Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura - Logótipo
secretariado nacional da
pastoral da cultura
Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura - Logótipo
secretariado nacional da
pastoral da cultura

A alegria do Natal

Imagem Josefa d'Óbidos | D.R.

A alegria do Natal

«O anjo disse-lhes: “Não temais, pois anuncio-vos uma grande alegria, que o será para todo o povo: Hoje, na cidade de David, nasceu-vos um Salvador, que é o Messias Senhor» (Lucas 2, 10-11)

É preciso falar alegremente da alegria, cantá-la como os anjos, na noite do nascimento de Jesus. Dado que não tenho a voz de um anjo, recolhamos ao menos a sua mensagem no nosso coração, à imagem de Maria silenciosa. É uma boa nova que cantam os anjos, uma grande alegria para todo o povo, para todas as pessoas. Acabou o tempo do medo, vivemos sem temor. Chegaram os tempos messiânicos. Aquele que devia vir está no meio de nós. Ele vem para nos salvar do pecado, do mal e da morte. Ele traz a redenção e o perdão. Ele oferece-nos o amor gratuito de Deus e a vida eterna. Ele dá-nos a sua alegria, alegria alicerçada na fonte inesgotável do dom infinito do Pai. «Glória a Deus nas alturas e paz na terra aos homens do seu agrado.» (Lucas 2, 14).

Sinal de uma vida que se expande, a alegria era considerada no Antigo Testamento como manifestação do tempo da salvação e da paz dos últimos tempos.

No Novo Testamento, João Batista terá sido dos primeiros a senti-la: Quando Isabel ouviu a saudação de Maria, já grávida de Jesus, «o menino saltou-lhe de alegria no seio» (Lucas 1, 41).

Já depois do nascimento de Jesus, os magos, «ao ver a estrela, sentiram imensa alegria», conta o evangelho segundo Mateus a propósito do astro que lhes indicou o lugar onde Maria tinha dado à luz.

«Manifestei-vos estas coisas, para que esteja em vós a minha alegria, e a vossa alegria seja completa», disse Jesus aos discípulos (João 15,11). Alegria de comunhão, de amizade, alegria por partilhar a sua vida de ressuscitado, mesmo se essa vida é acompanhada pela aflição: «Vós haveis de estar tristes, mas a vossa tristeza há de converter-se em alegria! … O vosso coração há de alegrar-se e ninguém vos poderá tirar a vossa alegria» (João 16, 20-22).

E os nossos corações? Estão plenamente felizes? Não haverá um fundo de tristeza? Porquê? O Natal traz-nos alegrias, é certo, mas a alegria, será que a conhecemos? Ó homens de pouca fé!

Ficamos demasiado presos aos nossos medos, à nossa autossuficiência, à nossa independência, ao nosso orgulho, às nossas riquezas de pacotilha, em suma a nós mesmos, para ter a audácia da alegria espiritual e nos deixarmos dilatar à medida do dom de Deus. A alegria dilata, a tristeza aprisiona. Para se ser alegre é preciso um certo esquecimento de si, uma perda de si no maravilhamento.

É por isso que a alegria do adulto é muitas vezes pouco natural, enquanto que a da criança é total. Aos poucos o adulto coloca a sua alegria no ter, por vezes muito material. Mas possuir é mais da ordem do prazer; no receber e no dar é que está a alegria. E a alegria é sempre um dom, ela traz sempre a marca da gratuidade, da festa. O adulto não sabe muitas veses receber gratuitamente, com toda a simplicidade, na pobreza cheia do não-ter que, só ela, dá acesso aos verdadeiros bens. Na nossa sociedade de consumo ambiciona-se poder comprar tudo, ter tudo. Mas não se compram senão coisas. Perseguem-se e acumulam-se. Possui-se muito mas não é nelas que se acha a alegria. Nelas só se encontra o prazer insaciável e, no limite, o aborrecimento. A alegria, ao contrário, é filha da pobreza, da gratuidade, da ousadia da vida que vive e ri em nós.

O contemplativo deve ter algo desta sabedoria da criança, da sua aptidão ao dom, ao abandono. Muitos parecem crer que só as pessoas “sérias” são sérias: a sabedoria deve obrigatoriamente manifestar uma atitude solene e um rosto franzido. O homem de negócios do “Princípezinho” está demasiado ocupado a contar e a “possuir” as estrelas para ver a sua beleza e abrir-se ao seu canto. Sejamos simples, não tenhamos medo de ser alegres.

Tendo perdido a espontaneidade da simplicidade, iremos procurá-la com o peso da razão?

 

A alegria de Maria

Entremos na escola de Maria para aprender a alegria. Temos muito poucas palavras dela e as que temos são de uma grande densidade por serem portadoras de um imenso peso de silêncio. Há o “fiat”, o sim pelo qual Maria consente livremente no dom de Deus, no dom que Deus lhe faz de si mesmo, à ação misteriosa do Espírito Santo pelo qual Jesus é nela concebido. E Jesus é concebido na alegria. O coração de Maria está repleto de alegria, da alegria de um pobre que soube acolher a vida:

«A minha alma glorifica o Senhor e o meu espírito se alegra em Deus, meu Salvador» (Lucas 1, 46-47).

Alegria cuja partilha desperta a alegria no coração de Isabel. O bebé no seio da sua mãe alimenta-se da sua substância, constrói-se a partir do que ela é. Tudo acontece no silêncio de uma simbiose intensa entre duas pessoas. Maria está só com o seu bebé oculto; para o bebé, o seu universo é o seio de Maria.

Depois é chegado o tempo em que o Menino sai para entrar no mundo dos homens. É quando acontece a primeira separação que lhe vai permitir ser Ele que está entre nós, para nós. A alegria de Maria é dar Jesus ao mundo. O seu coração está cheio de uma alegria que em nada diminui a pobreza do seu nascimento, num estábulo, recebida entre os animais, nenhum lugar entre os homens havia para eles.

Mas o bebé é rei, rei pobre, duas vezes rei. Os anjos cantam o seu deslumbramento, anunciam a alegria da sua vinda àqueles que estão mais preparados para o receber: os pobres, os pastores e os que o procuram pelos caminhos da sabedoria humana, os magos.

Não sabemos de nenhuma palavra de Maria. Ela permanece silenciosa, ocupada a proteger este pequeno corpo tão vulnerável, a embrulhá-lo em panos e a deitá-lo na manjedoura. Ela é mãe, deve ater-se às obrigações da maternidade, ao mesmo tempo que permanece unida ao seu filho no seu coração. Mas agora há um face a face, duas pessoas entreolham-se, o amor torna-se mais pessoal, amor de amizade; em breve o sorriso do bebé responderá ao seu.

Mas Maria nunca diz nada. Ela deixa os pastores e os magos prestarem a sua homenagem diante do seu filho. São os anjos que cantam a sua glória. Ela, ela conserva todas estas coisas, guarda-as no seu coração.

Quem era este ser dela nascido? O seu coração sabe mais do que a inteligência pode dizer. Ela não é a Palavra mas a sua serva. O seu silêncio fala por ela, diz do seu amor.

Será assim toda a sua vida. Durante os longos anos tranquilos de Nazaré, a sua alegria é a intimidade constante com Jesus, a vida partilhada com este rapaz que cresce diante dos seus olhos. É o seu filho, e no entanto, um dia, mal tinha feito doze anos, ele diz: «Não sabíeis que devia estar em casa de meu Pai?» (Lucas 2, 49). Jesus regressou a Nazaré, a vida continuou mas nunca mais foi a mesma. A marca do Pai estava sobre ele; à alegria da sua intimidade acrescenta-se uma nota grave, de respeito, perante o mistério do seu ser.

Numa dialética de intimidade e separação, pouco a pouco Jesus revela-se à sua mãe – como aos seus discípulos, como a nós. De cada vez há um aprofundamento. Até que um dia ele irá radicalmente relegar para segundo plano os laços de sangue que os uniam: «Aquele que fizer a vontade de Deus, esse é que é meu irmão, minha irmã e minha mãe» (Marcos 3,35).

É sobre a rocha da vontade de Deus que a relação entre ambos deve fundar-se e fortalecer-se a partir daí, ao ponto que seja aceite a separação final de uma morte brutal. Onde está agora a tua alegria, Maria? Ela está sempre lá, onde se renova o sim do teu amor e da tua fé, no silêncio, numa solidão terrível. Nunca foste tão mulher como agora. E assim tu te tornas mãe do Corpo de Cristo, de todos nós. Alegria grave de um amor que dá mais do que si mesmo.

O amor é mais forte do que a morte, a alegria mais forte do que a tristeza. A luz da ressurreição vai inundar o espaço da sua fé e enchê-la de uma alegria que não terá fim. A assunção ao céu é a manifestação da plenitude desta alegria que impregna todo o seu ser, incluindo o seu corpo.

Maria não deixou uma palavra sobre Jesus, uma teologia, um discurso. A sua vida é a sua palavra, o seu amor, o seu conhecimento, o seu dom total à vontade de Deus e à ação oculta do Espírito nela, a sua pobreza, a transparência da sua pureza.

Essa alegria é o Cristo nela, é o Cristo em nós. Desejo-a a todos de todo o meu coração.

Nós somos responsáveis pela nossa alegria.

 

Monge Cartuxo
In "Vivre dans l'intimité du Christ"
Trad.: Rui Jorge Martins
Publicado em 24.12.2014

 

 
Imagem Josefa d'Óbidos | D.R.
E os nossos corações? Estão plenamente felizes? Não haverá um fundo de tristeza? Porquê? O Natal traz-nos alegrias, é certo, mas a alegria, será que a conhecemos? Ó homens de pouca fé!
A alegria de Maria é dar Jesus ao mundo. O seu coração está cheio de uma alegria que em nada diminui a pobreza do seu nascimento, num estábulo, recebida entre os animais, nenhum lugar entre os homens havia para eles
O bebé é rei, rei pobre, duas vezes rei. Os anjos cantam o seu deslumbramento, anunciam a alegria da sua vinda àqueles que estão mais preparados para o receber: os pobres, os pastores e os que o procuram pelos caminhos da sabedoria humana
Onde está agora a tua alegria, Maria? Ela está sempre lá, onde se renova o sim do teu amor e da tua fé, no silêncio, numa solidão terrível. Nunca foste tão mulher como agora. E assim tu te tornas mãe do Corpo de Cristo, de todos nós. Alegria grave de um amor que dá mais do que si mesmo
Maria não deixou uma palavra sobre Jesus, uma teologia, um discurso. A sua vida é a sua palavra, o seu amor, o seu conhecimento, o seu dom total à vontade de Deus e à ação oculta do Espírito nela, a sua pobreza, a transparência da sua pureza
Relacionados
Destaque
Pastoral da Cultura
Vemos, ouvimos e lemos
Perspetivas
Papa Francisco
Teologia e beleza
Impressão digital
Pedras angulares
Paisagens
Umbrais
Evangelho
Vídeos