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Abram as portas, não façam exames de perfeição, não sejam mais papistas que o papa, pede Francisco à Igreja

Abram as portas, não façam exames de perfeição, não sejam mais papistas que o papa, pede Francisco à Igreja

Imagem D.R.

«Não sejam portagem. Não podem ser mais restritivos que a própria Igreja nem mais papistas que o papa. Abram as portas, não façam exames de perfeição cristã, porque procedendo assim estais a promover um farisaísmo hipócrita. Faz falta misericórdia ativa», afirmou o papa esta quinta-feira.

Ao receber, no Vaticano, os participantes no congresso do Fórum Internacional da Ação Católica, Francisco sugeriu várias pistas concretas para os leigos e lembrou que «a paixão da Igreja» é viver a doce e reconfortante alegria de evangelizar».

Esta abertura, que passa por «uma Ação Católica mais popular, mais incarnada», vai colocar «problemas, porque vão querer tomar parte da instituição pessoas que aparentemente não estão em condições: famílias em que os pais não estão casados pela Igreja, homens e mulheres com um passado ou presente difícil mas que lutam, jovens desorientados e feridos».

Trata-se de «um desafio à maternidade eclesial da Ação Católica; receber todos e acompanhá-los no caminho da vida com as cruzes que levam às costas».

«Evitem cair na tentação perfecionista da eterna preparação para a missão e das eternas análises, que quando terminam já passaram de moda ou estão desatualizadas. O exemplo é Jesus com os apóstolos: enviava-os com o que tinha», recomendou o papa, que insistiu no abandono do «velho critério: sempre se fez assim».

Francisco quer «uma Ação Católica entre o povo, na paróquia, na diocese, no país, bairro, na família, no estudo e no trabalho, no rural, nos âmbitos próprios da vida», porque é nesses «novos areópagos» que se «tomam decisões e se constrói a cultura».

 

Discurso aos participantes no congresso da Ação Católica
Papa Francisco
27.4.2017

Carisma: recreação à luz da "Evangelii gaudium"

Historicamente, a Ação Católica teve a missão de formar leigos que assumam a sua responsabilidade no mundo. Hoje, concretamente, é a formação de discípulos missionárias. Obrigado por terem assumido decididamente a "Evangelii gaudium" como carta magna. (...)
O apostolado missionário precisa de oração, formação e sacrifício. (...)

Formem: oferecendo um processo de crescimento na fé, um itinerário catequético permanentemente orientado para a missão, adequado a cada realidade, apoiados na Palavra de Deus, para animar a uma feliz amizade com Jesus e à experiência de amor fraterno.

Rezem: nessa santa extroversão que coloca o coração nas necessidades do povo, nas suas angústias, nas suas alegrias. Uma oração que caminhe, que os leve muito longe. Assim evitarão estar a olharem-se continuamente para si mesmos.

Sacrifiquem-se: mas não para se sentirem mais limpos, sacrifício generoso é o que faz bem aos outros. Ofereçam o vosso tempo procurando saber como fazer para que os outros cresçam, ofereçam o que têm nos bolsos, partilhando com os que menos têm, ofereçam sacrificadamente o dom da vocação pessoal para embelezar e fazer crescer a casa comum.

 

Renovar o compromisso evangelizador - "diocesaneidade" - paróquias

(...) É vital renovar e atualizar o compromisso da Ação Católica com a evangelização, chegando a todos, em todos os lugares, em todas as ocasiões, a todas as periferias existenciais, de verdade e não como uma simples formulação de princípios. Isto implica repensar os vossos planos de formação, as vossas formas de apostolado e até a vossa própria oração, para que não sejam essencialmente, nem ocasionalmente, missionários. Abandonar o velho critério: sempre se fez assim. Há coisas que foram realmente muito boas e meritórias, mas que hoje ficariam fora de contexto se as quiséssemos repetir. (...)

A Ação Católica tem de oferecer à Igreja diocesana um laicado maduro que sirva com disponibilidade os projetos pastorais de cada lugar como um modo de realizar a sua vocação. Precisam de se incarnar concretamente.

Não podem ser esses grupos tão universais que não assentam o pé em lado nenhum, que não respondem a nada e andam à procura do que mais lhes agrada de cada lugar.

 

Agentes - Todos sem exceção

Todos os membros da Ação Católica são dinamicamente missionários. As crianças evangelizam as crianças, os jovens os jovens, os adultos os adultos, etc. Nada melhor do que um par para mostrar que é possível viver a alegria da fé.

Evitem cair na tentação perfecionista da eterna preparação para a missão e das eternas análises, que quando terminam já passaram de moda ou estão desatualizadas. O exemplo é Jesus com os apóstolos: enviava-os com o que tinha. Depois voltava a reuni-los e ajudava-os a discernir sobre o que viveram.

Que a realidade vos vá marcando o ritmo e deixem que o Espírito Santo os vá conduzindo. Ele é o mestre interior que vai iluminando o nosso trabalhar quando estamos livres de pressupostos ou condicionamentos. Aprende-se a evangelizar evangelizando, como se aprende a rezar rezando se temos o coração devidamente disposto.

Todos podem missionar ainda que nem todos possam sair para a rua ou para o campo. É muito importante o lugar que dais às pessoas que são membros desde há muito tempo ou que se incorporam. Poder-se-ia dizer: podem ser a secção contemplativa e intercessora dentro das diferentes secções da Ação Católica. Elas são as que podem criar o património de oração e de graça para a missão. O mesmo com os doentes. A sua oração é escutada por Deus com ternura especial. Que todos eles se sintam parte, se descubram ativos e necessários.

 

Destinatários - Todos os homens e todas as periferias

É necessário que a Ação Católica esteja presente no mundo político, empresarial, profissional, não para que se creiam cristãos perfeitos e formados, mas para servir melhor.

É imprescindível que a Ação Católica esteja nas prisões, nos hospitais, na rua, nos bairros degradados, nas fábricas. Se não for assim, vai ser uma instituição de exclusivos que não diz nada a ninguém, nem à própria Igreja.

Quero uma Ação Católica entre o povo, na paróquia, na diocese, no país, bairro, na família, no estudo e no trabalho, no rural, nos âmbitos próprios da vida. Nestes novos areópagos é onde se tomam decisões e se constrói a cultura.

Agilizem os modos de incorporação. Não sejam portagem. Não podem ser mais restritivos que a própria Igreja nem mais papistas que o papa. Abram as portas, não façam exames de perfeição cristã, porque procedendo assim estais a promover um farisaísmo hipócrita. Faz falta misericórdia ativa.

O compromisso que assumem os leigos que se integram na Ação Católica olha para a frente. É a decisão de trabalhar pela construção do Reino. Não é preciso "burocratizar" esta graça particular porque o convite do Senhor vem quando menos o esperamos; tampouco podemos "sacramentalizar" a oficialização com requisitos que respondem a outro âmbito da vida da fé e não ao do compromisso evangelizador. Todos têm direito a ser evangelizadores.

Que a Ação Católica ofereça o espaço de acolhimento e de experiência cristã àqueles que se sentem por motivos pessoais como "cristãos de segunda".

 

Modo - No meio do povo

Dos destinatários depende o modo. Como nos disse o Concílio e rezamos muitas vezes na missa: atentos e partilhando as lutas e esperanças dos homens para mostrar-lhes o caminho da salvação. A Ação Católica não pode estar longe do povo, mas vem do povo e tem de estar no meio do povo. Deveis popularizar a Ação Católica. Esta não é uma questão de imagem, mas de veracidade e de carisma. Também não é demagogia, mas seguir os passos do mestre que não experimentou repugnância por nada.

Para poder seguir este caminho, é bom receber um bairro popular. Partilhar a vida da gente e aprender a descobrir quais os seus interesses e procuras, quais os seus anseios e feridas mais profundas; e o que precisam de nós. Isto é fundamental para não cair na esterilidade de dar respostas a perguntas que ninguém faz. Os modos de evangelizar podem pensar-se num gabinete, mas depois de se ter estado no meio do povo, e não ao contrário.

Uma Ação Católica mais popular, mais incarnada, vai trazer-vos problemas, porque vão querer tomar parte da instituição pessoas que aparentemente não estão em condições: famílias em que os pais não estão casados pela Igreja, homens e mulheres com um passado ou presente difícil mas que lutam, jovens desorientados e feridos. É um desafio à maternidade eclesial da Ação Católica; receber todos e acompanhá-los no caminho da vida com as cruzes que levam às costas.

Todos podem tomar parte a partir do que têm e com o que podem. (...)

Aguçai o olhar para ver os sinais de Deus presentes na realidade, sobretudo nas expressões de religiosidade popular. A partir daí poderão compreender melhor o coração dos homens e descobrirão os modos surpreendentes a partir dos quais Deus atua mais além dos nossos conceitos.

 

Projeto - Ação Católica em saída - Paixão por Cristo, paixão pelo nosso povo

(...) A saída significa abertura, generosidade, encontro com a realidade mais além das quatro paredes da instituição e das paróquias. Isto significa renunciar a controlar demasiadamente as coisas e a programar os resultados. Essa liberdade, que é fruto do Espírito Santo, é a que vos vai fazer crescer.

O projeto evangelizador da Ação Católica tem de passar por estes passos: "primeirar", isto é, tomar a iniciativa, participar, acompanhar, frutificar e festejar. (...) Contagiem a alegria da fé, que se note a alegria de evangelizar em todas a ocasiões, a tempo e fora de tempo.

Não caiam na tentação do estruturalismo. Sejam audazes, não são mais fiéis à Igreja por estarem à espera, a cada passo, que lhes digam o que têm de fazer.

Encorajem os vossos membros a desfrutar da missão corpo a corpo casual ou a partir da ação missionária da comunidade.

Não clericalizem o laicado. Que a aspiração dos vossos membros não seja formar parte do sinédrio das paróquias que rodeiam o pároco, mas a paixão pelo Reino. Mas não se esqueçam de colocar a questão vocacional com seriedade. Escola de santidade que passa necessariamente por descobrir a própria vocação, que não é ser um dirigente ou padre licenciado, mas, sobre todas as coisas, um evangelizador.

Têm de ser lugar de encontro para o resto dos carismas institucionais e movimentos que há na Igreja sem medo de perder a identidade. Além disso, dos vossos membros têm de sair os evangelizadores, catequistas, missionários, trabalhadores sociais que continuarão a fazer crescer a Igreja.

Muitas vezes disse-se que a Ação Católica é o longo braço da hierarquia, e isto, longe de ser uma prerrogativa que faz olhar as pessoas acima do ombro, é uma responsabilidade muito grande que implica fidelidade e coerência ao que a Igreja vai mostrando em cada momento da história sem pretender ancorar-se em formas passadas como se fossem as únicas possíveis. A fidelidade à missão exige essa "boa plasticidade" de quem tem um ouvido no povo e outro em Deus.

Na publicação "A Ação Católica à luz da teologia tomista", de 1937, lê-se: «Por acaso a Ação Católica não deve converter-se em Paixão Católica?». A paixão católica, a paixão da Igreja é viver a doce e reconfortante alegria de evangelizar. Isto é o que precisamos da Ação Católica.



 

SNPC
Fonte: Sala de Imprensa da Santa Sé
Publicado em 30.04.2017

 

 
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