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Bem comum, património esquecido

Há uma expressão que pertence ao património herdado enquanto sociedade civil, mas que hoje está esquecida, quando não é até contestada: o “bem comum”. Estamos todos conscientes de que a nossa sociedade ocidental atravessa há alguns anos uma crise. “Crise” é uma das palavras mais tentaculares que existem no vocabulário: vem de “krisis”, passar pelo crivo, e indica separação, juízo.

Nos nossos dias, a aplicação deste conceito a um corpo social, à polis, à sociedade, indica uma situação de debilitação, de descrescimento, de decadência. Estamos numa situação de crise, mas temos de dizer antes de tudo que a nossa crise é social, cultural, ética, antropológica e, portanto, é também política e económica.

Política porque ela é asténica, débil e também afónica: paradoxalmente “grita” com voz forte porque não tem nada a dizer em verdade; democrática porque vemos aqui e ali aflorar tentativas de manobras de tirania compatíveis com a atual estrutura democrática; social porque já não se é capaz de uma orientação comum para a sociedade; legal porque a ilegalidade parece prevalecer cada vez mais; moral porque faltam os princípios de justiça e igualdade. E, por fim, obviamente crise financeira e económica, padecida por muitas pessoas.



Hoje vemos como é dominante a conceção individualista e utilitarista da sociedade e pensamos que a organização da cidade tem de garantir aos seus membros os direitos individuais, mas deste modo reduzimos o interesse geral à simples soma dos interesses individuais e negligenciamos o bem comum



Perante esta situação – que as próprias “agências formativas” como a escola e a Igreja não souberam até agora enfrentar com eficácia – emerge a necessidade de uma contratendência que se pode apenas exprimir numa procura do bem comum.

Bem comum, expressão composta por duas palavras, é um conceito essencial para a convivência, para a qualidade de vida na polis. “Bem” indica aquilo que nós queremos e aquilo que auguramos às pessoas a que estamos ligados: o bem (“bonum”) é quanto os homens e mulheres desejamos para viver em plenitude. Bem comum não é simplesmente um património comum, alguma coisa de material possuído em conjunto, mas é o conjunto das condições de vida que favorecem o “bem-estar”, a humanização de todos: bem comum são também a cultura, a democracia, a arte… O destinatário natural do bem comum não é, então, o indivíduo, mas a pessoa na sua unicidade e inteireza.

A sociedade é antecedente ao indivíduo, como a unidade do corpo é antecedente aos membros que o compõem: por isso o bem de cada um precisa do bem comum que o precede e que lhe permite definir-se. Hoje vemos como é dominante a conceção individualista e utilitarista da sociedade e pensamos que a organização da cidade tem de garantir aos seus membros os direitos individuais, mas deste modo reduzimos o interesse geral à simples soma dos interesses individuais e negligenciamos o bem comum.



É preciso regressarmos, todos juntos – independentemente do credo, mas considerando como tesouro as riquezas que ele encerra – à procura do bem comum, até porque as ciências humanas atestam, cada vez mais, que viver é estar entre os seres humanos, viver as relações humanas é o que nos humaniza



Será verdade que a economia é o fundamento da sociedade e que o útil é a sua única razão de ser? Será verdade que cada um tenha de perseguir o próprio interesse e que ninguém possa intervir e perturbar o jogo? A vida boa diz respeito apenas à vida privada dos indivíduos ou os direitos individuais devem ser temperados com os direitos dos outros, na procura do bem comum? É por isso que a vida boa não pode ser ditada só pela economia e pela capacidade de consumo.

Trata-se de um âmbito no qual assistimos desde há tempos a uma triste afonia dos cristãos na vida política, quase como que a dimensão de comunhão própria dos discípulos de Jesus não fosse capaz de oferecer um contributo valorizador específico na associação dos seres humanos. E todavia, na atual crise a nível ocidental, é preciso regressarmos, todos juntos – independentemente do credo, mas considerando como tesouro as riquezas que ele encerra – à procura do bem comum, até porque as ciências humanas atestam, cada vez mais, que “viver é ‘inter homines esse’”: estar entre os seres humanos, viver as relações humanas é o que nos humaniza, mas é também a primeira forma do bem que os seres humanos conhecem, um bem “comum”.

Sem ecossistema relacional, comunitário, político, não pode haver caminho de humanização, mas apenas o perseguir interesses individuais e egoísmos competitivos que conduzem à injustiça, desigualdade e, consequentemente, ao conflito, violência, guerra. É isto que queremos, como cristãos?


 

Enzo Bianchi
In Monastero di Bose
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: D.R.
Publicado em 07.08.2018

 

 
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