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Universidade Católica Portuguesa e Pontifícia de S. Paulo inauguram co-edição de revista sobre Ciência da Religião

O Instituto de Estudos de Religião da Faculdade de Teologia, da Universidade Católica Portuguesa (UCP) e o Programa de Pós-graduação em Ciência da Religião, da Pontifícia Universidade Católica (PUC) de São Paulo, inauguram o projeto de co-edição da Rever - Revista de Estudos da Religião.

Os objetivos da publicação quadrimestral, que com este número de Janeiro-abril de 2018 entra no 18.º volume, «são informar o leitor sobre a pesquisa corrente e propiciar uma discussão metateórica em torno da Ciência da Religião».

Editada por Frank Usarski e Wagner Lopes Sanchez (PUC) e Alfredo Teixeira (UCP), a revista, que em cada número inclui uma secção temática, pretende também «servir de elo com a discussão académica internacional, abrindo espaço para artigos de autores de outros países».

Além dos estudos relativos a uma específico, a publicação apresenta as secções "Intercâmbio", sobre questões à parte do tema principal, "Subsídios", com ensaios «úteis para o ensino universitário na área de Ciência da Religão», "Fórum", dedicada ao estudo das religiões, e "Resenhas", com «textos e informações de interesse».

"Arte é liturgia?" é o tema principal do primeiro número desta parceria, que conta com os textos "Ritualidade da arte: performatividade da memória" (João Manuel Duque), "Da saída: religião da saída da religião, arte da saída da arte" (Paulo Pires do Vale) e "A memória religiosa entre estética e política: o 'Magnificat' de João Madureira" (Alfredo Teixeira, Luísa Almendra).

Os estudos prosseguem com "Figurações do espaço em David Bowie" (Rui Miguel Fernandes), "As Igrejas e a mediação estética nos contextos de iniciação religiosa" (L. M. Figueiredo Rodrigues) e "Tálamo dos Cânticos na capela Arvore da Vida: por uma espiritualidade do atrevimento" (Joaquim Félix de Carvalho).

O editorial da revista, que seguidamente transcrevemos, revela as principais questões abordadas pelos textos.

 

Arte é liturgia?
Alfredo Teixeira
In "Rever"

O dossier temático constituído para este número da "Rever" resulta do trabalho exploratório de um grupo de pesquisa, enquadrado na linha de investigação «Performatividades e Estéticas do Religioso», do Centro de Investigação em Teologia e Estudos de Religião (Universidade Católica Portuguesa). Este número inaugura, também, uma parceria com o Instituto de Estudos de Religião (wwww.ier.ucp.pt) da mesma Universidade, na co-edição da "Rever", cumprindo o objetivo de tornar este projeto da PUC de São Paulo mais diversificado no espaço lusófono e na cena internacional.

Desde o final do século XIX que abundam as glosas ao tema da autonomia da estética face à religião. Weber leu este problema a partir das categorias de tensão e conflito, inscritas nas trajetórias artísticas de emancipação da forma a em relação ao conteúdo. Adorno celebrou a vanguarda musical do pós­guerra enquanto movimento de emancipa ação da poética musical em relação a todo o tipo de heteronomias, incluindo qualquer subordinação a outro sistema simbólico – por exemplo, o religioso. Michel de Certeau, interessado no estudo das deslocações do crer, num contexto de fragmentação simbólica, descreveu a memória religiosa como um vasto stock de fragmentos disponíveis para múltiplas apropriações. Marcel Gauchet, recuperando a hermenêutica weberiana, vaticinou que a idade da religião como estrutura tinha encontrado o seu termo. No entanto, Gauchet identifica um «resto» de experiências singulares e sistemas de convicções, enraizado na religião, que considera tratar­se de um substrato antropológico irredutível. A estética é, na sua interpretação, um destes restos. A experiência estética surge identificada com a experiência do sagrado, a irrupção do totalmente-outro na familiaridade das coisas. Nos itinerários múltiplos da modernidade, as vias que descrevem as relações entre estética, arte e religião são o plurais. Propõem-se, neste dossier, diversos enfoques, que podem ser vistos como declinações do conhecido enunciado do artista plástico americano Paul Thek (1933­1988): "Art is Liturgy".



Em "'Magnificat', ou a insubmissa voz" (2014), o compositor, sem dependências de uma instituição religiosa, não deixa de ser um agente de um processo de transmissão cultural de uma memória religiosa



João Duque parte de uma aproximação da arte como evento de gratuidade, para a relacionar com a experiência ritual. Na sua ótica, a reciprocidade entre arte e rito alimenta-se dessa necessidade de atualizar um movimento de memória redentora. De forma paradoxal, o filósofo e curador Paulo Pires do Vale apresenta uma leitura dos gestos artísticos em que se recusa a sacralização da arte e se nega o museu como lugar de culto. Na sua interpretação, o movimento artístico «anti­museu» é tanto pós-religioso como pós-artístico. Parte desta dessacralização da arte, no mundo do Atlântico Norte, mobiliza uma leitura do cristianismo enquanto «religião da saída da religião», tópico de ascendência weberiana, desenvolvido por Marcel Gauchet.

Noutros itinerários de criação artística, a memória religiosa pode ser usada para criticar o "mainstream" ideológico, ou uma certa ordem política do mundo. Talvez porque as instituições religiosas perderam grande parte da sua capacidade de tutela social, as suas narrativas e imagens, em certos contextos, podem ser mobilizadas para a afirmação de uma dissidência em relação ao status quo. Noutra perspetiva, pode afirmar-se também que os criadores de arte contemporânea podem manusear os antigos suportes simbólicos da religião para legitimar a sua própria proposta de valor. Alfredo Teixeira e Luísa Almendra estudam os contornos destes processos no caso de uma obra musical criada pelo compositor português João Madureira: "'Magnificat', ou a insubmissa voz" (2014). Observou-se que o compositor privilegia a semântica política do texto protocristão, perseguindo a via de uma universalização da mensagem, desvinculada do seu habitat comunitário, ritual e orante. O compositor, no entanto, no quadro desta operação, sem dependências de uma instituição religiosa, não deixa de ser um agente de um processo de transmissão cultural de uma memória religiosa. Descobrem-se, assim, cenários autónomos da produção artística, onde se enunciam leituras plurais da tradição religiosa, desvinculadas de uma memória autorizada, mas não necessariamente contra essa memória.



Com uma ascendência claramente nietzscheana, Bowie não dará uma resposta religiosa, sob o ponto de vista denotativo, mas ensaiará uma tentativa de leitura da experiência do «espaço», enquanto forma de autotranscendência



No quadro das modernidades múltiplas que caracterizam as sociedades contemporâneas, torna­se necessário encontrar instrumentos de estudo que sejam sensíveis às metamorfoses do sagrado – tanto no que diz respeito à cartografia das suas deslocações, como no que concerne à inventariação das suas formas implícitas. A cultura "Pop" é, neste domínio, um dos laboratórios privilegiados, em razão da sua forte articulação com as narrativas e as imagens do quotidiano. O estudo de Rui Miguel Fernandes sobre a poética de David Bowie não persegue as formas de um sagrado explícito. Parte antes da evidência de uma pergunta: como viver num mundo caótico e absurdo? Com uma ascendência claramente nietzscheana, Bowie não dará uma resposta religiosa, sob o ponto de vista denotativo, mas ensaiará uma tentativa de leitura da experiência do «espaço», enquanto forma de autotranscendência. Esta via não pode ser compreendida sem ter em conta as dinâmicas sociais contemporâneas, no que diz respeito à significação espiritual da experiência humana e cósmica.

Com frequência, estudos em diversas áreas disciplinares têm colocado em evidência que, a apesar da diminuição da capacidade de as instituições religiosas tutelarem a administração do sagrado, subsistem indícios de uma procura de satisfação de necessidades de índole espiritual. A aptidão para responder às exigências próprias deste circuito de necessidades não deixou de ser uma forma possível de construção da credibilidade social. Este pode ser um espaço de convergência entre iniciativas diversas de instituições e comunidades religiosas e agentes do campo artístico. Luís Miguel Figueiredo Rodrigues estuda o papel que a arte pode desempenhar nos processos de transmissão e iniciação religiosa, através da sua capacidade de materializar ou dar visibilidade às buscas espirituais. Cruzando modelos teóricos diversos, com um particular destaque para a mediologia de Régis Debray, propõe vias de compreensão para o papel que as práticas artísticas, mobilizadas pelas comunidades religiosas, podem desempenhar na construção das identidades crentes.



Neste dossier temático da "Rever" procura-se uma aproximação hermenêutica ao religioso cultivando um jogo de escalas: entre a visão macroscópica dos modelos teóricos e a leitura microscópica dos casos; entre o campo artístico e o campo religioso



Por fim, o dossier apresentado propõe uma leitura de um espaço ritual ­litúrgico, situado numa cidade no Norte de Portugal. Trata­se da Capela Árvore da Vida, pertença da Arquidiocese de Braga, que recebeu, em 2011, o prémio ArchDaily para o edifício religioso com a melhor arquitetura. Trata-se de um espaço de convergência entre a especulação arquitetónica e a reflexão litúrgica cristã. Joaquim Félix Carvalho é, neste caso, um intérprete e um ator deste espaço. A sua atenção centra-se num dispositivo particular, o tálamo eucarístico, em cuja criação participou, explorando as vias de compreensão das diferentes camadas simbólicas. O seu texto desdobra-­se nesse limiar complexo, entre o olhar exterior que lê a gramática de um espaço ritual e o corpo que o vive como um lugar habitado. A partir dessa interseção, propõe uma interpretação para a forma como aí se cruzam a poética espacial, a praxis escultórica e a performance ritual.

Neste dossier temático da "Rever" procura-se uma aproximação hermenêutica ao religioso cultivando um jogo de escalas: entre a visão macroscópica dos modelos teóricos e a leitura microscópica dos casos; entre o campo artístico e o campo religioso. Essa implicação de escalas diversas, parte de uma posição epistemológica que persegue o objeto «religião» nas suas metamorfoses e recomposições, em vez de partir de um objeto já dado. Trata-se de um tipo de investigação que privilegia, enquanto campo de estudo, o religioso «a fazer-se».


 

SNPC
Imagem: Capa | D.R.
Publicado em 07.06.2018

 

 

 
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