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As crianças e os que são como elas

Imagem Frederick Morgan | D.R.

As crianças e os que são como elas

Num mundo onde coexistem a luz e as trevas, há homens, mulheres, jovens e também crianças que são portadores de luz. Há um brilho à sua volta, mesmo sem que se apercebam.

Quem será capaz de expressar suficientemente bem o que algumas crianças podem transmitir pela sua simplicidade, a sua confiança ou com uma palavra inesperada?

Um rapazinho de nove anos confiou-me: «O meu pai abandonou-nos. Nunca o vejo, mas continuo a amá-lo e, à noite, rezo por ele.» Este rapaz vivia o perdão do Evangelho. Ele não seria um reflexo puro da bondade de Deus?

Um dia, Cristo disse: «Deixai vir a mim os pequeninos, pois as realidades de Deus são dos que são como eles». Será que Cristo queria chamar-nos a atenção para acolhermos o Evangelho nessa parte de nós mesmos onde ainda habita o espírito da nossa infância?

Por vezes, os adultos pensam que a autoridade se conquista fazendo juízos graves dos acontecimentos, ou até com pessimismo. É preciso mantermo-nos vigilantes para não nos deixarmos paralisar por quem dramatiza as situações e alimenta o medo. A tristeza é mais contagiosa do que a alegria e do que a paz do coração.

Mas o que significa, para um ser plenamente adulto, aliar o espírito de infância à maturidade de longos anos de experiência?

A infância não tem o monopólio da confiança, mas Deus torna-se acessível aos corações humildes que se entregam a Ele.

A confiança que habita no nosso íntimo não tem nada de ingénuo, vive aliada ao discernimento. O espírito de infância é um olhar límpido. Longe de ser apenas simplista, é também um olhar lúcido. São-lhe familiares tanto os aspetos positivos de uma situação como os negativos.

O espírito de infância é admiração. Quando inspirado no Evangelho é, por vezes, o segredo de uma alegria profundamente íntima.

Quando estou perante jovens, às vezes, chego a pensar: «Não foste feito para falar em público. Nada te preparou, isto surgiu demasiado tarde na tua vida.» Então digo para comigo mesmo: «Fala com a simplicidade de um coração de criança. Estarás hoje assim tão diferente do que eras quando a tua irmã mais velha te ensinava a ler e a escrever?»

Quando era criança, morava numa aldeia muito pobre na montanha, com os meus pais, o meu irmão e as minhas sete irmãs. Eu era o mais novo. Quando tinha seis ou sete anos, lembro-me de a pobreza de alguns dos nossos vizinhos me ter impressionado. Havia uma senhora de idade em particular que eu e uma das minhas irmãs ajudámos a mudar de casa. Descobrimos que, além da cama, tudo o que ela tinha cabia dentro de um carrinho de bebé, que empurrámos de uma casa para a outra, pela rua acima.

Durante o tempo do Advento, fui comprando pequenos presentes na lojinha da aldeia. Trazia-os para casa, embrulhava-os e punha-os debaixo da minha cama, à espera de poder distribuí-los, no Natal, pelas famílias mais pobres.

Quando a alegria de dar brota num coração de criança, permanece para toda a vida. Ainda hoje tenho debaixo da minha cama três gavetas cheias de pequenos presentes que gosto de dar a quem me visita, sobretudo às crianças.

 

Ir. Roger de Taizé
In "Não pressentes a felicidade?"
Publicado em 06.11.2014

 

Título: Não pressentes a felicidade?
Autor: Ir. Roger de Taizé
Editora Paulinas
Páginas: 104
Preço: 6,00 €
ISBN: 978-989-673-391-9

 

 
Imagem Frederick Morgan | D.R.
Quando estou perante jovens, às vezes, chego a pensar: «Não foste feito para falar em público. Nada te preparou, isto surgiu demasiado tarde na tua vida.» Então digo para comigo mesmo: «Fala com a simplicidade de um coração de criança
Durante o tempo do Advento, fui comprando pequenos presentes na lojinha da aldeia. Trazia-os para casa, embrulhava-os e punha-os debaixo da minha cama, à espera de poder distribuí-los, no Natal, pelas famílias mais pobres
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