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Aculturação ou inculturação?

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Aculturação ou inculturação?

O termo "cultura" entrou no uso comum a partir do séc. XVIII, na Alemanha, num sentido seletivo e aristocrático que valorizava a tendência intelectual da investigação humana, considerada como mais nobre. Na época clássica eram utilizados termos mais gerais, como a palavra grega "paideia", que aludia à formação total da pessoa, ou a palavra latina "humanitas", que remetia para o sujeito humano nos seus valores de fundo, para finalmente falar de civilização.

É por isso que a época atual procura superar o conceito de cultura derivado do Iluminismo - «o pior conceito alguma vez formulado», aos olhos do sociólogo Niklas Luhman - e voltar a uma visão geral e transversal que compreende todas as capacidades humanas e sociais. Fala-se, portanto, de uma visão antropológica da cultura que inclui todas as expressões simbólicas da vida comum.

Este enquadramento explica a suspeita em torno do acolhimento de um novo termo, a "aculturação", inventado nas primeiras décadas do século passado. O termo aparecia num manifesto especializado, redigido por três antropólogos americanos em 1935, na revista "American Antrhopologist": a aculturação reagrupa «o conjunto de fenómenos que resultam de um contacto contínuo e direto entre grupos de indivíduos de culturas diferentes e que conduz a modificações nos modelos culturais iniciais de um dos grupos ou dos dois».

O termo tende para uma aceção negativa: a cultura dominante não aceita a osmose mas procura impor a sua marca àquela que é mais fraca, criando um choque deformador e uma verdadeira forma de colonialismo. A enciclopédia "Europea" apresenta o termo "aculturação", de maneira negativa, como a absorção e a dissolução destrutiva das diversidade étnicas e culturais de certos povos no interior de um único modelo globalizante.

Para tomar um exemplo concreto, pensemos na ideologia eurocentrista que impôs ao "sistema mundo" não somente a sua herança epistemológica, isto é, a sua visão da realidade e o seu método para a elaborar, mas igualmente o seu modelo prático e económico, aparecendo muitas vezes na África e na Ásia como o interface do colonialismo. O cristianismo deixou-se assim arrastar e tornou-se um dos componentes da aculturação.

Compreende-se então o fenómeno de reação de determinados movimentos revivalistas ou de certas formas de etnocentrismo, de nacionalismo, de indigenismo; este fenómeno é tão vigoroso que levou numerosos observadores a transformar a terminologia de "globalização" em "glocalização".

Compreende-se também porque é que a Igreja contemporânea preferiu evitar o termo "aculturação" para descrever a evangelização e o substituiu por "inculturação". No documento "Slavorum apostoli", de 1985, o papa João Paulo II definia a inculturação como sendo «a incarnação do Evangelho nas culturas autóctones, e ao mesmo tempo a introdução dessas culturas na vida da Igreja».

É um duplo movimento de intercâmbio no diálogo graças ao qual, como dizia este mesmo papa aos bispos do Quénia, em 1980, a «cultura, transformada e regenerada pelo Evangelho, produz a partir da sua própria tradição viva expressões originais de vida, de celebração e de pensamento cristãos. O termo "inculturação" desdobra-se antes de tudo ao nível teológico enquanto sinal de compenetração entre o cristianismo e as culturas, através de um intercâmbio fecundo, manifestado com sucesso no encontro entre a teologia cristã dos primeiros séculos e a rica herança clássica greco-romana.

Trata-se da mesma lógica da Incarnação, como o sublinhava o papa. É bem verdade que a mensagem evangélica deve ser o sal, o fermento, a semente, a luz, para retomar metáforas bíblicas; mas mais ainda, é preciso compreender que a Palavra de Deus não é um meteorito caído do céu, um escrinho de teoremas teológicos acabados, uma pedra preciosa fria que tem de ser conservada, mas uma semente que cresceu na "sarx", isto é, na carne da história e da cultura humana.

Pensemos simplesmente no confronto dinâmico entre a Revelação do Antigo Testamento e as diversas civilizações, nómada ou fenícia e cananeia, mesopotâmica ou egípcia, hitita ou persa, ou então greco-helénica; pensemos no confronto ardente entre o cristianismo e o judaísmo palestino e o da diáspora, com a cultura greco-romana, com as suas formas pagãs gnósticas e cultuais.

Em 1979 João Paulo II afirmava diante da Comissão Bíblica Pontifícia que antes mesmo de se fazer carne, «a Palavra divina fez-se linguagem humana, assumindo os modos de expressão das diversas culturas que, desde Abraão até ao Vidente do Apocalipse, ofereceram ao mistério adorável do amor salvífico de Deus a possibilidade de se tornar acessível e compreensível às diferentes gerações, não obstante todas as diversidades das suas situações históricas».

A escolha da inculturação não é uma tática missionária, nem mesmo uma vasta estratégia pastoral; a inculturação faz parte da estrutura da fé cristã. A Revelação bíblica é o fruto da união entre "Lógos" e "sarx", entre a Palavra e a carne, entre o divino e o humano, entre o transcendente e a história, em analogia com o que se realiza em Cristo, Filho de Deus e filho da humanidade.

Certas expressões dos Padres da Igreja aparecem muito menos paradoxais, com aquela da "Primeira apologia" de S. Justino, que afirmava, no séc. II: «Cristo, já o dissemos, é o primogénito de Deus, é o seu Verbo, a sua palavra, na qual todos os homens participam. Ora, todos aqueles que viveram segundo as inspirações deste Verbo são cristãos, ainda que tenham passado por ateus. Assim foram, entre os gregos, Sócrates e Heraclito» (46, 2-3).

Esta inculturação incontornável deve, no entanto, conservar a autenticidade da mensagem, sem a deformar nem a reduzir, arriscando asfixiá-la. O processo de evangelização intercultural é, por isso, necessário, arriscado e delicado.

 

D. (Card.) Gianfranco Ravasi
In "150 questions à la foi"
Trad.: Rui Jorge Martins
Publicado em 19.07.2016

 

 
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É preciso compreender que a Palavra de Deus não é um meteorito caído do céu, um escrinho de teoremas teológicos acabados, uma pedra preciosa fria que tem de ser conservada, mas uma semente que cresceu na "sarx", isto é, na carne da história e da cultura humana
A escolha da inculturação não é uma tática missionária, nem mesmo uma vasta estratégia pastoral; a inculturação faz parte da estrutura da fé cristã. A Revelação bíblica é o fruto da união entre "Lógos" e "sarx", entre a Palavra e a carne, entre o divino e o humano, entre o transcendente e a história, em analogia com o que se realiza em Cristo, Filho de Deus e filho da humanidade
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