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«Acompanhai quem ficou à margem da estrada. Nunca construais muros nem fronteiras», pede papa à Igreja

Imagem © artush/Fotolia

«Acompanhai quem ficou à margem da estrada. Nunca construais muros nem fronteiras», pede papa à Igreja

O papa pediu hoje aos católicos para estarem perto de quem fica «à margem da estrada» e para serem «fermento» de diálogo entre opiniões divergentes, ao mesmo tempo que cultivam a humildade, desinteresse e beatitude, traços que conferem à Igreja o rosto de «mãe».

«Saí para as estradas e ide para as encruzilhadas: todos aqueles que encontrardes, chamai-os, ninguém seja excluído. Sobretudo acompanhai quem ficou à margem da estrada. Onde quer que estejais, nunca construais muros nem fronteiras», afirmou Francisco na catedral de Florença aos representantes do do Congresso Nacional Eclesial da Igreja em Itália.

Para o papa, «dialogar não é negociar»: «Negociar é procurar obter a própria “fatia” do bolo comum. Não é isto que entendo. Mas é procurar o bem comum para todos, discutir em conjunto, pensar nas soluções melhores para todos».

Ainda que «muitas vezes o encontro se veja envolvido em conflito», este não constitui motivo «nem para o temer nem para o ignorar», transformando-o antes «num elo de ligação de um novo processo».

A melhor maneira para dialogar «não é falar, discutir, mas fazer alguma coisa em conjunto, construir em conjunto, fazer projetos»: «Não sozinhos, entre católicos, mas juntamente com todos aqueles que têm boa vontade», apontou.

O 5.º Congresso Eclesial Nacional da Igreja em Itália, que começou na segunda-feira e termina na sexta, é dedicado ao tema “Em Jesus Cristo o novo humanismo”, expressão que levou o papa a realçar os «sentimentos de Cristo».

Começando pela «humildade», Francisco alertou para a obsessão de preservar «a própria glória, a própria “dignidade”, a própria influência»: «Não devemos estar obcecados pelo poder, mesmo quando este toma o rosto de um poder útil e funcional para a imagem social da Igreja».

Aos bispos, apontou que não podem ser «autorreferenciais e pregadores de doutrinas complexas», mas devem centrar-se no “kerygma”, isto é, na proclamação das verdades essenciais da fé, que devem ser testemunhadas por «todo o povo de Deus»: «Não há nada mais sólido, profundo e seguro do que este anúncio».

Outro dos sentimentos de Cristo é o «desinteresse» pelas próprias conveniências, procurando antes as dos outros, com Francisco a lançar novo apelo: «Evitemos, por favor, de nos fecharmos nas estruturas que nos dão uma falsa proteção, nas normas que nos transformam em juízes implacáveis, nos hábitos em que nos sentimos tranquilos».

Por fim, cultivar as bem-aventuranças enquanto «riqueza da solidariedade, de partilhar mesmo o pouco que se possui», nomeadamente com os pobres, que para o papa devem estar mais incluídos socialmente.

As bem-aventuranças passam também pela «riqueza do sacrifício diário de um trabalho, às vezes duro e mal gago, mas realizado por amor pelas pessoas queridas; e também a bem-aventurança das próprias misérias, que todavia, vividas com confiança na providência e na misericórdia de Deus Pai, alimentam uma grandeza humilde».

Depois de alertar para a «tentação» de a Igreja se entregar sem reservas aos «planeamentos abstratos» e às «estruturas», Francisco advertiu para o perigo do gnosticismo, que conduz «a confiar no raciocínio lógico e claro, que contudo perde a ternura da carne do irmão», porquanto a fé do gnóstico está «encerrada no subjetivismo».

«Se a Igreja não assume os sentimentos de Jesus, desorienta-se, perde o sentido. Se os assume, pelo contrário, sabe estar à altura da sua missão. Os sentimentos de Jesus dizem-nos que uma Igreja que pensa em si mesma e nos próprios interesses será triste. As bem-aventuranças são o espelho em que nos devemos olhar, aquele que nos permite saber se estamos a caminhar no sentido certo; é um espelho que não mente», frisou.

Voltando a realçar que «prefere uma Igreja acidentada, ferida e suja» a uma «Igreja doente pelo fechamento e a comodidade de se agrupar nas próprias seguranças», o papa afirmou que não quer «uma Igreja preocupada em ser o centro e que acaba enclausurada num nó de obsessões e procedimentos».

«Gosto de uma Igreja italiana inquieta, cada vez mais próxima dos abandonados, dos esquecidos, dos imperfeitos. Desejo uma Igreja alegre com rosto de mãe, que compreende, acompanha, acaricia. Sonhai também vós esta Igreja, crede nela, inovai com liberdade», encorajou o papa Francisco.

 

Rui Jorge Martins
Publicado em 10.11.2015

 

 
Imagem © artush/Fotolia
As bem-aventuranças passam também pela «riqueza do sacrifício diário de um trabalho, às vezes duro e mal gago, mas realizado por amor pelas pessoas queridas; e também a bem-aventurança das próprias misérias, que todavia, vividas com confiança na providência e na misericórdia de Deus Pai, alimentam uma grandeza humilde»
«Gosto de uma Igreja inquieta, cada vez mais próxima dos abandonados, dos esquecidos, dos imperfeitos. Desejo uma Igreja alegre com rosto de mãe, que compreende, acompanha, acaricia. Sonhai também vós esta Igreja, crede nela, inovai com liberdade»
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