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As muitas Nezanet de sempre, cruzes vivas entre as guerras

Imagem Alepo, Sìria | © Reuters

As muitas Nezanet de sempre, cruzes vivas entre as guerras

Nezanet tinha 12 anos e dois olhos grandes cheios de medo. Que te olhavam mudos, perguntando-te: «Porquê?». Tinham-na deposta sobre a barriga, de braços abertos, como uma cruz. Deitada sobre uma cama, que por sombra tinha a ramagem de uma acácia espinhosa, no quente vale de Orota. Uma terra perdida algures na Eritreia, que escondia hospitais e fábricas organizadas pela guerrilha anti-etíope, camuflados entre as montanhas para fugir aos bombardeamentos.

Nezanet, os braços mantidos fixos pelas ligaduras, de quando em vez podia mexer apenas as delgadas pernas para mandar embora as moscas. Estava nua, Nezanet, só em parte enfaixada por ligaduras imaculadas que diariamente, depois de amareladas pelas pomadas, tinham de ser substituídas. A carne viva precisava de respirar, de ser refrescada da dor que ainda queimava, apesar do pó da savana e dos insetos que volteavam à sua volta.

O seu jovem corpo de criança, das costas quase até aos calcanhares, estava gravemente queimado, e os seus olhos continuavam a rodopiar para te olhar mais intensamente e esperar que tu chegasses àquele lugar, de longe, para a poder aliviar da dor que a fazia tremer.

Um bombardeamento aéreo, conduzido com bombas de napalm, por aviões Mig etíopes - foi-nos contado pelos médicos -, tinha-a surpreendido quando saía de casa para correr ao encontro de um irmão combatente, que voltava da frente para uma breve licença. Nezanet fora queimada em Massaua, cidade junto às cândidas praias do Mar Vermelho. Mas também tinha tido sorte, porque nesse dia morreram muito debaixo das bombas de napalm e de fragmentação que rasgam o corpo de maneira horrenda.

Nezanet, com aqueles seus olhos implorantes, não era mais do que uma "qualquer" vítima da guerra, onde além das armas denominadas convencionais, e portanto autorizadas a matar, eram utilizados, impunemente, também engenhos proibidos pelos tratados internacionais. O nome daquela rapariga, que hoje, se viva e sabe-se lá onde, deverá ter 38 anos, em eritreu era o próprio símbolo da vida: Liberdade.

Kim Phuc tinha nove anos quando, contra sua vontade, se torna em 1972 o grito da guerra no Vietname. Um avião sul-vietnamita lançou bombas de napalm na sua povoação, Trang Bank. A fuga da criança, sem roupa, desintegrada pelo fogo, enquanto gritava «queima, queima», foi imortalizada numa fotografia a preto e branco. A imagem de Kim Phuc, que corria nua, de braços abertos como uma cruz viva, terrivelmente queimada na carne, com as outras crianças aterrorizadas, deu a volta ao mundo e aquele conflito conheceu a indignação da opinião pública e a rápida conclusão.

Naquele dia de há muitos anos, na savana eritreia onde só as hienas eram felizes, Nezanet ficou só com o seu sofrimento. Partimos com os olhos baixos, mas não demasiado para cruzarmos o olhar de um idoso que tinha a sua história para contar. De uma filha, de 15 anos, a quem os médicos de Orota tiveram de amputar as pernas: «Sou velho, mas irei combater. Mengistu levou demasiadas filhas, como a minha menina», disse o ancião.

O homem que mandava bombardear a província, então Eritreia da Etiópia, era o seu chefe de Estado militar Mengistu Haile Mariam. Este homem, que tem às costas uma condenação à morte pelos crimes perpetrados durante o seu regime, vive hoje tranquilo e idoso no exílio dourado de uma gande casa no Zimbabué.

Iémen e Síria, hoje o grito é deles. Homens e mulheres como Nezanet, todos os dias nos gritam: «Porquê?». E ninguém está lá para ouvir, enquanto rebentam engenhos repletos de pregos e cavilhas para massacrar a carne, ou bombas de fósforo, gás de nervos e outros horrores de explosivos fazem chacinas. E tudo, é tão estranho, parece normal.

 

Claudio Monici
In "Avvenire"
Trad.: Rui Jorge Martins
Publicado em 04.10.2016

 

 
Imagem Alepo, Sìria | © Reuters
A fuga da criança, sem roupa, desintegrada pelo fogo, enquanto gritava «queima, queima», foi imortalizada numa fotografia a preto e branco. A imagem de Kim Phuc, que corria nua, de braços abertos como uma cruz viva, terrivelmente queimada na carne, com as outras crianças aterrorizadas, deu a volta ao mundo e aquele conflito conheceu a indignação da opinião pública e a rápida conclusão
Iémen e Síria, hoje o grito é deles. Homens e mulheres como Nezanet, todos os dias nos gritam: «Porquê?». E ninguém está lá para ouvir
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