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“Califado” deve ser derrotado e integração deve vencer

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“Califado” deve ser derrotado e integração deve vencer

Com o passar das horas, enquanto o Boko Haram torna a massacrar em África, não se desvanece a sensação de choque e impotência perante o que aconteceu em Paris. O que podemos fazer para enfrentar um fenómeno como o da difusão do radicalismo islamita armado, inclusive no interior das nossas sociedades abertas, como podemos debelar um inimigo tão insidioso? Creio que a indicação de uma resposta possível é obrigatória, na condição de partir da consciência de que, a longo prazo, a existência do “Estado Islâmico” (com os seus clones) e daquilo que representa não é compatível com a própria sobrevivência das nossas democracias.

Ele infeta a nossa sociedade porque lhe transfere a sua mensagem letal, através do fascínio que consegue exercer sobre elementos mais frágeis presentes nas comunidades muçulmanas que contribuem para formar a nossa sociedade plural, comunidades que estão mais expostas do que outras ao risco da marginalidade e marginalização. Ao mesmo tempo, a violência perpetrada por pessoas singulares constitui um risco para alimentar reações xenófobas entre os estratos mais frágeis das nossas sociedades, dando assim vida a uma espiral de ódio que, potencialmente, não tem fim.

Uma força tremenda – repugnante, mas ainda assim impressionante – de um lado e uma fragilidade do outro: deve trabalhar-se para inverter esta relação, transformar o que é fraco em forte e tornar fraco o que emerge como imbatível. Para o conseguir é preciso agir simultaneamente sobre as comunidades muçulmanas presentes no Ocidente e sobre o “Estado Islâmico”, porque só reforçando as primeiras e enfraquecendo o segundo, nós – muçulmanos, cristãos, judeus, ateus, mas também “fiéis” da civilização e da tolerância – poderemos derrotar os porta-bandeiras da barbárie.

Trata-se assim de combater com força, também militarmente, o “Estado Islâmico”, para o abater. Mas combatê-lo segundo uma lógica de ingerência humanitária, que não poupa esforços para deter o mal, com um compromisso direto e apoiando quem, no terreno, se bate realmente contra al-Bagdadi. O atual (não) empenho da comunidade internacional é um dado: na Líbia de Kadhafi foram lançadas infinitamente mais bombas do que as que são hoje usadas contra as milícias do “califado” jiadista. Por muito que fosse um personagem detestável, ninguém poderia sustentar que Kadhafi, em 2011, constituísse uma ameaça à segurança coletiva superior à que é representada por al-Bagdadi. E todavia... É preciso procurar a colaboração do Irão, apoiar mais efetivamente os “peshmerga” curdos e fazer o mesmo com as Forças Armadas líbias, que há anos combatem contra as infiltrações jiadistas.

Internamente, é preciso fazer com que as comunidades muçulmanas presentes na nossa sociedade sejam cada vez mais integradas e cada vez menos marginalizadas. O seu sucesso económico e social é a chave desta operação. Permitir-lhes que ascendam na hierarquia social através do trabalho e da iniciativa económica e comercial. A plena cidadania é a estrada que permitirá uma maior integração, que as transformará antes de tudo na sua perceção identitária.

Só se enfraquecermos o “Isis” e ao mesmo tempo abrirmos verdadeiramente a nossa sociedade aos concidadãos de fé muçulmana poderemos inverter a tendência. E fazer com que estas comunidades muçulmanas cresçam juntamente connosco nos valores da modernidade, tolerância e liberdade, contagiando e libertando as sociedades de origem dos seus antecessores do peso do obscurantismo mais negro e desesperado.

 

Vittorio E. Parsi
Professor de Relações Internacionais da Universidade Católica do Sagrado Coração, Milão, Itália
In "Avvenire"
Trad. / edição: Rui Jorge Martins
Publicado em 09.01.2015

 

 
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Só reforçando as comunidades muçulmanas no Ocidente e enfraquecendo o "Estado Islâmico", nós – muçulmanos, cristãos, judeus, ateus, mas também “fiéis” da civilização e da tolerância – poderemos derrotar os porta-bandeiras da barbárie
Internamente, é preciso fazer com que as comunidades muçulmanas presentes na nossa sociedade sejam cada vez mais integradas e cada vez menos marginalizadas. O seu sucesso económico e social é a chave desta operação
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