Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura - Logótipo
secretariado nacional da
pastoral da cultura
Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura - Logótipo
secretariado nacional da
pastoral da cultura

«A única coisa que a arte blasfema faz é reconhecer que a herança cristã é forte», diz responsável do Vaticano para a cultura

Imagem Salamanca, Espanha | © Javier Castro/Fotolia

«A única coisa que a arte blasfema faz é reconhecer que a herança cristã é forte», diz responsável do Vaticano para a cultura

O presidente do Conselho Pontifício da Cultura, considera que «o diálogo com o mundo fundamentalista é impossível» e critica quem tira «crucifixos das paredes e todos os sinais que construíram a cultura europeia», vincando que essa «secularização celebra a natureza, mas não a cultura».

Em entrevista publicada este sábado no jornal espanhol "La Razón", o cardeal Gianfranco Ravasi, afirma que a maior dificuldade encontrada pelo Átrio dos Gentios, plataforma da Igreja para o diálogo entre crentes e não crentes que recentemente co-organizou vários encontros em Madrid e Salamanca, é a «indiferença» generalizada que caracteriza o Ocidente em relação a Deus.

O prelado, considerado pelo vaticanista John Allen como «o homem mais interessante da Igreja», pronuncia-se igualmente sobre a «arte blasfema», fala da «mitologia» associada às notícias sobre a saúde do papa e revela que a reforma da Cúria do Vaticano está a evoluir mais devagar do que Francisco desejaria.

 

Qual é a situação atual do Átrio dos Gentios?

É muito rica porque se está a estender a todo o mundo, exceto na Ásia e África. Nestes dois continentes a negação de Deus ou a laicidade são questões muito raras. Com efeito, é um problema ocidental, ainda que, no futuro, também o será para esses territórios. O mundo muçulmano também não tem hoje uma necessidade de diálogo com os não crentes, dado que nas suas sociedades não há separação entre fé e sociedade, entre política e religião. Por isso o Átrio dos Gentios é uma experiência ocidental, onde a dificuldade maior atualmente é a indiferença, porque esta não se coloca nenhum problema e, por isso, não tem necessidade de dialogar.

 

Este diálogo inclui o que se mantém com outras religiões?

É difícil, mas em alguns casos também fazemos diálogo inter-religioso; em Estocolmo, por exemplo, onde há muçulmanos de segunda geração que vivem em ambientes muito secularizados. O nosso desafio era levar o Átrio dos Gentios a Jerusalém, lugar importante para as três grandes religiões - cristianismo, judaísmo e islão -, mas por agora não frutificou. Em todo o caso, gostaria de sublinhar que o cristianismo é, das religiões, a que mais tem no seu coração a secularidade. Recordemos as palavras de Jesus: dai a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus.

 

É possível dialogar com posturas fundamentalistas? Vivemos tempos em que os terroristas usam o islão para matar outros...

Para o fundamentalismo o diálogo não existem, porque o recusam. Para eles, é uma traição da própria identidade. E isto vale também para qualquer movimento deste tipo, não só muçulmano como também budista ou cristão. A raiz encontra-se em que não aceitam a possibilidade de que existe um componente de verdade em todas as religiões. Portanto, o diálogo com o mundo fundamentalista é impossível. Cometeram-se tantos abusos em nome de Deus... E o fundamentalismo usa a religião, não a alma da verdadeira religião. Também é importante que não se confunda o fundamentalismo e a sua mensagem com o testemunho das religiões que instrumentalizam.

 

Em Espanha alguns presidentes de Câmara querem apagar toda a herança cristã. Há também um fundamentalismo laico?

Apelam ao respeito, mas este não se obtém fazendo tábua rasa, tirando crucifixos das paredes e todos os sinais que construíram a cultura europeia, fundada no cristianismo. Não se pode reduzir a zero todo este legado. Esta secularização celebra a natureza, mas não a cultura.

 

Também há pessoas, algumas que se chamam artistas, que atentam inclusivamente contra esta herança e contra estes sentimentos. Tivemos um caso recente em Pamplona. Qual é a sua opinião?

A única coisa que a arte blasfema faz é reconhecer que a herança cristã é forte, tão forte que deve ser golpeada. Quem faz algo assim contra a cultura grega? Ninguém, porque ainda que exista, hoje não é relevante. Em contrapartida, o cristianismo é ofensivo e provocador para muitos, e por isso atacam-no com elementos blasfemos.

 

Como membro da Cúria Romana, como vê o papa? Publicou-se, inclusivamente, que tem problemas de saúde...

Isso faz parte da mitologia e tem que ver também com forças internas e externas à Igreja, às quais Francisco e as suas reformas incomoda e aborrece. É um líder religioso, considerado como o referente do mundo de hoje mais importante, o homem mais escutado, e agora introduzem-se elementos, como o escândalo conhecido como "Vatileaks 2", que não ajudam o papa.

 

Também recebeu muitas críticas pelas suas atitudes contra a situação económica atual. É celebra a sua frase: «Esta economia mata».

Sim, mas as considerações que fez a esse respeito são partilhadas por outros economistas, inclusive prémios Novel, que fazem uma crítica do dogma absoluto das finanças, do mercado. O que o papa faz é uma formulação pastoral, não uma crítica técnica. O que pede é que a economia recupere a sua verdadeira identidade e volte a ser uma ciência humanista que ajuda a apoiar a humanidade, não a destruí-la como temos visto com a crise financeira.

 

Como vai a reforma da Cúria?

Muito lenta. Está a trabalhar-se na integração de alguns organismos, mas as estruturas têm séculos de história, são complexas e nelas há pessoas que mostram resistências às mudanças. O papa Francisco esperava realizar a reforma com maior celeridade, mas está muito lenta. Mas a ideia mantém-se e é necessária, porque há uma estrutura paquidérmica e os escândalos atuais demonstram que há coisas a mudar.

 

In "La Razòn"
Trad. / edição: Rui Jorge Martins
Publicado em 06.12.2015

 

 
Imagem Salamanca, Espanha | © Javier Castro/Fotolia
O nosso desafio era levar o Átrio dos Gentios a Jerusalém, lugar importante para as três grandes religiões - cristianismo, judaísmo e islão -, mas por agora não frutificou
Para o fundamentalismo o diálogo não existem, porque o recusam. Para eles, é uma traição da própria identidade. E isto vale também para qualquer movimento deste tipo, não só muçulmano como também budista ou cristão. A raiz encontra-se em que não aceitam a possibilidade de que existe um componente de verdade em todas as religiões
Está a trabalhar-se na integração de alguns organismos, mas as estruturas têm séculos de história, são complexas e nelas há pessoas que mostram resistências às mudanças
Relacionados
Destaque
Pastoral da Cultura
Vemos, ouvimos e lemos
Perspetivas
Papa Francisco
Teologia e beleza
Impressão digital
Pedras angulares
Paisagens
Umbrais
Evangelho
Vídeos