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Bíblia e cultura: Um velho e um jovem

Bíblia e cultura: Um velho e um jovem

Imagem Eli e Samuel (det.) | John Singleton Copley | 1780

«Os jovens têm a memória curta e têm os olhos para ver apenas a nascente; e a poente só vemos os velhos, aqueles que viram nascer o sol muitas vezes.» É o italiano Giovanni Verga que representa com vivacidade os dois olhares dos jovens e dos anciãos. Muitas vezes na Bíblia são postas em confronto as duas gerações e não raro a desfavor da juvenil, sendo a cultura de então tendencialmente patriarcal, com o domínio do ancião considerado como o emblema da sabedoria (mas teremos ocasião de demonstrar que este dado não é incontroverso).

Um velho sacerdote do santuário de Silo, em Israel, e um jovem são os protagonistas da cena que queremos agora evocar. É noite profunda. O rapaz está a dormir num quarto adjacente ao templo. De repente uma voz sacode-o: «Samuel!». Ele desperta e responde: «Eis-me aqui!», e corre para o ancião sacerdote Eli, responsável daquele santuário. Este, surpreendido, reenvia o jovem para o leito: «Não te chamei, volta a dormir!». O acontecimento volta a suceder mais duas vezes, despertando Samuel sempre de sobressalto com um chamamento imperioso.

É neste momento que o velho Eli revela a sua sabedoria de guia e de mestre: «Se te chamar de novo, dirás: Fala, Senhor, que o teu servo te escuta». E à quarta vez que ressoa aquele apelo, o jovem recebe da voz divina a sua vocação profética. A quem ler o capítulo 3 do Primeiro Livro de Samuel surgirá claramente a verdade da frase de Giovanni Verga: Eli é passado, destinado ao ocaso até porque os seus filhos, herdeiros do sacerdócio, são corruptos e incarnam uma fase que o Senhor quer encerrar; Samuel é, ao contrário, o futuro, o dia que está por surgir.

Com esta sua vocação iniciará a missão profética de Samuel, que terá consequências também políticas porque será ele, ainda que renitente, a avalizar a passagem institucional povo judeu da forma tribal à nação unitária sob a monarquia, antes de Saul e de David. Daquele momento em diante os papéis invertem-se: até então Samuel tinha estado às ordens de Eli, correndo para ele para escutar os seus conselhos; doravante será ele a conduzir os destinos de Eli, da sua família e de toda a comunidade. Com efeito, «Samuel cresceu e o Senhor estava com ele, não deixou cair num vazio uma só das suas palavras».

Inverte-se, assim, a conceção tradicional do primado do ancião, cuja idade não é necessariamente e sempre indício de sabedoria e de guia. É significativa a frase que um velho sábio bíblico, Qohélet, nos deixou sobre o tema: «Vale mais um jovem pobre, mas sábio, do que um rei velho, mas insensato, que já não sabe aceitar conselhos» (4, 13). Também a literatura de todos os tempos refletiu muitas vezes sobre a relação entre jovens e velhos. Citamos apenas um dos "Aforismos sobre a sabedoria de viver" (1851), do filósofo alemão Arthur Schopenhauer: «Vista pelos jovens a vida é um futuro infinitamente longo; vista pelos velhos é um passado muito breve». Há, no entanto, uma outra verdade bem expressa por outro alemão, o grande Goethe: «Ser jovem é um efeito acidental e dispersa-se como neblina. Permanecer jovem é muito mais, é uma arte de poucos».



 

Card. Gianfranco Ravasi
In "Famiglia Cristiana"
Trad.: Rui Jorge Martins
Publicado em 09.01.2017

 

 
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