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Bíblia e música: O "livro dos livros" é um canto contínuo

Bíblia e música: O "livro dos livros" é um canto contínuo

Imagem "Anjos músicos" (det.) | Hans Memling | C. 1480

Elie Wiesel, prémio Nobel da paz em 1986, falecido o ano passado, desempoeirou num livro da sua autoria uma sugestiva alegoria judaica. Quando Jacob, em fuga de Esaú, o irmão enganado, chegou a Betel, segundo a Bíblia (Génesis 28, 10-29), teve uma visão: uma escada assentava na terra enquanto que o topo alcançava o céu; e os anjos de Deus subiam e desciam nela». Pois bem, continuava a parábola, no fim os anjos esqueceram-se de retirar a escada, que permaneceu plantada na terra. E assim tornou-se a escala musical cujas notas angélicas permitem ainda agora a Deus descer e falar-nos, e a nós ascender ao céu para o alcançar.

Este laço entre música e fé tornou-se uma constante para a experiência artística e religiosa. É emblemático o facto de Bach colocar no cimo das suas composições a sigla "J.J.", isto é, "Jesu Juva", «Jesus, ajuda!», e a selasse com outra sigla, "S.D.G.", esse "Soli Deo Gloria" que exprimia a sua convicção de que a glória só a Deus toca. A sua era uma simbiose substancial entre fé e música, entre louvor e canto, entre mística e técnica compositiva. É por isso que o escritor agnóstico pessimista franco-romeno Emil M. Cioran, na sua obra "Lágrimas e santos", não hesitava em escrever: «Quando escutais Bach, vedes nascer Deus (...). Depois de uma oratória, uma cantata ou uma Paixão, Deus deve existir (...). E pensar que tantos teólogos e filósofos desperdiçaram noites e dias a procurar provas da existência de Deus, esquecendo a única!». Nós contentar-nos-emos, agora, em traçar apenas um perfil simbólico da presença da música nesse "grande códice" da nossa cultura ocidental que é constituído pelas Sagradas Escrituras do Antigo e do Novo Testamento.



É sugestiva esta ideia de uma música silenciosa para a qual é necessário abrir uma sintonia particular ou canal de escuta. A música, para a Bíblia, embebe também toda a história humana, exaltando-a e revelando-lhe os traços divinos



No interior da Bíblia há, com efeito, uma espécie de fio musical que acompanha toda a história do ser e da humanidade. Trata-se, contudo, de uma aproximação eminentemente teológica. A música tem o propósito de nos fazer reencontrar uma harmonia secreta e religiosa subjacente a toda a realidade, inclusive aquela que pode aparecer "dissonante" ou "absurda" (isto é, "surda"). A própria criação é confiada não a uma teomaquia, isto é, luta intradivina, como acontece nas várias cosmologias do antigo Próximo Oriente, mas a um acontecimento sonoro: «No princípio (...) Deus disse: seja a luz! E a luz foi» (Génesis 1, 1-3). «No princípio era a Palavra (...). Tudo foi feito por meio dela e sem ela nada foi feito do que existe» (João 1, 1.3).

Num esplêndido passo dos discursos finais de Deus que selam o livro de Job, o Criador é retratado no ato de colocar a pedra de fundação do cosmo, enquanto «as estrelas da manhã cantavam em coro e todos os filhos de Deus [isto é, os anjos] diziam a grande voz a sua glória» (Job 38, 6-7). É por isso que a própria criação é concebida quase como se fosse uma musica cristalizada, que ininterruptamente está disponível à escuta humana: «Os céus narram a glória de Deus, o firmamento proclama a obra das suas mãos (...), sem discursos e sem palavras, sem que se ouça algum som. E todavia a sua voz expande-se por toda a Terra, até aos confins do mundo a sua Palavra» (Salmo 19, 2-5). Comentava S. João Crisóstomo (séc. IV): «Este aparente silêncio dos céus é uma voz mais ressoante que uma corneta: esta voz canta não aos nossos ouvidos mas aos nossos olhos a grandeza de quem nos criou».



Fundamental é o laço entre música e liturgia. Basta apenas percorrer os títulos antigos antepostos aos Salmos com a evocação das melodias sobre as quais os entoar e muitas vezes com a citação dos instrumentos destinados a acompanhá-los.



É sugestiva esta ideia de uma música silenciosa para a qual é necessário abrir uma sintonia particular ou canal de escuta. A música, para a Bíblia, embebe também toda a história humana, exaltando-a e revelando-lhe os traços divinos. A sua é portanto uma função teofânica, ou seja, revela a presença de salvação ou de juízo de Deus no interior da vicissitudes humanas. Deparamo-nos, então, com uma longa série de cantos de guerra cujo objetivo é mostrar a ação do Deus libertador: pense-se, por exemplo, no hino de Moisés durante a travessia do mar Vermelho (Êxodo 15) ou no cântico final do livro de Judite (capítulo 15), ambos acompanhados da evocação de instrumentos musicais. Há, depois, os cantos fúnebres, como essa obra-prima literária que é a elegia de David pela morte de Saul e Jónatas, «lamento a ensinar aos filhos de Judá» (2 Samuel 1, 17-27). Naturalmente também o amor gera música, dança e canto; muitos são, por isso, os cânticos nupciais: «Tu és para eles», diz o Senhor ao profeta Ezequiel, «como uma canção de amor: bela é a voz e agradável é o acompanhamento musical» (33, 32). A mulher do Cântico dos Cânticos é retratada no meio de uma dança rodopiante, marcada pelo ritmo: «Volta-te, volta-te, Sulamita, volta-te para te podermos admirar! Que admirais na Sulamita durante a dança dos dois tempos?» (7, 1-2). Também o trabalho tem as suas canções. Extraordinária é a do vinhateiro proposta por Isaías (5, 1-7): «Cantarei para o meu amado a minha canção de amor pela sua vinha».

Ezequiel, por seu lado, propõe até um canto dos cozinheiros (24, 3-12). Todo o quotidiano é atravessado pela música que consegue transfigurar inclusive os atos e os gestos mais simples. Encontra-se também uma melancólica canção da velha prostituta: «Pega na cítara, percorre a cidade, prostituta esquecida; toca com perfeição, multiplica os teus cantos, para que alguém se lembre de ti» (Isaías 23, 26). Fundamental, porém, é o laço entre música e liturgia. Basta apenas percorrer os títulos antigos antepostos aos Salmos com a evocação das melodias sobre as quais os entoar e muitas vezes com a citação dos instrumentos destinados a acompanhá-los. O Salmo 150 elenca com minúcia a orgânica da orquestra do templo de Sião: corno, harpa, cítara, tímpano, cordas, flautas, címbalos, a que se juntam as danças, e o termo "neshamah" pode aludir ao "respiro" mas, provavelmente, significa "tudo o que respira", imaginando assim uma espécie de canto cósmico dos viventes que se associa àquele entoado no templo.



A própria meta última da história, simbolicamente representada na nova Jerusalém, será marcada pela música. Significativa a este respeito é a trama do livro do Apocalipse, que é uma verdadeira e própria nova criação musical para solos, coro e orquestra



O apelo do salmista é, em todo o caso, preciso também ao indicar a qualidade estética do canto litúrgico: «Cantai hinos com arte!» (Salmo 47, 8). O cristiamismo recolhe este convite: pense-se apenas no infindável "paratexto" musical que se entreteceu pelos séculos no Ocidente em torno dos Salmos e de outros cânticos bíblicos, como o "Magnificat" ou o "Benedictus". Mas já S. Paulo assim advertia os colossenses: «A palavra de Cristo habite entre vós abundantemente: ensinai-vos e admoestai-vos com toda a sabedoria, cantando a Deus de coração e com gratidão salmos, hinos e cânticos inspirados» (3, 16-17). Exortação reiterada aos efésios: «Sede repletos do Espírito, entre vós cantai salmos, hinos, cânticos espirituais, cantando e entoando almos ao Senhor com todo o vosso coração» (5, 18-19). A própria meta última da história, simbolicamente representada na nova Jerusalém, será marcada pela música. Significativa a este respeito é a trama do livro do Apocalipse, que é uma verdadeira e própria nova criação musical para solos, coro e orquestra: basta somente evocar o grandioso concerto das sete trombetas que ressoam nos capítulos 7-8 e 11, 14-19, ou os coros que estrelam quase cada página da obra, tornando-a semelhante a uma partitura musical.

É por isso que o calar do canto é visto como um emblema do juízo. Quando na Babilónia imperial passar a tempestade da condenação divina, «a melodia das cítaras e dos músicos, das flautas e das trombetas nunca mais se ouvirá dentro de ti (...). As vozes do noivo e da noiva nunca mais se ouvirão dentro de ti» (Apocalipse 18, 22). Mas já no Antigo Testamento a opressão não podia senão ser confiada ao silêncio, como diz o extraordinário e trágico Salmo 137: «Junto aos rios da Babilónia nos sentámos a chorar, recordando-nos de Sião. Nos salgueiros das suas margens pendurámos as nossas harpas. Os que nos levaram para ali cativos pediam-nos um cântico; e os nossos opressores, uma canção de alegria: "Cantai-nos um cântico de Sião". Como poderíamos nós cantar um cântico do Senhor, estando numa terra estranha?». Cassiodoro, escritor cristão do séc. IV, advertia: «Se continuarmos a cometer injustiça, Deus deixar-nos-á sem música». Também para a Bíblia o silêncio ou o rumor são sinal de maldição. É por isso que o fio da música acompanha toda a existência, iluminando-a. A fé, por isso, deveria ser harmonia e canto, como se repete ininterruptamente no Saltério (Salmos 33,3; 92, 2.4; 147,1; 149,3): «Cantai ao Senhor um canto novo, tocai com arte e com ovações... Belo é louvar o Senhor e exaltar o teu nome, Altíssimo, com a harpa a dez cordas, com a lira e com cantos acompanhados da cítara... Quanto é belo exaltar o nosso Deus, quanto é fascinante tributar-lhe o louvor!».



 

Card. Gianfranco Ravasi
Presidente do Conselho Pontifício da Cultura, biblista
In: "Avvenire"
Trad.: SNPC
Publicado em 05.03.2017

 

 
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