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Bíblia: As origens da dor e violência no casal

Imagem Casal com a cabeça cheia de nuvens | Salvador Dali | 1936 | D.R.

Bíblia: As origens da dor e violência no casal

Os capítulos 2 e 3 do livro do Génesis são semelhantes a um díptico assinalado por duas tonalidades opostas. De um lado há a luz que inunda o cap. 2, onde o protagonista, “Ha-‘adam”, em hebraico, “o Homem” de todos os tempos, isto é, a humanidade, vive em diálogo harmonioso com o seu Deus, com o seu semelhante, a mulher, e com os animais e a matéria.

Do outro lado, no cap. 3, irrompe a treva: com a sua liberdade, o Homem quer construir um projeto alternativo, que se revela desastroso. É o que habitualmente chamamos «o pecado original». Esta demolição do projeto inicial divino é representada segundo o esquema do juízo divino que condena a escolha humana alternativa. As frases que Deus pronuncia, na verdade, querem mostrar, e não impor, aquilo que permanece da harmonia precedente após o pecado, isto é, um monte de ruínas.

Assim, o Homem afasta-se de Deus, expulso do horizonte paradisíaco da comunhão com Ele; infringe o laço com a terra, que parece rebelar-se contra a sua tirania, e sobretudo interrompe-se o vínculo de amor do casal, sinal da história de violência que pelos séculos permeará a existência humana. É sobre este último aspeto que nos deteremos.

Sob a forma de uma sentença divina descreve-se o que, com o pecado, sucede nas relações entre homem e mulher: «À mulher [o Senhor] disse: aumentarei os sofrimentos da tua gravidez, entre dores darás à luz os filhos. Procurarás apaixonadamente o teu marido, mas ele te dominará» (3, 16). Para mostrar que a harmonia do casal está agora quebrada, o autor sagrado recorre a dois sinais simbólicos.

O primeiro é o parto, visto na Bíblia como expressão da bênção divina. Um antigo provérbio berbere afirma: «Se uma mulher tem um filho no ventre, o seu corpo é como uma tenda quando sopra o vento no deserto, o “ghibli”, é como o oásis para o sedento, como o templo para quem quer rezar». O parto é, todavia, acompanhado por dores atrozes, símbolo do sofrimento mais lacerante (veja-se Isaías 26, 17).

A Bíblia interpreta estas dores, por si naturais, como o sinal da desarmonia entre homem e mulher na sua relação de casal, na sexualidade, no amor e, sobretudo, no momento mais alto e mais belo, o da geração. Não é, portanto, que se veja o parto como uma punição, nem que se queira proibir a técnica do parto indolor. É apenas uma imagem para representar a insinuação do mal também na realidade tão gloriosa do matrimónio.

O outro sinal de transgressão da harmonia diz respeito à relação de casal. Antes do pecado era representada como comunhão, no ser «uma só carne». Agora, a pulsão que rege a atração sexual é acompanhada por uma possessão brutal. O verbo hebraico para indicar o «domínio» do homem sobre a mulher é aquele que se refere ao rei, ao poderoso, ao tirano. Delineia-se assim a infame sequência de violências sexuais que, de formas subtis ou vulgares, refinadas ou macabras, continuam a perpetrar-se nos nossos dias e mancham de sangue toda a história do casal.

 

Card. Gianfranco Ravasi
Presidente do Pontifício Conselho da Cultura
In "Famiglia Cristiana"
Trad. / edição: Rui Jorge Martins
Publicado em 16.12.2014

 

 
Imagem Casal com a cabeça cheia de nuvens | Salvador Dali | 1936 | D.R.
A Bíblia interpreta as dores do parto, por si naturais, como o sinal da desarmonia entre homem e mulher na sua relação de casal, na sexualidade, no amor e, sobretudo, no momento mais alto e mais belo, o da geração
O outro sinal de transgressão da harmonia diz respeito à relação de casal. Antes do pecado era representada como comunhão, no ser «uma só carne». Agora, a pulsão que rege a atração sexual é acompanhada por uma possessão brutal
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