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«Que alegria ter na mão um novo livro!»: As crianças, Deus e a leitura

«Que alegria ter na mão um novo livro!»: As crianças, Deus e a leitura

Imagem YakobchukOlena/Bigstock.com

«Que alegria ter na mão um novo livro! De início, nunca sabemos sobre o que é que ele fala. Resistimos à tentação de saltar para a última página. E como o livro cheira bem! (...) Existe um cheiro particular no livro, um cheiro único e excitante. As folhas encontram-se coladas, como se o livro não tivesse ainda acordado. E ele só acorda quando começamos a lê-lo.»

Redigido pelo russo Sergey Makhotin, este é um excerto da mensagem para o Dia Internacional do Livro Infantil, que desde 1967 se assinala a 2 de abril, data de nascimento do escritor dinamarquês Hans Christian Andersen (1805-1875). E Deus também se lê, ouve e vê nas histórias contadas em páginas escritas para os mais novos. Será que o livro infantil pode acordar a fé nas crianças - e até nos pais?   

A escritora Maria Teresa Maia Gonzalez, nomeada pelo segundo ano consecutivo para o prémio ALMA, considerado o mais prestigiado galardão internacional no âmbito da literatura para crianças e jovens, acredita que sim.

«Nas minhas conversas com crianças nas escolas e bibliotecas há muita curiosidade - sempre houve - sobre o sentido da vida, a crença em Deus», afirmou ao programa televisivo 70X7, da Agência Ecclesia, transmitido este domingo na RTP-2. E realça: «Enquanto Igreja, temos o direito e o dever de levar a criança a encontrar respostas para essas questões».



«O livro implica um trabalho mental muito mais sério» do que assistir a programas de televisão, «mas precisamente por isso é muito importante na formação intelectual e na aprendizagem de como pensar»



Em entrevista à Renascença, publicada hoje, a autora, que se prepara para lançar dois livros relacionados com as aparições da Virgem Maria em Fátima, menciona «as pessoas que pensam que nas crianças já não há um grande interesse pelas questões espirituais».

«Eu acho que é um erro pensar assim, as crianças têm muita sede de falar e de quem lhes fale sobre assuntos importantes, como são as questões por exemplo, da espiritualidade, da fé, da nossa relação com o transcendente», acentua.

Mesmo as crianças «que não praticam qualquer religião, têm uma noção de Deus, do transcendente, e têm as suas questões, as suas inquietações, as suas dúvidas, e também já as suas ideias, as ideias que foram formando. E é muito interessante ouvi-las e, a partir daí, partir para um diálogo que pode ser um diálogo que dá frutos».

A data de 2 de abril é um «dia bonito» e «útil» porque «lembra aos adultos um pouco mais esquecidos que existem livros para crianças, que elas podem divertir-se e aprender, e muito, com os livros, e não apenas com os computadores», sublinha.



Para motivar as crianças e jovens para a leitura, «deve começar-se sempre pelo interesse» que manifestam em determinados temas. E «de vez em quando visitarem com os filhos uma livraria ou uma biblioteca»



Theresa Ameal, igualmente escritora de livros para crianças, que recentemente publicou uma obra sobre a Ir. Lúcia, vidente da Cova da Iria, considera que «os miúdos mais pequenos continuam a adorar ouvir uma história. Essa mágica ainda existe», não obstante a presença crescente dos ecrãs, telemóveis, "tablets", computadores e a TV.

«O livro implica um trabalho mental muito mais sério» do que assistir a programas de televisão, «mas precisamente por isso é muito importante na formação intelectual e na aprendizagem de como pensar», defende a autora.

A escritora sustenta que «as primeiras idades são importantes para que a leitura se torne um ato habitual em toda a vida», já que se lê sem ser por obrigação, ao contrário da escola, em que o dever de ler, associado ao estudo, pode causar um efeito de rejeição dos livros.

«Se antes já tiverem ligado a ideia de que "o livro é bom", "o livro é divertido", "o livro é algo que eu gosto", então isso vai facilitar a vida de leitor para sempre», acentua Theresa Ameal.



«Ler é uma atividade indissociável da curiosidade e do desejo. É preciso aprender a senti-la como uma necessidade interior, um gosto, uma alegria que pode até ser frívola e profunda ao mesmo tempo, um encontro a que nos dispomos sem porquê. Não basta uma ordem ou um conselho repetido»



Maria Teresa Maia Gonzalez sugere que para motivar as crianças e jovens para a leitura, «deve começar-se sempre pelo interesse» que manifestam em determinados temas. E «de vez em quando visitarem com os filhos uma livraria ou uma biblioteca». Por outras palavras, «despertar a fome», escreve José Tolentino Mendonça na mais recente crónica que assina no Expresso, citando o escritor brasileiro Rubem Alves.

«Conversava com uns amigos preocupados com o filho que anda agora pelos 17 anos. São ambos professores, os corredores de casa parecem uma biblioteca, mas o filho não lê um livro. (...) Veem-no horas e horas retido no ecrã do telemóvel, obsidiado por aquele retângulo brilhante, aos olhos deles fazendo nada.»

«A primeira coisa de que me recordei - e que lhes disse - foi uma frase do escritor Gianni Rodari: "O verbo ler não suporta o imperativo"», aponta o coautor de um livro de histórias escolhidas da Bíblia.

E acrescenta: «Ler é uma atividade indissociável da curiosidade e do desejo. É preciso aprender a senti-la como uma necessidade interior, um gosto, uma alegria que pode até ser frívola e profunda ao mesmo tempo, um encontro a que nos dispomos sem porquê. Não basta uma ordem ou um conselho repetido. Falta uma iniciação que seja digna desse nome».









 

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