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Advento, tempo de vigilância

Advento, tempo de vigilância

«Não precisamos de mais nada a não ser um espírito vigilante.» Este apotegma do abade Poemen, um Padre do Deserto, exprime bem o carácter essencial que reveste a vigilância na vida espiritual cristã.

O Novo Testamento opõe a vigilância ao estado de ebriedade e ao da sonolência; define-a como a sobriedade e a atitude de ter os olhos abertos daquele que tem um propósito preciso a atingir e do qual se poderia distrair se não fosse, precisamente, vigilante.

Dado que o propósito a perseguir, para um cristão, é a relação com Deus através de Jesus, a vigilância cristã está totalmente em relação com a pessoa de Cristo, que veio e que virá.

Basílio de Cesareia termina as suas "Regras morais" afirmando que a «especificidade» do cristão apoia-se na vigilância ligada à pessoa de Cristo: «O que é próprio do cristão? É vigiar a toda a hora do dia e da noite e de permanecer pronto na perfeição que agrada a Deus, porque sabe que o Senhor vem à hora que ele não espera».

A insistência sobre a dimensão temporal, neste texto, não é obra do acaso. O vigilante é arquétipo do profeta, aquele que procura traduzir o olhar e a Palavra de Deus no hoje do tempo e da história.

A vigilância é, por isso, lucidez interior, inteligência, capacidade crítica, presença na história, não distração e não dissipação. Unificado pela escuta da Palavra de Deus, interiormente atento às suas exigências, o homem vigilante torna-se responsável, ou seja, radicalmente não indiferente, consciente de tomar cuidado de tudo e, em particular, capaz de vigiar sobre os outros homens e de os guardar.

«Ser "episcopus", bispo», escreve Lutero, «significa olhar, ser vigilante, vigiar atentamente.» A vigilância é por isso uma qualidade que exige grande força interior e produz um equilíbrio: trata-se se pôr em prática a vigilância não somente sobre a história e sobre os outros, mas também sobre si, sobre o seu próprio ministério, sobre o seu próprio trabalho, sobre a sua própria conduta, em suma, sobre toda a esfera das relações que se vive. De modo que sobre tudo reine o senhoria de Cristo.

A dificuldade da vigilância consiste precisamente no facto de que é sobre si, antes de tudo, que é preciso vigiar: o inimigo do cristão está nele próprio, não fora dele. Tende cuidado convosco e velai: que os vossos corações não se tornem pesados com a devassidão, a embriaguez e as preocupações da vida, diz Jesus (cf. 21, 34.36).

A vigilância exige o preço de uma luta contra si próprio: o vigilante é o resistente, aquele que combate para defender a própria vida interior, para não se deixar levar pelas seduções mundanas, para não se deixar vencer pelas angústias da existência; em suma, para unificar fé e vida e para se manter em equilíbrio e em harmonia.

O vigilante é aquele que adere à realidade e não se refugia na imaginação, na idolatria, que trabalha e não cai na preguiça, que se coloca em relação, que ama e não é indiferente, que assume com responsabilidade o seu compromisso na história e vive-o na espera no Reino que virá. A vigilância é, portanto, a fonte da qualidade da vida e das relações e está ao serviço da plenitude da vida; ela combate as seduções que a morte exerce sobre o homem.

Paulo adverte os cristãos de Tessalónica com estas palavras: «Não durmamos, pois, como os outros, mas vigiemos e sejamos sóbrios» (1 Tessalonicenses 5, 6). Na simbólica bíblica, mas também noutras culturas, caur no sono significa entrar no domínio da morte.

Vigiar, por seu lado, é uma atitude própria do homem atento e responsável, mas adquire uma significação particular para o cristão que coloca a sua fé em Cristo morto e ressuscitado. A vigilância é assumir, de maneira íntima e profunda, a fé na vitória da vida sobre a morte.

Desta forma, o vigilante opõe-se ao homem adormecido e embrutecido que amacia os seus sentidos interiores, que permanece na superfície das coisas e das relações; ele torna-se também um homem de luz, capaz de irradiar a luz.

«Iluminados» pela imersão batismal, os cristãos são «filhos da luz» chamados a iluminar: «Que a vossa luz brilhe diante dos homens, a fim de que eles vejam as vossas belas obras e glorifiquem o vosso Pai que está nos Céus» (Mateus 5, 16).

Não se trata de exibicionismo espiritual, mas sobretudo do efeito transbordante da luz que, permanecendo num coração vigilante, não pode ficar escondida, mas emerge por ela própria e se difunde.

Em certo sentido, a vigilância é a única coisa absolutamente essencial ao cristão: ela é a matriz de toda a virtude, ela é o selo de toda a ação, a luz dos seus pensamentos e das suas palavras. Sem ela, todo o agir do cristão arrisca-se a ser pura perda. O abade Arsénio diz: «Todo o homem deve vigiar as suas obras para não trabalhar em vão».

 

Enzo Bianchi
In "Les mots de la vie intérieure", ed. Cerf
Trad.: Rui Jorge Martins
Publicado em 01.12.2015

 

 
Imagem « Strix-varia-005-crop ». Sob licença CC BY-SA 3.0 via Wikimedia Commons.
A vigilância exige o preço de uma luta contra si próprio: o vigilante é o resistente, aquele que combate para defender a própria vida interior, para não se deixar levar pelas seduções mundanas, para não se deixar vencer pelas angústias da existência; em suma, para unificar fé e vida e para se manter em equilíbrio e em harmonia
Em certo sentido, a vigilância é a única coisa absolutamente essencial ao cristão: ela é a matriz de toda a virtude, ela é o selo de toda a ação, a luz dos seus pensamentos e das suas palavras. Sem ela, todo o agir do cristão arrisca-se a ser pura perda
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