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Amor, morte, sentido

O amor, a morte e o sentido, «três grandes feridas contemporâneas» que são também enigmas que não se procuram decifrar porque à sua volta erguem-se barreiras de silêncio, recusa, distanciamento.

Na coluna semanal que assina no “Diário de Notícias”, o P. Anselmo Borges refere-se àqueles pilares da existência humana, começando por constatar que o amor «sólido, estável e fiel» é «elemento constitutivo da felicidade».

«Num tempo de incerteza, do “zapping”, do provisório, do usar e deitar fora até nas relações humanas», o amor duradouro «deveria ser a pedra angular da vida, e é isso que se procura idealmente, mas, ao mesmo tempo, pretende-se viver numa união sem compromisso, na abertura ao consumo do "poliamor", numa liberdade à deriva, incapaz de sacrificar-se pelo que mais vale».

Da morte, que poderia «desarranjar a lógica da euforia do consumo, do hedonismo e da leveza do viver, pura e simplesmente não se fala», pelo que «o essencial - o metafísico, a ética, a existência enquanto texto com sentido - cai inevitavelmente no esquecimento».



«Face à morte, ergue-se, inevitavelmente, lá do mais fundo de nós, a pergunta pelo sentido, o sentido último», que «leva necessariamente consigo a pergunta por Deus», a qual «está obnubilada»



«É com a consciência da morte que se é convocado para o que verdadeiramente vale, face à morte, aparece em todo o seu vigor a distinção entre a existência autêntica e a existência inautêntica, entre o que verdadeiramente vale e o que realmente não vale e a urgência de construir uma existência com significado para lá da voragem do tempo», observa.

Para o professor de Filosofia na Universidade de Coimbra, «o pensamento sadio da morte» lança o ser humano «para a urgência de viver agora, a cada momento, na intensidade, sem adiar, porque é aqui e agora que se vive», como se atesta pelo testemunho de pessoas que estiveram em perigo de morte.

«Face à morte, ergue-se, inevitavelmente, lá do mais fundo de nós, a pergunta pelo sentido, o sentido último», que «leva necessariamente consigo a pergunta por Deus», a qual «está obnubilada»; por isso, mais do que o «ateísmo», o que preocupa o religioso «é a indiferença», característica da «sociedade líquida», isto é, marcada pela ausência de pontos de referência irrevogáveis.

O texto cita questionamento colocados pelo pensador alemão Nietzsche, na sequência da declaração da morte de Deus, que ao «júbilo» faz seguir «perguntas terríveis e trágicas».

«Não andaremos errantes através de um nada infinito? Não estaremos a sentir o sopro do espaço vazio? Não estará agora a fazer mais frio? Não estará a ser noite para todo o sempre, e cada vez mais noite?»

O P. Anselmo Borges conclui também ele com uma pergunta, deixando entrever a resposta: «Deus desapareceu do nosso mundo? Não; Ele está presente pela sua ausência insuportável, que leva à total desorientação, como anunciam estas perguntas proféticas de Nietzsche».


 

Rui Jorge Martins
Fonte: Diário de Notícias
Imagem: Phongphan/Bigstock.com
Publicado em 01.10.2018

 

 
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