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Arcabas, pintor da fé feliz, morreu

Arcabas, nome artístico de Jean-Marie Pirot, pintor francês de arte sacra, morreu na quinta-feira, 23 de agosto, aos 91 anos. «Nestes últimos meses, trabalhava ainda nos vitrais da basílica do Sagrado Coração de Grenoble, tendo concluído todos os desenhos», esclarece Christine Julien, responsável pelo museu de arte sacra contemporânea de Saint-Hugues-de-Chartreuse, dedicado ao artista.

Nascido em 1926, foi incorporado à força no exército alemão aos 17 anos. Logo após a II Guerra Mundial, reentra na Academia das Belas-Artes de Paris. Assim que terminou o curso, torna-se professor na Escola das Artes Decorativas de Grenoble, em 1950.

Casado e pai de dois filhos, Jean-Marie Pirot permaneceu quase duas décadas em Grenoble, onde, em 1968, escolheu o seu pseudónimo, inspirado por dois grafitos de estudantes pintados nas paredes da escola: “Arc-en-ciel” e “A bas Malraux!”. Um ano depois vai para o Canadá, como docente convidado da Universidade de Otava. No regresso a França, funda em 1972 um ateliê de artes plásticas, “Elogio da mão” na Universidade de Ciências Sociais de Grenoble.

Muito antes, em 1952, um encontro decisivo orientará a sua vida de artista. Atraído pelo amplo volume da igreja de Saint-Hugues-de-Chartreuse, que descobre por acaso, Jean-Marie Pirot simpatiza com o prior, P. Raymond Truffot, um padre-operário, a quem propõe decorar gratuitamente o templo. O presidente da autarquia, Auguste Villard, pronuncia-se a favor.

 

Obras monumentais, sacras ou profanas

Aos 25 anos, o pintor embarca nesse vasto projeto. Dado que as paredes húmidas não suportam os frescos, pinta em 144 m2 de serapilheira, de baixo custo: uma “Última Ceia” no coro, uma “Ressurreição de Lázaro”, um “Cristo e a mulher adúltera”. Na nave, representa cenas da vida terrestre e até mesmo um jogo de petanca, querido ao seu amigo cura. Mais tarde, não cessará de ligara os temas bíblicos ao quotidiano dos seus contemporâneos, desejoso de atualizar a mensagem dos Evangelhos.

Em Saint-Hugues-de-Chartreuse o artista realiza também vitrais; mais tarde mobiliário, uma "Coroação" e uma ampla predela, tornando o espaço «uma obra de arte notavelmente unificada e de inspiração claramente cristã, muito mais que as obras encomendadas na mesma época para a capela de Assy, na Alta Sabóia, observa o historiador e teólogo François Boespflug, amigo de Arcabas a quem dedicou cinco livros.

Com este primeiro estaleiro virão rapidamente muitos outros, obras monumentais, sacras ou profanas, que ocuparão o artista até ao fim da vida, não só em França como em Itália, Bélgica e Mónaco.

 

Fervoroso leitor da Bíblia

Dominando várias técnicas, o acrílico, o fresco, o mosaico, o vitral, o desenho de mobiliário litúrgico, Arcabas realizou também cenários e vestuário, de 1961 a 1972, para a companhia Comédie des Alpes e depois para o Ópera do Centro Nacional das Artes do Canadá.

«A sua obra dividia. Tinha adeptos determinados e detratores, nomeadamente nos meios da arte contemporânea. Arcabas teve a coragem de fazer pinturas figurativas, legíveis por todos, marcadas por uma beleza tranquilizadora, correndo o risco de por vezes parecer piedoso ou “kitsch”, nota Boespflug.

Se algumas das suas pinturas denunciaram a tortura na Argélia ou o compromisso dos bispos espanhóis com a ditadura de Franco (veja-se a sua monumental “Homenagem a Bernanos”), a obra sacra deste homem algo tímido, amigo dos anjos, que habitavam as suas composições, ocupa o lugar principal.

«Arcabas lia a Bíblia todos os dias. No seu ateliê conservava cinco edições diferentes. E tinha o cuidado, a cada novo tema que abordava, de se reportar, modestamente e atenciosamente, às Escrituras», testemunha François Boespflug. A sua paleta intensa, o recurso à folha de ouro para marcar uma auréola, transparecia a sua fé num Deus radioso.



 

Sabine Gignoux
In La Croix
Trad. / edição: Rui Jorge Martins
Imagem: Arcabas | Stéphane Ouzounoff/Ciric | D.R.
Publicado em 27.08.2018

 

 

 
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