intervenção militar na Síria por parte dos EUA, o santo padre convocou uma vigília pela paz. Permaneceu cerca de seis horas em oração, com as pessoas, na Praça de S. Pedro. No fim não houve essa guerra. Significa que também Barack Obama compreendeu. A oração a Deus tem uma força enorme e moveu também o coração do ex-presidente dos EUA, que refletiu muito sobre o gesto do papa antes de mover o exército. Depois o papa convidou para o Vaticano os presidentes de Israel e da Palestina para rezarem pela paz. E eles foram. Esteve também em Cuba para construir uma ponte com os EUA, realizou um grande trabalho pela paz. Interessou-se também pela criação, pelas crises climáticas, ecológicas, com a encíclica "Laudato si'". Este é também um compromisso fortíssimo que remete para a escolha do nome, Francisco, o santo dos pobres, da paz e da criação, como explicou aos jornalistas depois de eleito. Estes três temas, pobres, paz, criação, são os fundamentais do seu ministério.

Qual tem sido o impacto do papa dentro da Igreja?
A questão da misericórdia sacudiu a Igreja, encorajou-a a apostar menos na lei e mais no amor, menos nas estruturas e mais sobre a vida, para fazer o bem, estar próximo das pessoas, consolá-las. Porque só a misericórdia salva, e não a lei, recordemo-lo. É um ambiente novo para a Igreja, no sentido de que está a voltar profundamente para o Evangelho, cumprindo uma peregrinação na história para incluir as pessoas e não excluir ninguém.

O diálogo também representou um capítulo importante na missão do papa...
Uma das coisas mais importantes para o papa Francisco é caminhar com todos: como amigos e como irmãos, não como adversários, respeitando as diferenças de cada um, mas unindo-se onde é possível unir-se, sempre a favor do bem, da salvação da humanidade. Isto é iluminar a história: o papa quer dialogar com as outras religiões, com as outras Igrejas cristãs, com todas as pessoas de boa vontade.



A diversidade na Igreja não é um mal, porque ela própria é uma unidade na diversidade: de culturas, de pensamentos, de formas de entender a vida. O mal é quando as diversidades se tornam divisões, contraposições, conflitos. Isto não se pode aceitar, a divisão destrói a Igreja



A 13 de março de 2013, quando Bergoglio foi eleito papa, foi o primeiro cardeal a abraçá-lo, pronunciado a famosa frase «não te esqueças dos pobres!». Porque é que a disse?
Não tinha preparado nada, no momento em que o abracei veio-me espontaneamente à mente essa frase. Muito menos podia imaginar que pudesse ter um efeito tão grande no novo papa, no seu pensamento. Ele mesmo me disse que escolheu o nome de Francisco por causa disso... Evidentemente foi o Espírito Santo a falar através da minha boca.

Além das coisas positivas que elencou, emergiram nestes quatro anos algumas resistências. Era de esperar que houvesse críticas tão fortes a esta reforma da Igreja?
Todas as reformas suscitam resistências. Há pessoas que estão cómodas, que têm medo de perder alguma coisa, ou talvez tenham uma visão diferente. Mas a diversidade na Igreja não é um mal, porque ela própria é uma unidade na diversidade: de culturas, de pensamentos, de formas de entender a vida. O mal é quando as diversidades se tornam divisões, contraposições, conflitos. Isto não se pode aceitar, a divisão destrói a Igreja.

Essas resistências são um fenómeno temporal ou têm raízes mais profundas?
Eu sou muito otimista. Creio que tudo isto é parte do caminho: caminhamos, andamos em frente, e o papa fá-lo com grande serenidade. Todos precisamos de apoio para caminhar. No fim Deus, com a sua graça, ilumina-nos. Também as reformas colocam raízes.

Será que o papa não é plenamente compreendido pelos seus críticos? Por exemplo, a exortação "A alegria do amor" foi mal entendida?
Não gostaria de entrar na questão, o contexto já é suficientemente frenético. Eu apoio plenamente a exortação apostólica. Não se pode esquecer que foram realizados dois sínodos para corroborar o ensinamento do papa.

Como é visto papa pelo sul do mundo?
A sua proveniência latino-americana, e não da região europeia, é seguramente uma riqueza. A Igreja saiu de um círculo histórico. Durante séculos, com efeito, a Igreja inculturou-se na Europa e esta inculturação foi um grande sucesso. O facto de o papa não fazer parte daquele círculo dá à Igreja uma respiração mais ampla e uma nova universalidade. Não que antes não fosse universal, mas agora é mais rica, mais multiforme. A Igreja não pode parar de se inculturar noutros povos. O facto de o papa vir "de fora" dá à Igreja novas aberturas, novas possibilidades.



 

Andrés Beltramo Álvarez
In "Vatican Insider"
Edição: SNPC
Publicado em 13.03.2017

 

 
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