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Bach, a negação de Pedro e o desenho

Bach, a negação de Pedro e o desenho



Disse-lhe a porteira: «Tu não és um dos discípulos desse homem?» Ele respondeu: «Não sou.» (Jo 18, 17)

Entretanto, Simão Pedro estava de pé a aquecer-se. Disseram-lhe, então: «Não és tu também um dos seus discípulos?» Ele negou, dizendo: «Não sou.» Mas um dos servos do Sumo Sacerdote, parente daquele a quem Pedro cortara a orelha, disse-lhe: «Não te vi eu no horto com Ele?» Pedro negou Jesus de novo; e nesse instante cantou um galo. (Jo 18, 25-27)

Pode a paixão que Bach musicou ajudar-nos a entender as três negações de Pedro?



Imagem © Mário Linhares

Ouvi-la de seguida ajuda-nos a entrar numa outra dimensão, aquela que nos envolve não a 360 graus, mas de forma total, esférica, de todos os lados. É assim com o som e, acredito eu, ainda mais com as melodias sábias dos mestres. Ouvir Bach pode ser, para muitos de nós, uma experiência comum, mas a Paixão segundo S. Mateus toda de uma assentada, procurando mergulhar nas diferentes intensidades do coro, na beleza do tenor ou na força do narrador é deixarmo-nos ir para um território desconhecido…

Só podemos negar o que, no passado, não sentimos verdadeiramente. Pedro chega a dizer a Jesus que ele «é o Messias, o filho do Deus vivo». Resposta certa mas apenas racional, ainda sem a prova da dureza da vida. É a negação do que tomamos por seguro, que nos coloca em terrenos movediços. Cai-nos tudo, agitam-se os alicerces, ficamos à porta, na esperança de não sermos vistos, como uma criança que sabe que fez uma asneira. E é este desarrumar do passado que permite mergulhar a sério na vida que queremos viver.



Imagem © Mário Linhares

Acredito que a negação de Pedro lhe tenha feito sobressaltar o coração ao ponto de ponderar seriamente tudo o que tinha vivido com Jesus. A falta de coragem, o medo de morrer ou apenas o desconhecimento do que estava para acontecer amarraram-lhe o discernimento no momento de falar. Mas talvez tenha sido essa cobardia que o levou à transcendência, a uma mudança profunda no seu projeto de vida.

Em desenho, esta reflexão levou-me a procurar territórios de registo nunca antes experimentados. O que se toma por seguro ficou na gaveta, procurando o erro, a negação, a novidade. A linha preta e a aguarela não tiveram direitos. Desenhar com tinta da china e uma trincha foi como desenhar ao cantar do galo, sinal de novo dia, novo amanhecer, novas descobertas, com outras metodologias, outra intuição, outro coração…



Imagem © Mário Linhares

 

Mário Linhares
Publicado em 23.04.2016

 

 
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