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«Mística e poesia são braços do mesmo rio. Deus me deu o segundo, mas a fonte é a mesma»

Imagem Adélia Prado | D.R.

«Mística e poesia são braços do mesmo rio. Deus me deu o segundo, mas a fonte é a mesma»

A poetisa brasileira Adélia Prado (n. 1935) considera que «o fenómeno poético é religioso em sua natureza», porque «a poesia, independentemente da crença ou não crença do poeta», está ligada a «um centro de significação e sentido».

«Nada se apresenta sem remédio por causa da fé e da poesia, que considero uma forma estupenda de fé e esperança», declarou Adélia Prado em entrevista ao jornal "O Estado de São Paulo", a propósito do lançamento do seu último livro, "Miserere" (ed. Record).

Nos 38 poemas, Adélia Prado «estabelece um diálogo com Deus, uma ponte com a transcendência e uma crença na perenidade da carne e na eternidade da alma», assinala o jornalista Ubiratan Brasil na abertura da entrevista, de que transcrevemos alguns excertos, terminando com um dos poemas do volume.


Por que os poemas de Miserere são mais escuros que seus habituais? O título do livro foi definido por conta disso?

Primeiro porque os olhos se turvam na velhice e a privação de regalias da juventude trazem consigo, de maneira não idealizada, as realidades do sofrimento e da morte. Abrir os olhos dói: morrer de tuberculose, que eu achava o máximo na maioria dos poetas que admirava na escola e de muitos santos que me encantavam com seus martírios, é de facto coisa tenebrosa e dificílima. Hoje, quando digo «miserere nobis» (tem piedade de nós), sei um pouquinho mais do que estou falando. Assusta descobrir nossa orfandade original. Mas nada se apresenta sem remédio por causa da fé e da poesia, que considero uma forma estupenda de fé e esperança. O título "Miserere" foi escolhido porque me parece o que mais revela o espírito do livro.


O mundo atual, perturbado pelo terrorismo e pela guerra, ainda é propício à poesia? 

Não apenas propício à poesia, mas faminto dela.


A senhora já teve alguma experiência mística por meio da arte?

Como diz Guimarães Rosa, não sei de nada, mas desconfio de muita coisa. Mística – a experiência – é dom de Deus que Ele dá a quem quer. Estou na categoria dos seguidores. Ele me protege, tenho medo de certas dores.


A senhora acredita que sua poesia perderia o sentido sem a religião? A poesia é mais oração ou mais comunhão? Acredita que pode haver um poeta ateu?

Certamente escreveria outro tipo de poesia, mas não deixaria de escrevê-la. No texto de um poeta ateu, o substrato de sua poesia é o mesmo no de um poeta crente. Porque o fenómeno poético é religioso em sua natureza. A poesia, independentemente da crença ou não crença do poeta, nos liga a um centro de significação e sentido, assim como o faz a fé religiosa. Por isso é que a poesia é tão consoladora, dá tanta alegria. Minha formação é religiosa, confesso o que creio e é impossível que nossas profundas convicções desapareçam quando escrevemos. Seria esquizofrénico. Mística e poesia são braços do mesmo rio. Deus me deu o segundo, mas a fonte é a mesma, o Espírito Divino. A despeito de si mesmo, o poeta ateu entrega o ouro em sua poesia. É simples, rigorosamente ninguém é o criador da Beleza (poesia). Ela vem, eu diria como Guimarães Rosa, da terceira margem da alma. O poeta é só o “cavalo do santo”, queira ou não. Às vezes, somos tentados a desistir quando descobrimos que ela, a poesia, é muito melhor que seu autor. É a tentação do orgulho. Que Deus nos livre dela.


É curioso como a realidade também parece exercer forte influência em seus versos – lembro-me de "O ditador na prisão", que nasceu a partir de sua preocupação do destino do ex-presidente iraquiano Saddam Hussein, e agora em "Lápide para Steve Jobs". A força da poesia está em oferecer um conforto moral?

A poesia oferece a realidade e sua beleza. Esta é sua força, seu conforto, sua alegria.


«Graças a Deus sou medrosa,/ o instinto da sobrevivência/ me torna a língua gentil» são alguns versos de "Branca de Neve". Até que ponto isso se aplica à sua poesia?

A poesia não é nem pode ser uma «língua gentil». Tem de ser sempre uma língua bela. No poema citado, "Língua gentil" refere-se ao poeta e a seus medos, e não à poesia propriamente. "Língua gentil", no caso do poema, é a língua que o poeta diz usar para não estumar as feras, para que elas não o devorem. De novo, não no poema, mas na vida, para lidar com os monstros interiores.


Quando a realidade quotidiana se mostra como maravilhamento e quando não passa de mera realidade?

Quando olho pedra e vejo pedra mesmo, só estou vendo a aparência. Quando a pedra me põe confusa de estranhamento e beleza, eu a estou vendo em sua realidade que nunca é apenas física. A aparência diz pouco. Só a poesia mostra o real.


 

Sala de espera

A Bíblia, às vezes, não me leva em conta,
tão dura com minha gula.
Nem me adiantou envelhecer,
partes de mim seguem adolescentes,
estranhando privilégios.
Nunca me senti moradora,
a sensação é de exílio.
Criancinha de peito, essa já sabe,
seu olhar muda quando desmamada.
Tudo é igual a tudo,
mas por agora a unidade nos cega,
daí o múltiplo e suas distrações.
Deus sabe o que fez.
Mesmo com medo escrevo
que é 1º de julho de 2011.
Parece póstumo, parece sonho.
Alguma coisa não muda,
minha fraqueza me põe no caminho certo.
Deus nunca me abandonou.

 

Entrevista: Ubiratan Brasil
Fonte: O Estado de São Paulo
Publicado em 06.11.2014

 

 

 
Imagem Adélia Prado | D.R.
Assusta descobrir nossa orfandade original. Mas nada se apresenta sem remédio por causa da fé e da poesia, que considero uma forma estupenda de fé e esperança
Quando olho pedra e vejo pedra mesmo, só estou vendo a aparência. Quando a pedra me põe confusa de estranhamento e beleza, eu a estou vendo em sua realidade que nunca é apenas física. A aparência diz pouco. Só a poesia mostra o real
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