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A voz e a rua

Imagem D.R.

A voz e a rua

No quadro da iniciativa "Escutar a cidade" – promovida por um conjunto de cristãos, grupos e comunidades do Patriarcado de Lisboa –, fui desafiado para escolher uma obra musical que pudesse ser um lugar de convocação para o diálogo que no passado dia 15 de janeiro se inaugurou. Não procurei propriamente uma obra decisiva na história da música europeia, ou uma obra fortemente representativa dos idiomas musicais que proliferam na nossa atualidade. Procurei uma obra simples na sua transparência, direta na sua forma de comunicar e capaz de contar uma história. Uma obra que pudesse ser o lugar dessa metáfora da escuta, da atenção à voz do outro (a voz é, talvez, o que de mais interior tem a cidade).

Oriundo do mundo do jazz, o contrabaixista Gavin Bryars desenvolveu uma carreira de compositor com muitas singularidades. Por vezes é associado às correntes minimalistas americanas, mas a sua obra, estabelecendo pontes com diversos mundos, resiste à condensação numa etiqueta. A sua carreira está, no entanto, marcada pelo sulco de uma obra inesperada. Em 1971, Gavin Bryars trabalhava, no domínio da sonoplastia, num filme de Alan Power sobre os sem-abrigo que circulavam nas imediações de uma estação londrina. Entre as diversas gravações que realizou, um fragmento se impôs. Tratava-se do registo de um homem idoso, na rua, a entoar uma canção religiosa. Traduzindo de forma livre, o homem canta: «O sangue de Cristo nunca me falhou… uma coisa sei, Ele ama-me muito». Gavin Bryars começou por experimentar a improvisação ao piano sobre a melopeia do velho homem e reparou que a canção, na voz que lhe dá corpo, se revelava invariavelmente penetrante nos auditórios.

Tratava-se de um canto que vinha da rua, conservado na sua crueza, transportando o seu ruído, mas que, na orquestração mutante de Gavin Bryars, se vai transfigurar. Em "Jesus’ blood never failed me yet", o que mais impressiona não é o exercício de orquestração (nas versões mais longas o compositor faz largas dezenas de orquestrações diferentes desta sequência). O que se pode revelar mais cativante consiste talvez nessa direção que a obra toma, optando por permanecer, a cada repetição, com uma orquestração cada vez mais sofisticada, na centralidade desta voz que vem da rua. No último quarto da obra, na versão que nesta página se recolhe, junta-se a voz de um cantor profissional, Tom Waits, que nos transporta para uma sonoridade perturbante e subterrânea, abrindo a possibilidade de novos contrastes. Mas a voz anónima da rua continua lá, estática e extática. A voz não vem de um concurso de talentos, não corresponde a estereótipos comerciais, nem aos padrões de beleza mais reconhecidos. O paradoxo de uma voz banal, frágil, que transporta uma narrativa cristã de confiança, em tensão com a própria situação social do cantor, é o arco de significados que desafia o trabalho criativo do compositor.

A escuta desta obra de Gavin Bryars, neste contexto, tornou presente a memória das minhas leituras da obra de José Machado Pais sobre a solidão ("Nos rastos da solidão: deambulações sociológicas", Porto, Ambar, 2006). Num dos capítulos, o sociólogo procura compreender a solidão de um sem-abrigo, o José, que tinha encontrado numa igreja da cidade, e na comunidade que a frequentava, um contexto privilegiado de restabelecimento de alguns laços sociais. José fala da solidão enquanto falta de reconhecimento:

«Olha o Zé das barbas! Eu não me importo! O que quero é que me chamem José! E que não me chamem sacana! Quando me chamam José, o meu nome, eu até sinto o meu coração a vibrar de alegria. Tenho a maior consideração por quem chama por meu nome»(pág. 239).

Uma particular atenção às vozes que emergem destas zonas de submodernidade – os sons deste lado B da história – não pode deixar de ser uma competência que se exige às comunidades cristãs. Os cristãos, no contexto das trajetórias de evangelização e comunitarização, no mundo helenizado e romanizado, não usaram uma língua sagrada, procuram antes a língua comum, aquela que permitia a tradução do Evangelho que anunciam e o diálogo com a civilidade da vida corrente; os termos usados para identificar aqueles que presidiam às comunidades, ou aqueles a quem se reconhece uma particular autoridade, não faziam parte da semântica do poder, pertencem antes ao léxico do serviço; prega-se a mensagem de um messias crucificado, e o Deus que nele se revelou, em tensão com as imagens de poder dos deuses dos impérios e das cidades; uma das primeiras categorias de autorrepresentação dos cristãos, a de «estrangeiro domiciliado», apela à compreensão da vida cristã como uma forma de cidadania partilhada. No contexto desta memória, a voz crística da rua não pode deixar de ser escutada na sua particular eloquência.

"Jesus’ blood never failed me yet" tornou-se um dos grandes sucessos da carreira de Gavin Bryars – talvez o maior. Quando o compositor procurou, de novo, este homem, após as primeiras experiências musicais, descobriu que ele tinha falecido. Morreu sem conhecer o destino criativo do seu canto.



 

Alfredo Teixeira
Faculdade de Teologia da Universidade Católica Portuguesa
Publicado em 29.01.2015

 

 
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A voz não vem de um concurso de talentos, não corresponde a estereótipos comerciais, nem aos padrões de beleza mais reconhecidos. O paradoxo de uma voz banal, frágil, que transporta uma narrativa cristã de confiança, em tensão com a própria situação social do cantor, é o arco de significados que desafia o trabalho criativo do compositor
Uma das primeiras categorias de autorrepresentação dos cristãos, a de «estrangeiro domiciliado», apela à compreensão da vida cristã como uma forma de cidadania partilhada. No contexto desta memória, a voz crística da rua não pode deixar de ser escutada na sua particular eloquência
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