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Capela Imaculada: Os nossos ouvidos foram cegos, a serenidade do espaço que não vemos

Capela Imaculada: Os nossos ouvidos foram cegos, a serenidade do espaço que não vemos

Imagem Capela Imaculada, Braga | © P. Joaquim Félix

reflexões acerca de uma metáfora de Juhani Pallasmaa

A serenidade é uma das dimensões de qualquer espaço que tenha um programa religioso ou litúrgico, tal como o é a luz. A serenidade é a consciência de que o espaço pertence à arquitetura e não é a ausência de som; consiste no tipo de presença que encontramos numa sala de concertos quando o maestro levanta os braços e suscita a concentração da orquestra e da assistência.

É particularmente feliz ver um edifício ganhar forma, desenvolver as características do seu espaço, dimensões e tamanhos que saem do tradicional, como acontece, por exemplo, com o espaço litúrgico. Este apenas pode ser criado em cooperação, uma aberta e generosa cooperação. Felizmente, tenho colegas e amigos capacitados para cooperar neste tipo de trabalho. Levar a cabo projetos públicos de grande envergadura como este requer um espaço criativo entre profissionais e uma linguagem que se abra à participação e permita desenvolver outras direções.

É como inspecionar uma gruta em busca de uma nascente oculta, e o som da água que corre é claro, mas o caminho para a nascente está apagado e encoberto na escuridão da gruta.




Imagem Capela Imaculada, Braga | © P. Joaquim Félix



Somos idealistas e, na nossa condição de idealistas, falíveis; o caminho é errante e exploratório; grandiosos são, portanto, os momentos de unânime claridade e unidade, a exatidão e o lugar “autoevidente” da arte no espaço.

Quando a arte das unidades solitárias, dos elementos arquiteturais, consegue abordar e resumir qualidades específicas que transmitimos como imagens mais ou menos difusas, marcos miliários são criados ao longo desse processo. É espantoso perceber com que segurança apresentámos as nossas propostas e como conseguimos levar o processo de concretização tão longe. Temos uma confiança fundamental em cada um daqueles que integra o grupo, na honestidade e vontade que cada um tem de se envolver em construtivas discussões críticas - e grande convicção na dimensão intelectual e espiritual do processo.



Imagem Capela Imaculada, Braga | © P. Joaquim Félix

Acerca da construção

Há misticismo, há dimensões que são desconhecidas, há a dúvida, há a beleza. Um dos mais importantes críticos da arquitetura contemporânea, se não o mais importante, Juhani Pallasmaa, Finlandês, di-lo desta forma:

«… Já fui trabalhador agrícola, da construção civil, administrativo, reitor de uma Universidade, designer gráfico e de produto, etc., mas faço tudo com os olhos e a mente de um arquiteto. Contudo, não digo arquiteto no sentido de um profissional qualificado, mas como um arquétipo, uma espécie de “-eiro”. Um ferreiro não é um profissional qualificado, mas uma figura quase mística. Assim também eu considero o arquiteto um paladino das dimensões míticas da vida, não um profissional.»



Imagem Capela Imaculada, Braga | © P. Joaquim Félix

A abordagem ao projeto realizada mediante este trabalho de equipa que estou a tentar descrever é algo devedora desta conceção de Pallasmaa, não porque careçamos de qualificações para efetuar cada um o seu trabalho, mas porque para esta incumbência vemo-nos como artesãos numa mesma oficina, construtores, que entregam material artístico, a dimensão mítica que Pallasmaa descreve.

O projeto, sem ter sido escrito, é compreendido por nós da seguinte forma: Construir no sentido de uma experiência que revele espiritualidade através da beleza, tanto quanto entendamos o que beleza significa.

John Berger conseguiu descrever este processo no livro Sobre o Olhar, no capítulo Entre dois Colmars, um reencontro com o retábulo de Issenheim, do mestre Grünewald, dez anos depois, entre 1963 e 1973. Trata-se de uma descrição da descoberta daquilo que não poderia ter sido visto no primeiro encontro, mas que foi possível ler e experienciar segundo outra perspetiva e num outro tempo.



Imagem Capela Imaculada, Braga | © P. Joaquim Félix

John Berger:

«Aqueles que não amas julgas pela sua competência ... relativamente ao modo como eles preenchem um contorno, e para descrever esse contorno usamos adjetivos no grau comparativo. A sua “forma” total é a soma das qualidades, descritas pelos adjetivos.

A pessoa amada é considerada de maneira oposta … ele/ela é julgado/a por meio de verbos que possam satisfazer essa pessoa. As suas necessidades poderiam ser totalmente diferentes das do amante, mas criam valor: o valor desse amor.

Para Grünewald o verbo foi pintar, pintar a vida de Cristo.

Um envolvimento que se aprofunda à medida que Grünewald consegue ir revelando a camada de verdade existente entre o objetivo e o subjetivo.»



Imagem Capela Imaculada, Braga | © P. Joaquim Félix

Conclusão:

Sentir um amor profundo pela criação de imagens e figuras ou de figuras que podem servir como estações de esperança e compaixão, êxtase ou milagres, pode com Berger ser um chamamento à inocência do amor, amor à arte.

«O olho vivo vê o eco de si mesmo em todo o lugar onde a luz estiver concentrada.»



Imagem Capela Imaculada, Braga | © P. Joaquim Félix




Imagem Capela Imaculada, Braga | © P. Joaquim Félix




Imagem Capela Imaculada, Braga | © P. Joaquim Félix




Imagem Capela Imaculada, Braga | © P. Joaquim Félix




Imagem Capela Imaculada, Braga | © P. Joaquim Félix




Imagem Capela Imaculada, Braga | © P. Joaquim Félix




Imagem Capela Imaculada, Braga | © P. Joaquim Félix




Imagem Capela Imaculada, Braga | © P. Joaquim Félix




 




 

Asbjørn Andresen
Escultor, Noruega
Texto por ocasião da dedicação da Capela Imaculada, 6.12.2015, Seminário de Nossa Senhora da Conceição, Braga
Tr.: Joana Jacinto
Vídeo: Arquidiocese de Braga
Publicado em 11.02.2016

 

 

 
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