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A sustentabilidade cristã: Da Bíblia à ONU, das tradições grega e árabe aos papas Bento XVI e Francisco

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A sustentabilidade cristã: Da Bíblia à ONU, das tradições grega e árabe aos papas Bento XVI e Francisco

É um vocábulo que se tornou quase um sinal dos nossos dias, até se transformar, infelizmente, num estereótipo que enche as bocas mas deixa indiferentes as mãos e, por conseguinte, o compromisso. Estamos a falar da denominada sustentabilidade, um termo frequentemente repetido e declinado de várias formas, e que, todavia, regista, opostamente, um elemento por vezes dramático, o da exploração insensata e egoísta dos bens que Deus destinou universalmente à humanidade, que, em vez disso, são açambarcados só por alguns ou desperdiçados insensatamente (pense-se apenas na água!) ou maltratados através do envenenamento e da devastação ambiental. Precisamente na abertura da Bíblia, nas páginas dedicadas à criação, há duas asserções fundamentais.

A primeira é aquela que - diferentemente da cultura grega - reconhece o relevo que a materialidade tem também para a criatura humana: «O Senhor Deus plasmou o homem com pó do solo e soprou nas suas narinas um hálito de vida, e assim ele tornou-se um ser vivente» (Génesis 2,7). No fim da sua existência, o homem «regressa ao pó da terra e o sopro vital regressa a Deus, que o deu» (Qohélet 12,7), «pois dele foste tirado: és pó e ao pó voltarás» (Génesis 3,19). Entre a Terra e a humanidade há, portanto, uma radical irmandade, uma parentela estreita que, no entanto, reiteradamente esquecemos e violamos.

A segunda asserção indica outro aspeto que nos distingue da materialidade. O Criador, com efeito, impõe este compromisso ao homem e à mulher: «Sede fecundos e multiplicai-vos, enchei a Terra e sujeitai-a, dominai sobre os peixes do mar, os pássaros do céu e sobre todo o ser vivente que se move sobre a Terra» (Génesis 1,28). A criatura humana recebe de Deus uma dignidade de soberania delegada sobre o criado. Na realidade, os dois verbos hebraicos usados contêm um significado mais atenuado e até sugestivo: "kabash" - "subjugar" remete originariamente para o estabelecimento num território que deve ser explorado e conquistado, enquanto que "radah" - "dominar" é o verbo do pastor que guia o seu rebanho. Trata-se, é verdade, de um primado, que infelizmente o homem exercitou muitas vezes de um modo tirânico, e não como uma tarefa, especificada por um posterior ditame do Criador, assim formulado: «O Senhor Deus tomou o homem e colocou-o no jardim do Éden para que o cultivasse e guardasse» (Génesis 2,15).

É interessante notar também neste caso que a atividade própria da humanidade se expressa com dois verbos hebraicos - "'abad" e "shamar" - que contêm um duplo significado. O primeiro é o explícito de operar, transformar, investigar e tutelar as potencialidades da natureza através da atividade laboral e científica. O segundo aspeto está no facto de os dois verbos indicarem também o "servir" cultual e o "observar" a lei divina, duas componentes fundamentais da aliança entre o Senhor e Israel. Há, por isso, uma espécie de aliança primária "natural" entre o Criador e a humanidade que se exprime na tutela e na transformação do criado. Um pacto que muitas vezes o homem infringe, devastando e ocupando brutalmente a Terra.

É sugestiva uma parábola árabe que se move precisamente nesta linha: «No início o mundo era um jardim florido. Deus, criando o homem, disse-lhe: de cada vez que cometeres uma má ação, farei cair sobre a Terra um grão de areia. Os homens não fizeram caso. O que significaria cem, mil grãos de areia num imenso jardim florido? Os anos passaram e os pecados dos homens aumentavam; torrente de areia invadiram o mundo. Nasciam assim os desertos, que de dia para dia se tornaram cada vez maiores. E Deus continua ainda hoje a advertir os homens, dizendo-lhes: não reduzais o meu jardim florido a um imenso deserto!».

Esta amarga parábola descreve de maneira iluminadora a crise do planeta. Por fortuna, uma explosão de arrependimento e remorso está a emergir precisamente sob os termos de ecologia e sustentabilidade, temas que foram finalmente colocados na agenda não só pela Igreja, através da encíclica "Caritas in veritate", de Bento XI, e "Laudato si'", do papa Francisco, mas também pelos Estados, organismos internacionais e pelas próprias estruturas económicas.

Na metade dos anos 70, através de um relatório do então Secretário-Geral da ONU, Dag Hammarskjöld, começou a submeter-se à crítica o modelo de desenvolvimento dominante. Foi, contudo, apenas em 1987 que a Comissão Mundial sobre o Ambiente e o Desenvolvimento", conhecida como "Comissão Brundtland", definiu de modo claro e amplo o conceito e o programa de desenvolvimento sustentável como «processo de mudança pelo qual a exploração dos recursos, a direção dos investimentos, a orientação do desenvolvimento tecnológico e as mudanças institucionais sejam coerentes com as necessidade futuras, e não só com as atuais». Nesse texto introduziam-se igualmente elementos éticos e sociais para uma «efetiva participação dos cidadãos no processo de decisão e uma maior democracia a nível das escolhas internacionais», para que se possam «satisfazer as necessidades fundamentais de todos e a todos estender a possibilidade de realizar as próprias aspirações a uma vida melhor».

Nesta linha, em dezembro de 2002, a assembleia-geral da ONU proclamou o arco 2005-2014 como a "Década da educação para o desenvolvimento sustentável". Fundamental - a nível sociocultural geral - é fazer compreender que a sustentabilidade é um dos direitos humanos capitais. É sabido, com efeito, que atualmente é habitual elencar quatro "gerações" de direitos. Os direitos da "primeira geração" são os civis e políticos (vida, dignidade pessoal, liberdade). Direitos de "segunda  geração" são os económicos, sociais, culturais, descritos na Declaração Universal dos Direitos do Homem (1948), como saúde, trabalho e instrução, entre outros. De "terceira geração" são os direitos de solidariedade respeitantes sobretudo às questões mais vulneráveis: paz, equilíbrio ecológico, defesa ambiental e dos recursos nacionais, autodeterminação dos povos. Por fim, à "quarta geração" pertencem os novos direitos relativos ao campo das manipulações genéticas, da bioética e das novas tecnologias de comunicação.

É, portanto, importante enquadrar a sustentabilidade no horizonte mais vasto da dignidade humana, da moral social e dos próprios princípios religiosos. É isto que é sublinhado frequentemente na encíclica "Laudato si'", que pelo menos uma dúzia de vezes utiliza a terminologia «sustentável/sustentabilidade». O papa Francisco fá-lo partindo da Carta da Terra, promulgada em Haia a 29 de junho de 2000: «Como nunca antes de agora na história, o destino comum obriga-nos a procurar um novo início [...]. Possa a nossa época ser recordada pelo despertar de um novo respeito pela vida, pela resolução no atingir a sustentabilidade, pela aceleração da luta pela justiça e pela paz, e pela jubilosa celebração da vida». Por isso «o desafio urgente de proteger a nossa casa comum compreende a preocupação de unir toda a família humana na procura de um desenvolvimento sustentável e integral».

O papa está certamente consciente dos riscos que o uso previsível e habitual do termo «sustentabilidade»,  como já sublinhámos na abertura, e o próprio «discurso do crescimento sustentável se pode tornar muitas vezes um diversivo e u meio de justificação que absorve valores do discurso ecologista dentro da lógica da finança e da tecnocracia» (n. 194). Por isso é necessário solicitar «uma criatividade capaz de fazer florir novamente a nobreza do ser humano, «porque é mais dignificante usar a inteligência, com audácia e responsabilidade, para encontrar formas de desenvolvimento sustentável e equitativo, no quadro duma concepção mais ampla da qualidade de vida» (n. 192).

Começámos com a visão genesíaca da criação; relemo-la também através da conceção muçulmana e introduzimos o compromisso que a Igreja católica propõe aos cristãos e também a todos os homens de boa vontade. Concluamos esta consideração essencial sobre o nexo entre ética, teologia e sustentabilidade com uma parábola moderna que é evocada pelo filósofo Martin Heidegger numa das suas obras mais relevantes, "Ser e tempo" (1927). Ela é a recriação livre de elementos míticos gregos. A protagonista é uma deusa de nome emblemático "Cura", sinónimo do nosso vocábulo «sustentabilidade».

Atravessando um rio, ela tomou lama da margem e plasmou uma figura humana. Júpiter infunde-lhe o espírito e torna-a uma criatura vivente. Cura e Júpiter envolvem-se numa discussão sobre quem tem o direito de impor o nome e, portanto, o direito de propriedade sobre a pessoa humana. Aqui chegados, também a deusa Terra reclamou o seu poder, já que dela aquele ser tinha sido extraído. Os três recorreram a Saturno, o deus juiz, que emite esta sentença: «Tu, Júpiter, que deste o espírito, no momento da morte receberás o espírito. Tu, Terra, que deste o corpo, receberás o corpo. Mas até que a criatura humana viva, será sob a tutela e a jurisdição de Cura». Eis porque a sustentabilidade deve ser uma espécie de grande protetora que vela sobre a humanidade, sobre a sua história e sobre a sua evolução.

 

Card. Gianfranco Ravasi
Presidente do Conselho Pontifício da Cultura
In "Il Sole 24 Ore"
Intervenção na Universidade Católica do Rio de Janeiro, 8.4.2016, Átrio do Encontro
Trad.: Rui Jorge Martins
Publicado em 18.04.2016

 

 
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«No início o mundo era um jardim florido. Deus, criando o homem, disse-lhe: de cada vez que cometeres uma má ação, farei cair sobre a Terra um grão de areia. Os homens não fizeram caso. O que significaria cem, mil grãos de areia num imenso jardim florido?»
É importante enquadrar a sustentabilidade no horizonte mais vasto da dignidade humana, da moral social e dos próprios princípios religiosos. É isto que é sublinhado frequentemente na encíclica "Laudato si'", que pelo menos uma dúzia de vezes utiliza a terminologia «sustentável/sustentabilidade»
«Possa a nossa época ser recordada pelo despertar de um novo respeito pela vida, pela resolução no atingir a sustentabilidade, pela aceleração da luta pela justiça e pela paz, e pela jubilosa celebração da vida»
«Tu, Júpiter, que deste o espírito, no momento da morte receberás o espírito. Tu, Terra, que deste o corpo, receberás o corpo. Mas até que a criatura humana viva, será sob a tutela e a jurisdição de Cura»
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