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Avaliar e discernir na sinodalidade

Há 50 anos, no mundo ocidental, aconteceu uma revolução que os observadores mais inteligentes sintetizaram, significativamente, numa só expressão: «la prise de la parole», o direito a tomar a palavra. Jovens, sobretudo universitários, mulheres de toda a condição, minorias até então ocultadas e negadas, sentiram-se como que impelidos por um vento forte a tomar a palavra, a eles longamente negada. Em todos os lados emergia a convicção, também graças ao acesso ao mundo universitário da parte das classes menos abastadas e à proliferação de instrumentos expressivos, que todos, homens e mulheres, deviam ter a possibilidade de tomar a palavra. Todos possuíam a mesma dignidade humana de cidadãos e tinham o direito de se exprimir livremente, em alta voz, na sociedade. Debates, discussões, manifestações por vezes selvagens e, inclusive, tumultuosas, surgiam como um protesto que pedia para ser acolhido.

Também na Igreja, aqui e ali, os denominados grupos espontâneos, algumas comunidades reunidas em torno de padres carismáticos e, mais tarde, as comunidades de base, nasciam e espalhavam-se em nome dessa necessidade: fazer ouvir a própria voz, tomar a palavra, em particular naquela que é a epifania-manifestação da Igreja entre o povo, ou seja, a liturgia eucarística dominical. Foi um tempo de traços ambíguos, por vezes não conformes à eclesialidade, que todavia não marcou apenas aquela geração, mas transmitiu também às novas gerações em toda a Igreja o desejo da tomada da palavra.

Hoje a linguagem mudou, as próprias expressões já não são contestatárias e reivindicativas, mas continuam a procurar-se caminhos e maneiras de «dar a palavra» por parte dos pastores, e de tomar a palavra da parte do povo de Deus. O advento do papa Francisco é reconhecido como decisivo neste sentido: ele exercita o ministério do sucessor de Pedro como alguém que sabe escutar, dar a palavra e traçar assim um caminho para toda a Igreja, um caminho sinodal marcado por fazer estrada juntos da parte de todos os batizados, «povo de Deus, presbíteros, bispos e papa».



Sim, há um primeiro passo a dar para a sinodalidade, e é a escuta, em primeiro lugar das Sagradas Escrituras proclamadas na Igreja. Este é o grande compromisso eclesial: exercitar-se na escuta da Palavra



Pessoalmente, continuo convicto de que se farão reformas mais ou menos adequadas, que haverá disciplinas maioritariamente marcadas pela liberdade dos filhos de Deus e pela misericórdia, mas o que é decisivo e a instância da conversão pastoral de uma Igreja que se torna o lugar da palavra: da Palavra de Deus, que ressoa límpida no Evangelho, da palavra humana, que exprime a fé e sabe dar conta da esperança que é Cristo. O que pede – podemos dizer – o Espírito às Igrejas?

Antes de tudo, como sempre, pede que a Igreja seja gerada pela escuta, nasça através através da escuta e viva da escuta. Aliás, este é o caminho traçado pelo concílio Vaticano II [1962-1965], do qual Francisco é apenas intérprete criativo: «O caminho da sinodalidade é o caminho que Deus espera da Igreja do terceiro milénio», vincou o papa, bem consciente que a sinodalidade é o estilo próprio de uma Igreja da escuta, «escuta conduzida a todos os níveis da vida da Igreja, (…) Igreja da escuta, na consciência de que escutar é mais do que ouvir» (17.10.2015).

Sim, há um primeiro passo a dar para a sinodalidade, e é a escuta, em primeiro lugar das Sagradas Escrituras proclamadas na Igreja. Este é o grande compromisso eclesial: exercitar-se na escuta da Palavra na qual se manifesta a possibilidade do conhecimento de Deus e da sua vontade. Primado, hegemonia, centralidade do Evangelho significa precisamente isto: o que a Palavra diz é normativo. Pode certamente ocorrer o conflito da interpretação, como aconteceu no início da Igreja e ao longo dos séculos, mas precisamente graças a uma escuta não individual mas eclesial, sinfónica, o Evangelho pode ressoar em verdade, força e clareza. É o grande exercício do escutar em conjunto, numa Igreja que se reconhece antes de tudo «fraternidade» (“adelphótes”, este o nome da Igreja em 1 Pedro 2, 17 e 5, 9), convocada pelo único Pai e Senhor.



A escuta dos sinais dos lugares deve ser praticada também na convicção de que, quando a Igreja chega a uma terra, a um povo, encontra já presente o Espírito a agir nessa cultura e nessa língua



Mas a escuta da Palavra é sempre, simultaneamente, escuta dos sinais dos tempos e dos lugares. Escuta da Palavra de Deus e escuta daquilo que os homens e mulheres vivem hoje, caminham a par, porque a interpretação orienta a ação, mas a ação verifica e traduz a interpretação. Já a constituição conciliar “Gaudium et spes” pedia «o discernimento dos sinais dos tempos à luz do Evangelho» (cf. § 4) como exercício essencial da Igreja para estar na história, na companhia dos seres humanos, com um significado próprio, mas também para saber responder às esperanças e expetativas da humanidade concreta e contemporânea. O povo de Deus deve reconhecer-se a si próprio sob a orientação do Espírito Santo que habita o universo e a história, e que pede para ser reconhecido (operação de discernimento) em acontecimentos e exigências que se manifestam também com ambiguidade e contradições, mas nos quais está o sinal da mão de Deus, pastor da história. A escuta dos sinais dos lugares deve ser praticada também na convicção de que, quando a Igreja chega a uma terra, a um povo, encontra já presente o Espírito a agir nessa cultura e nessa língua, encontra presente uma confiança que pede apenas para emergir como fé.

Finalmente, na igreja impõe-se a escuta do povo de Deus. O povo da Igreja é profético, portador de uma palavra da parte do Senhor, dotado «da unção que o torna infalível “in credendo”, (…) de um instinto da fé – o “sensus fidei” – que o ajuda a discernir aquilo que vem realmente de Deus» (“Evangelii gaudium”, 119). É o povo que deve interpretar «o que o Espírito diz às Igrejas» (cf. Apocalipse 2,7.11.17.29; 3,6.13.22) e não comunica apenas ao anjo que preside a cada uma; por isso deve ser interrogado e escutado, sempre afirmando a diversidade dos carismas, a diferença da autoridade entre os vários ministérios.

Na tradição cristã do primeiro milénio ressoava o adágio do códice justiniano: «Quod omnes tangit, ab omnibus tractari et approbari debet», «o que diz respeito a todos, por todos deve ser discutido e aprovado». É um princípio forjado pela grande tradição cristã, não por acaso retomado pelo concílio Vaticano II (cf. “Lúmen gentium”; 12) e sublinhado pelo papa Francisco (cf. discurso de 17.10.2015). Como na assembleia de Jerusalém descrita pelos Atos dos Apóstolos no capítulo 15, a escuta na Igreja deve ser recíproca: cada um escuta o outro e todos juntos comprometem-se na interpretação das posições, inclusive no conflito, mas sempre na procura comum da verdade. Trata-se de «avaliar e discernir em conjunto» através de uma argumentação séria e sinfónica. Nenhum medo dos conflitos, já presentes na Igreja dos apóstolos, mas o importante é a vontade de atravessar o conflito na caridade, procurando sempre salvaguardar a comunhão, na humildade de se reconhecer a si próprio em falta no que respeita à verdade que nunca se possui mas sempre se procura, porque a todos nos precede.



A verdade, a boa decisão manifesta-se quando há confronto, escuta recíproca, discussão comum, vontade de comunhão e sobretudo de obediência à Palavra de Deus



Do confronto, debate e escuta recíproca deve chegar-se não a decisões prematuras, que criam vencedores e vencidos; devem-se encontrar também decisões provisórias a reconsiderar mais tarde, mediante nova discussão, aceitando que com o tempo as realidades amadurecem, tornam-se mais precisas e são mais participadas. No segundo concílio de Constantinopla (553) exprimiu-se um cânone importante: «Quando problemas que devem ser tratados por duas partes são postos à discussão comunitária, então a luz da verdade expulsa as trevas. Porque na discussão comunitária na fé, a verdade não pode manifestar-se de outro modo, uma vez que cada um precisa da ajuda do seu próximo». Sim, a verdade, a boa decisão manifesta-se quando há confronto, escuta recíproca, discussão comum, vontade de comunhão e sobretudo de obediência à Palavra de Deus.

Eis, então, como se pode chegar à deliberação, isto é, a uma decisão que se expressa a partir de todas as condições preliminares necessárias. Certamente que só o olho profético da Igreja pode dizer: «Pareceu bem ao Espírito Santo e a nós» (Atos 15, 28), mas pode chegar a dizê-lo. Há uma oração antiga (dita “Adsumus”, do seu início) prevista para o início e o final de uma assembleia sinodal, que é muito rica e inspiradora: relê-la e rezá-la é uma ajuda para percorrer o caminho da sinodalidade, do discernimento comunitário, da autêntica escuta eclesial.

«Estamos aqui, diante de ti, ó Espírito Santo Senhor;
estamos aqui oprimidos pel enormidade do nosso pecado
mas reunidos de modo especial no teu nome.
Vem a nós e fica connosco; digna-te penetrar nos nossos corações.
Ensina-nos o que devemos fazer,
indica-nos o caminho a seguir,
e mostra-nos como operar
para que com a tua ajuda possamos agradar-te em tudo.
Sejas apenas Tu a sugerir e a levar ao cumprimento as nossas decisões,
porque só Tu, com Deus Pai e com o seu Filho,
tens um nome santo e glorioso.

Não permitas que por nós seja lesada a justiça,
Tu que amas a perfeita equidade.
Não nos faça desviar a ignorância,
não nos torne parciais a humana simpatia,
não nos influenciem cargos ou pessoas.
Tem-nos apertados a ti com o dom da tua graça,
para que sejamos um só coisa em ti
e em nada nos desviemos da verdade.
Porque reunidos no teu santo nome,
faz com que saibamos praticar a justiça,
temperando-a com a piedade,
de modo que aqui em baixo o nosso juízo nunca se afaste do teu,
e um dia nos seja dado,
pelas nossas responsabilidades bem cumpridas,
o prémio eterno.
Ámen.»



 

Enzo Bianchi
In Monastero di Bose
Trad. / edição: SNPC
Imagem: D.R.
Publicado em 06.03.2018

 

 
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