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Escultura: Busto nu de Bento XVI causa sensação e motiva críticas e aplausos

Falando aos artistas no Vaticano, no final de novembro de 2009, o papa emérito Bento XVI sublinhou que a beleza não deveria ser algo ilusório ou enganoso, mas algo que dá «asas», e por vezes até «perturba» e conduz ao sofrimento.

Citando o filósofo grego Platão, ele afirmou que o principal efeito da beleza, visto pela arte, devia ser o de dar ao ser humano um « sobressalto saudável que o faz sair de si mesmo, o arranca à resignação, ao conformar-se com o quotidiano».

Jacopo Cardillo, escultor italiano de fama internacional, cujo nome artístico é Jago, levou definitivamente essa definição para um nível totalmente novo quando recentemente decidiu "despir" Bento XVI e retratá-lo com o torso sem roupa, em vez de se vestir com os habituais paramentos papais.

Desde então, a escultura tecnicamente notável tem sido objeto tanto de crítica quanto de louvor, com algumas pessoas a considerar que profana a imagem do anterior pontífice, enquanto outras a julgam como um retrato sincero. Para Jago, a obra de arte nunca quis ser derisória, mas sim uma celebração de Bento XVI, que considera modelo do que todo o papa deveria ser.

«Considero este homem como o maior teólogo vivo», afirmou ele à página Crux, numa entrevista por telefone.

A escultura controversa de Jago e algumas das suas obras de arte são exibidas numa exposição, em Roma, chamada “Habemus hominem”, título que evoca a proclamação “Habemus papam”, proferida na eleição de um papa.

O busto nu de Bento XVI está sentado numa sala sem adornos, uma luz branca brilha sobre ele marcando fortemente as rugas profundas do seu rosto e peito, enquanto segura firmemente as mãos com um olhar de serena resignação.

«Talvez seja a primeira vez que o vemos como ele realmente é, representado na sua humanidade e sem as roupas que usa sempre», disse um estudante do ensino secundário que visitou a exposição, juntamente com a sua turma, como parte de uma lição sobre história da arte.

A história deste busto começa em 2009, quando Jago foi comissionado para criar uma imagem semelhante ao papa. A peça acabada, que estava coberta com os paramentos pontifícios, obteve um sucesso discreto, obtendo vários prémios e críticas positivas.

«O próprio papa escreveu a comunicar que queria conceder-me a medalha pontifícia pela escultura», explicou Jago. O cardeal italiano Gianfranco Ravasi, presidente do Conselho Pontifício da Cultura, concedeu-lhe a medalha em 2012.

«Esse trabalho tornou-se, de certa forma, uma relíquia, algo que é querido, mas para mim esse apego tornou-se insuportável, no sentido de que o trabalho não me representava tanto quanto a sua realização», acrescentou.

«Quando se está realmente ligado emocionalmente a esse objeto, intervir novamente e destruí-lo significa destruir esse anexo. E assim foi», prosseguiu.

A 11 de fevereiro de 2013, Bento XVI anunciou que renunciaria, surpreendendo a comunidade católica e o mundo. Naquele dia, Jago estava a encerrar a sua primeira exposição individual promovida pelo famoso, embora algo controverso, historiador de arte italiano Vittorio Sgarbi, quando o seu pai lhe contou a notícia.

O pai usou o termo «desnudado» ou «despojado» para descrever o que tinha acontecido, dando a Jago o último empurrão para revisitar a sua obra-prima. Ele pegou nas suas ferramentas e esculpiu a partir das pesadas roupas, a pele nua e frágil do papa emérito.

«Nesse dia decidi intervir e modificá-la, mas não de forma derisória», explicou Jago, que optou por manter todos os fragmentos do original. «Ainda mantenho hoje o peso dessas roupas, desse hábito. Tenho todos os detritos e poeiras que foram produzidas, não foram para o desperdício», referiu.

O artista escolheu deixar apenas dois elementos, a “papalina”, o solidéu branco usado pelos papas, e o anel do pescador, ou anel de São Pedro, único para cada pontificado.

«Fiz isso porque um papa não retrocede, não pode dizer “não posso mais ser papa, voltarei a ser cardeal". Não, o papa é o papa porque a jornada que começou não pode ser cancelada», declarou Jago.

O trabalho foi concluído em 2016, mas o interesse do artista em Bento XVI remonta a muito antes desta peça. Jago é um católico, nascido na cidade de Frosinone, traz sempre consigo uma cruz ao pescoço, e o pai partilha o dia de aniversário com o de Joseph Ratzinger.

«Lembro-me de que quando ele foi entrevistado, mesmo enquanto cardeal, não falou de religião, mas de espiritualidade, foi abrangente de maneira tão simples e falou para todos.» «Isso é o que um papa deve fazer, comunicar com todos», frisou o escultor.

Aos olhos do artista, a renúncia de Bento XVI «tornou-o ainda mais humano» e empático, algo que ele desejava refletir no seu trabalho, que espera vir a servir como testamento desse momento histórico.

Ele descreve a escultura como «uma celebração do corpo», algo que todos os seres humanos têm.

Um aspeto surpreendente da escultura em mármore são os olhos do papa, que parecem seguir o espetador de todos os pontos de vista. Inicialmente a estátua não tinha olhos, uma evocação do escultor italiano Adolfo Wildt, que, como nas estátuas de bronze clássicas, optou por não colocar os olhos nas suas obras.

Só depois de Bento XVI ter renunciado, Jago decidiu dar vista à estátua. Pintou no interior de semi-esferas invertidas, resultando na ilusão inesperada de que o olhar de Bento XVI segue os espectadores ao redor da sala.

Jago referenciou um jovem seu conhecido que sofre esclerose múltipla, doença degenerativa que afeta progressivamente o movimento, observando que as últimas partes do corpo que ainda se podem mover são os olhos.

«Esse é o elemento final e mais importante que permite reconhecer que uma pessoa está viva. Que ela está lá», salientou.

Do mesmo modo, acentua o escultor, os olhos mostram que Bento XVI «está lá naquele momento. Está lá, está presente. É uma estátua viva».

Com 240 mil seguidores no Facebook, Jago é considerado um “artista social", que frequentemente publica fotos e vídeos na sua página. Um desses filmes é a história da criação e "descascamento" do busto de Bento, que foi visto mais de 15 milhões de vezes.

Para o artista, o pontífice tem um papel importante na promoção da beleza, e atualmente «é o momento certo para trazer de volta algo do que estamos a perder».

«Olhando para Roma, vivemos num momento de conservação total [da arte]. Mas o que é que estamos a acrescentar?», questiona. «Antes os papas, apesar das críticas ao seu nepotismo etc., eram pessoas preocupadas com a criação de beleza. Essas coisas de que hoje estamos orgulhosos.»

Jago anseia que os papas voltem a esse papel crucial, embora reconheça a importância de manterem uma imagem de humildade. Quando lhe perguntamos se faria um retrato do papa Francisco, responde: «Por que não? Claro».

Mas o artista também disse que iria impor três condições fundamentais: que seja encomendado pelo Vaticano, que seja sinceramente desejado e, acima de tudo, que possa ser autorizado a fazer o que quiser.

Os papas têm a experiência de longa data de lidar com artistas caprichosos, de Miguel Ângelo a Caravaggio, mas a história também sugere que, muitas vezes, a recompensa pelas dores de cabeça que colocam vale bem a pena.



 

Claire Giangravè
In Crux
Trad.: SNPC
Imagem: D.R.
Publicado em 21.02.2018

 

 
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