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A vida como culto, como cultura e como cultivo

Imagem Flores | © Tony Mendoza

A vida como culto, como cultura e como cultivo

O que verdadeiramente conta é a pergunta sobre a virgindade espiritual, sobre a pureza de coração ou sobre a inocência primordial; todas as outras perguntas são falsas, são falsos problemas.

Vivemos vidas que não são nossas; respondemos a perguntas que ninguém fez; queixamo-nos de doenças de que não padecemos; aspiramos a ideais alheios e sonhamos os sonhos dos outros. Não há exagero, é mesmo assim: quase todos os nossos projetos de felicidade são quiméricos. As ideias que afirmamos acariciar não são nossas; as nossas aspirações são as dos nossos pais e até nos apaixonamos por pessoas de quem, na verdade, não gostamos. O que nos terá acontecido para sucumbirmos diante desta impostura? Ando atrás de alguma coisa que, no fundo, não desejo. Luto por algo que me é indiferente. Possuo uma casa que é permutável com a do vizinho. Faço uma viagem e não vejo nada. Vou para férias e não descanso. Leio um livro e de nada me inteiro. Ouço uma frase e sou incapaz de repeti-la. Como é possível que não me comova diante de um necessitado, que não responda quando me perguntam, que olhe sempre para o outro lado e não esteja onde de facto estou?

Diante desta situação absurda, vou deter-me, vou pensar, respirar e, se possível, nascer uma segunda vez. Não estou disposto a não dançar quando ouvir a flauta, ou a não comer quando me oferecem um manjar, ou a armazenar para amanhã quando há quem não tenha para hoje. Também não estou disposto a pensar que sou o centro do mundo, nem a supor que o meu é o melhor, nem a martirizar-me com problemas diminutos ou dores imaginárias. É lamentável ter chegado a este ponto de inconsciência, de idiotice, a este ponto de insensibilidade, a este extremo de avareza, de soberba, de preguiça... O mundo não é um pastel que eu tenha de comer. O outro não é um objeto que eu posso utilizar. A Terra não é um planeta preparado para que eu o expluda. Eu não sou um monstro de predador.

Por isso, decidi pôr-me de pé e abrir os olhos. Decidi comer e beber com moderação, dormir o necessário, escrever unicamente o que possa contribuir para tornar melhor quem o ler; abster-me da cobiça e nunca me comparar com os meus semelhantes. Também decidi regar as minhas plantas e cuidar de um animal. Visitarei os doentes, conversarei com os solitários e não deixarei passar muito tempo sem brincar com uma criança. De igual modo, decidi rezar as minhas orações todos os dias, prostrar-me algumas vezes diante do que considero sagrado, celebrar a Eucaristia: escutar a Palavra, partir o pão, repartir o vinho e dar a paz. Cantar em uníssono. E passear, o que para mim é fundamental. E acender a lareira, o que também é fundamental. E fazer as compras sem pressa; saudar os vizinhos, mesmo que não goste da sua cara; fazer um diário; telefonar regularmente aos meus amigos e irmãos. E fazer excursões e tomar banho no mar pelo menos uma vez por ano, e só ler bons livros ou reler aqueles de que gostei.

A meditação – ou deveria dizer, simplesmente, a maturidade? – ensinou-me a apreciar o comum, o elementar. Por isso, viverei a ética da atenção e do cuidado. E, assim, chegarei a uma velhice feliz, de onde contemplarei, simultaneamente humilde e orgulhoso, o pequeno e grande horto que cultivei. A vida como culto, como cultura e como cultivo.

 

Pablo D'Ors
In "A biografia do silêncio", ed. Paulinas
Publicado em 30.03.2015

 

 
Imagem Flores | © Tony Mendoza
É lamentável ter chegado a este ponto de inconsciência, de idiotice, a este ponto de insensibilidade, a este extremo de avareza, de soberba, de preguiça... O mundo não é um pastel que eu tenha de comer. O outro não é um objeto que eu posso utilizar
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