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As famílias de Cristo

Imagem Cristo a pregar | Rembrandt | C. 1652 | Saint Louis Art Museum, EUA

As famílias de Cristo

Num tempo, sagrado e profano, de interseção da misericórdia com a família, importa meditar acerca da família de Cristo e do papel que a misericórdia nela desempenha.

A primeira constatação que qualquer pessoa minimamente inteligente e honesta faz quando se acerca da figura de Cristo, no respeito – que tem de ser universal por todas as figuras religiosas de semelhante importância, sob pena de necedade ou perversidade – pela narrativa que de sua vida nos chegou, é que Cristo não teve «uma» família, mas várias. O número de famílias de Cristo é mais vasto para o crente do que para o não-crente, pois, para este último, a dimensão transcendente/divina de Cristo não existe.

Assim sendo, para o crente, existe, a par da variedade familiar mundano-histórica de Cristo, a sua primeiríssima pertença familiar, constituída pela própria Santíssima Trindade. Não só esta é a primeira família de Cristo, como é a plenitude do que pode ser e é a família, qualquer família, pois é a absoluta e infinita plenitude do amor, incondicional, sem comércio possível, em pura graça, em pura caridade.

Para o crente, toda a família que seja possível constituir segundo o modo mundano do tempo tem de ter a marca absoluta da Santíssima Trindade, precisamente como dom absoluto de amor, de ato em prol do bem de esse que se ama. É infinito o amor com que o Pai ama o Filho e é infinito o amor com que o Filho ama o Pai. Este amor é tão absolutamente poderoso que se constitui como uma outra pessoa, o Espírito Santo. É esta relação eterna e infinita em ato que constitui a Santíssima Trindade e é por esta ser o absoluto do ato de amor caritativo, isto é, de pura dádiva, que pode ser e é o paradigma de toda a familiaridade.

Se, do ponto de vista do ato divino, uno e trino, nada pode ser dito anterior a coisa alguma, pois nada pode ser anterior ao amor que assim se consubstancia una e triplamente, do ponto de vista do tempo, que é o nosso, é o amor, relação segundo o bem heterológico e heterocêntrico, que é anterior a tudo, a toda a possibilidade: o mito fundador assim o prova – é pelo e apenas pelo ato criador de Deus que o movimento, o tempo e as criaturas que se movem podem ser e são, nas suas relações, nas relações com Deus.

O paradigma de todo o bem possível é o ato criador, isto é, o ato de amor que, do nada relativo de cada coisa, a põe, em absoluto, no ser. Deste modo, é apenas o ato de amor que funda e pode fundar algo de tão subtil como a família.

Tendo querido vir ao tempo, Cristo não o fez de forma a anedotizar o trabalho de Deus, surgindo ex machina, iludindo as necessárias mediações, mas de forma a assumir plenamente a grandeza das criaturas, sem com elas se confundir, senão na matéria, que assume como mediação necessária para que possa com elas conviver como um semelhante não-reduzido, mas, antes, capaz de as promover.

O Filho incarna, ganha carne, e fá-lo através do ventre de uma mulher. Este ato implica que Deus, o Filho, passe a ter uma segunda família: aquela que é dada na forma de Maria e de seu Esposo, José. Incomum incarnação, mas comum carne humana, necessitada de humano calor, de humana proteção, de humano amparo, de humana ordem, de humana histórica cultura, coisa sempre situada, mas, precisamente, porque situada, plenamente humana, pois não há humanidade senão em situação.

Cristo teve uma família humana: saiu da matriz carnal de uma Mulher, bebeu o leite de seus seios, começou a viver no e do seu colo; neste foi velado após a morte, reencontrando o cadáver o colo e o seio amado de onde saiu e se nutriu, num último adeus à fonte carnal de tão grande milagre, assim o santificando uma última vez. Maria, chão sagrado, perfeita Mãe.

Mas José não foi menos perfeito Pai, ainda que adotivo, sobretudo porque adotivo, superando o odioso egoísmo da posse e da estreiteza do «sangue», fazendo em espiritual amor o que a matéria nunca pode, ao educar paternalmente esse que recebeu não como se fora seu filho, mas como seu filho, assim o apropriando. O varão Cristo é educando de José, carpinteiro como ele, homem como ele. Discretamente, José põe nas mãos de Cristo as alfaias de que este necessita para a sua missão e desaparece, como deveria ser sempre o nosso humilde papel e destino, silencioso como a paz.

A Sagrada Família é, na sua dimensão própria, tão perfeita quanto a Família Trinitária. O amor, quando é, é sempre perfeito. Tão perfeito nos seres humanos quanto em Deus, por isso, pode o crente dizer que cada ato de amor é Deus presente na criação. E é a ausência deste amor que é a ausência de Deus, não porque este se afaste, mas porque eu, que posso amar, não amo.

Na Sagrada Família, o amor foi pleno; nela, a marca de Deus era dupla: pela presença de Cristo, pela presença dos atos de amor dos três.

Mas Cristo apropriou várias outras famílias: os discípulos em geral; os apóstolos, diretos e indiretos, como Paulo; a emergente Igreja; todos os que seguem o seu mandamento, isto é, todos os que amam.

No entanto, de um certo ponto de vista, Cristo teve e tem apenas uma família: a comunidade que pratica a misericórdia. A família de Cristo, suas mães, seus pais, seus irmãos, são todos os que se deixam inundar pela misericórdia de Deus na forma dos atos de amor que praticam, sempre que os praticam.

É esta uma família que, do lado da eternidade, é perfeitamente estável, mas, do lado do tempo, sofre constantes variações, tão grandes quanto o constantemente variante quantitativo de misericórdia praticada. O eixo de qualquer família, o seu eterno fulcro é o ato de misericórdia, em que não há senão pessoas que amam, sem condição, sem limite, sem defeção, como Deus se ama trinitariamente.

Não há judeu ou pagão, homem ou mulher, pai ou mãe, irmão ou irmã, antes atos de amor, que, enquanto tais, são criadores, pois possibilitam o bem de esse a quem se ama. O mais é nada.

Quem ama assim é infinitamente mãe, infinitamente pai, infinitamente filho ou filha, infinitamente irmão ou irmã, infinitamente perfeito amante em sua mesma mundana finitude.

Quem é a tua mãe, quem é o teu pai? Esses são o amor.

Segundo o espírito, todos os filhos são meus filhos, todos os irmãos meus irmãos, todos os pais meus pais e todas as mães minhas mães. E o mesmo segundo a carne que é manifestação do espírito, como o provou Santa Teresa de Calcutá, entre muitos outros que se desfizeram em amor em sua espiritual carne.

Segundo a matéria dos cadáveres, que não é carne, mas coisa em putrefação, não sou coisa alguma.

A nós compete-nos ser filhos e pais à medida das famílias de Cristo.

O mais é o lodo da nossa miséria ética e política.

Mas Deus até para com o lodo é misericordioso, permitindo que seja alimento para outras formas de vida.

Deus é misericórdia, família é misericórdia na forma do amor que uns aos outros liturgicamente se oferta.

 

Américo Pereira
Universidade Católica Portuguesa, Faculdade de Ciências Sociais e Humanas
Publicado em 28.02.2016

 

 
Imagem Cristo a pregar | Rembrandt | C. 1652 | Saint Louis Art Museum, EUA
Para o crente, toda a família que seja possível constituir segundo o modo mundano do tempo tem de ter a marca absoluta da Santíssima Trindade, precisamente como dom absoluto de amor, de ato em prol do bem de esse que se ama
O Filho incarna, ganha carne, e fá-lo através do ventre de uma mulher. Este ato implica que Deus, o Filho, passe a ter uma segunda família: aquela que é dada na forma de Maria e de seu Esposo, José. Incomum incarnação, mas comum carne humana, necessitada de humano calor, de humana proteção, de humano amparo, de humana ordem, de humana histórica cultura
Discretamente, José põe nas mãos de Cristo as alfaias de que este necessita para a sua missão e desaparece, como deveria ser sempre o nosso humilde papel e destino, silencioso como a paz
De um certo ponto de vista, Cristo teve e tem apenas uma família: a comunidade que pratica a misericórdia. A família de Cristo, suas mães, seus pais, seus irmãos, são todos os que se deixam inundar pela misericórdia de Deus na forma dos atos de amor que praticam, sempre que os praticam
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