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Capela Sistina recebeu primeiro concerto transmitido ao vivo pela internet

Pela primeira vez um concerto realizado na capela Sistina, no Vaticano, foi transmitido ao vivo pela pela internet, permitindo a audiências de todo o mundo assistir, este domingo, à interpretação do "Stabat Mater".

A peça de quatro movimentos, baseada num texto do século XIII que retrata a dor e a tristeza de Mãe de Jesus permanecendo de pé junto à cruz, recebeu críticas elogiosas aquando da sua estreia mundial, em Londres, em outubro de 2016.

O trabalho encomendado pela Fundação Genesis, criada em 2001 pelo empresário e filantropo John Studzinski para apoiar músicos, dramaturgos e atores nos estágios iniciais das suas carreiras, foi interpretado pelo coral britânico "The Sixteen" e o conjunto de orquestra de câmara "Britten Sinfonia".

No acolhimento ao público, o cardeal inglês Vincent Nichols, impulsionador do concerto na capela Sistina, rezou para que Deus tocasse os corações dos ouvintes, de modo a inspirar sentimentos de compaixão por aqueles que sofrem no mundo de hoje.

«Esta oração implora por uma participação ativa nesse sofrimento. Ela clama por uma disposição, por amor, em apoiar aqueles que estão a sofrer, levando a dor deles aos nossos corações. É, radicalmente e notavelmente, a oração de uma mãe. A composição de James McMillan explora poderosamente a intensidade e o drama dessa oração», sublinhou o prelado.

«Toca-se aqui no coração de uma mãe na angústia, como todas as mães o são, através dos séculos e dos países, quando os seus filhos sofrem», assinalou o cardeal. Sob os frescos de Miguel Ângelo «pode pensar-se na sua "Pietà" [escultura que representa a Virgem com o corpo de Cristo tombado sobre os joelhos] na basílica [de S. Pedro] e escutar esta "Pietà" musical».

Para MacMillan, o poema «vai além da mera descrição e convida o leitor e o ouvinte a participar da dor da Mãe como um caminho para a graça e como parte da jornada espiritual de um crente».

Não obstante o ronronar permanente do sistema de climatização essencial para preservar as pinturas, o maestro Harry Christophers elogiou a capela Sistina, que atrai anualmente cerca de seis milhões de pessoas e que para a ocasião acolheu cerca de 300 personalidades, entre benfeitores e religiosos.

Christophers terminou o concerto com lágrimas nos olhos, causadas pela emoção de aliar uma obra contemporânea à herança centenária da capela: «Estes grandes lugares sagrados têm sempre uma acústica singular. Os detalhes que se ouvem, a ressonância, é fantástico e muito emocionante. Ocasiões como esta têm-se uma vez na vida».

Milhares de ouvintes sintonizaram o concerto ao vivo através da página Classic FM no Facebook, causando problemas temporários no "site", sem no entanto colocar em risco o sucesso desta experiência artística, musical e espiritual.

 

Entrevista a James MacMillan

Qual foi a sua reação ao ter a sua composição executada na capela Sistina?

Sinto-me como se me tivesse beliscado durante todo o espetáculo. Foi uma honra e encanto ter a minha música tocada em tal lugar, considerando Miguel Ângelo, é claro, mas também os grandes músicos que aqui estiveram e cantaram, como Palestrina e Allegri - o "Miserere" de Allegri, que Mozart ouviu aqui. E eu estava lá em cima, pouco antes do concerto começar. e notei que Josquin des Prez escreveu o seu nome na parede. É inacreditável. Portanto, é um contexto maravilhoso.

 

A oração de Stabat Mater é para transmitir a dor e o sofrimento experimentados por Nossa Senhora em particular - é isso que pretendia com a música?

Penso que sim - é o melhor musical "Kindertotenlied", como dizem, essa relação entre mãe e filho. É a história da crucificação e há muitas maneiras de a contar, é claro que Bach escreveu duas maravilhosas Paixões. Mas ser capaz de ver a narrativa através dos olhos de Maria é algo muito especial e é por isso que atraiu compositores através dos séculos para a compor. [Giovanni Battista] Pergolesi, é claro, foi provavelmente a composição mais popular e conhecida, mas houve muitos antes e depois de Palestrina - [Karol] Szymanowski no século XX. E eu também quis sempre experimentar.

 

Ao ouvir a performance de hoje à noite, lembramo-nos de quanto sofrimento existe hoje devido ao holocausto do aborto, a perda de muitas vidas e a dor das mães, bem como o caso atual de Alfie Evans. Concorda que a música transmite a realidade dessa dor?

Concordaria totalmente. John Studzinski é, claro, um grande humanitário e ajudou, na crise de refugiados e assim por diante, mulheres que perderam seus filhos no Mediterrâneo, ao tentarem fugir do sofrimento e da guerra. Com certeza que me identifico como pai e sei o que é perder uma vida, perder alguém próximo. Uma neta morreu há alguns anos e eu escrevi este "Stabat Mater" antes que isso acontecesse, por isso há estranhos pré-ecos da nossa tristeza na música. Mas é uma algo universal: qualquer pai, qualquer criança que ame os seus pais sabe quais são esses vínculos e como são difíceis de romper.

 

Planeia realizar mais concertos como este?

Estou a escrever outra peça para o "The SSixteen", e é resultado da instigação e das conversas com John Studzinski. É uma peça que explora o mistério do Espírito Santo e estou a compô-la isso para o meu sexagésimo aniversário, que é no ano que vem, no próximo verão.



 

Philippa Hitchen (Vatican News), Edward Pentin (National Catholic Register), AFP (Le Point)
Trad. / edição: SNPC
Imagem: Concerto na capela Sistina | Vaticano | 22.4.2018 | D.R.
Publicado em 23.04.2018

 

 
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