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A Sistina e o belo: Palavras, formas e cores resplandecem na capela mais admirada do cristianismo

Mons. Timothy Verdon, professor de História da Arte na universidade norte-americana de Stanford e diretor do Museu da Opera del Duomo, em Florença, é o autor do recente livro "La cappella Sistina. Cuore e simbolo della Chiesa" (A capela Sistina. Coração e símbolo da Igreja), publicado pelos Museus do Vaticano - Libreria Editrice Vaticana.

São quatro volumes, enriquecidos por um extraordinário aparato iconográfico, que constituem um trabalho único dentro da vastíssima produção de estudos dedicados à capela mais conhecida e admirada do cristianismo.

Não se trata de livros de história da arte, pelo menos em sentido estrito: a par de um amplo e preciso comentário das imagens, propõem as fontes bíblicas dos programas dos frescos, concentrando a atenção na Palavra de Deus.

«Muitos escreveram sobre a capela investigando as fontes iconográficas, mas, embora a Palavra de Deus seja o ponto de partida da Sistina, ninguém, até hoje, tinha tomado em consideração e sublinhado com extensas citações quer os textos bíblicos ilustrados com grandíssima precisão pelos frescos, quer as referências aos trechos relacionados.

Esta atenção reservada à Palavra de Deus quer colocar o leitor moderno, frequentemente pouco familiar do conhecimento bíblico, em posição de compreender imagens originalmente concebidas por especialistas da Sagrada Escritura, homens que conheciam bem o texto bíblico e que também eram versados nos comentários que a tradição milenar tinha elaborado», sublinha o autor.



Imagem "Criação de Adão" (det.) | Miguel Ângelo | Capela Sistina, Vaticano | D.R.

Afirma que o "Juízo universal" de Miguel Ângelo quer antecipar a beleza da humanidade salva em Cristo. É também essa a mensagem de toda a capela Sistina?

Sim. Na capela existem quatro grandes programas imagens realizadas entre 1480 e 1540: cada um destes programas foi pensado em tempos diferentes, por diferentes humanistas e diferentes papas, mas cada um é inteiramente baseado na Bíblia e surge em estreita coerência com os outros.

A Sistina é um caso quase único na história da arte cristã, quer pela vastidão da superfície pintada com temas bíblicos, quer porque mostra um projeto que toma forma gradualmente, ao longo do tempo, e mostra-se como unitário.

Na capela desvela-se toda a história da salvação. E o fulcro é Cristo: é Ele que explica a comparação entre o Antigo e o Novo Testamento nos frescos de 1400, que os liga ao Génesis ao Juízo Final, porque nele o Pai revela o mistério de um plano salvífico que ele se desdobra através dos milénios, cujo objetivo é precisamente reconduzir todas as coisas no Céu e na Terra a Ele, Cristo, como única cabeça.

O Cristo do "Juízo universal", jovem e belo, juiz da história, é o ponto único de convergência dos acontecimentos narrados nos outros frescos da capela.

Na Sistina o papado está ao serviço do amor misericordioso de Deus: o homem pecador precisa do perdão de Deus e a capela mostra o papado como a instituição através da qual chega à humanidade o perdão que Cristo deu a Pedro e aos seus sucessores as chaves.

Numa época em que a autoridade papal era colocada em forte discussão dentro da Igreja, na qual muitos esperavam um governo colegial da Igreja através de um conselho permanente dos bispos, os vários papas - patronos dos frescos - quiseram que nas pinturas fosse destacado o primado petrino.



Imagem "Entrega das chaves" (det.) | Pietro Vannucci, dito Perugino | Capela Sistina, Vaticano | D.R.

Em que frescos esse propósito aparece com maior evidência?

Na Sistina, onde é realizada uma leitura altamente eclesial e especificamente papal dos textos bíblicos, são particularmente exemplares duas obras: a primeiro é o "Castigo de Coré, Datan e Abiram", de Sandro Botticelli, que ilustra a revolta contra Moisés e Aarão encabeçada por três levitas (Coré, Datãn e Abiram).

O episódio diz respeito à tentativa de alguns ministros menores de se apoderarem das funções e prerrogativas do sumo sacerdote e da recusa de Deus de ser servido por pessoas não escolhidas por Ele.

Sobre o arco triunfal por trás dos personagens está uma inscrição em latim (que faz referência à Carta aos Hebreus), escrita em letras douradas: «Ninguém atribua a si próprio a honra, se não é chamdo por Deus, como foi Aarão?.

Além da assinatura de Perugino sob o "Batismo de Jesus" e os títulos na cornija sobre os frescos, estas são as únicas palavras escritas em todo o programa da capela. A inscrição pretende ser um aviso explícito dirigido a quantos questionaram a autoridade do papa.

A segunda obra, que não por acaso se encontra precisamente diante da de Botticelli, é a "Entrega das chaves", de Perugino. Trata-se do momento narrado em Mateus 16, no qual o Salvador diz ao apóstolo: «Tu és Pedro e sobre esta pedra edificarei a minha igreja, e os poderes dos infernos não prevalecerão sobre ela. A ti darei as chaves do Reino dos Céus: tudo o que ligares na Terra será ligado, e tudo o que desligares na Terra será desligado».

Com estas duas obras é defendida a autoridade do papa e reafirmada de forma inequívoca: é a Pedro e aos seus sucessores que Cristo entregou as chaves do perdão: ninguém assuma para si esta honra se não for chamado por Deus.

 

O perdão dos pecados também é central no fresco de Miguel Ângelo, pintado entre 1508 e 1512.

Com certeza. Localizado no centro da parede oeste, destaca, precisamente sobre o altar, a imponente figura do profeta Jonas, que - recordemos - não conseguia aceitar a misericórdia do Senhor para os habitantes de Nínive.

O profeta pintado por Buonarroti, com movimento emprestado do "Laocoonte", contorce-se para olhar para trás, atónito: vê o Criador no início da criação e, olhando, compreende que o Senhor é o autor de todas as coisas, e precisamente como autor não suporta perder a maravilhosa obra das suas mãos.

Jonas compreende que, desde o início do mundo, o prpósito do Criador foi salvar todas as suas criaturas. Compreende a bondade e a misericórdia do Senhor. Criação e redenção são fases inseparavelmente interconectadas.

As imagens do "Juízo universal" (em que a figura de Cristo é o homem perfeito descrito na Bíblia), bem como as imagens de todo a Sistina quer mostrar-nos como devemos e podemos ser: a beleza dos frescos é uma antecipação da nossa beleza, a beleza do homem perdoado que encontra nova vida em Cristo.



Imagem "Criação de Adão" (det.) | Miguel Ângelo | Capela Sistina, Vaticano | D.R.

A beleza do ser humano aparece ao princípio na "Criação de Adão" e na "Criação de Eva".

Observando a "Criação de Adão" não pode deixar de se notar que o corpo do homem, de extraordinária força e poder, reflete com precisão o corpo de Deus, coberto de vestes. Adão tem a mesma constituição do seu Criador, é literalmente «à imagem e semelhança de Deus».

E o olhar que passa entre o homem e Deus é repleto de inteligência, mas também e sobretudo de amor. Onde Deus dirige a Adão um olhar de amor infinito, Adão também dirige a Deus um olhar de infinito "desejo" (e a mesma dinâmica de amor aparece na "Criação de Eva").

Podemos, portanto, colher um carácter especular, apesar da distinção das condições: Deus permanece Deus e o homem continua sendo homem, mas é um homem belo como Deus é belo.

 

Que significado reveste a grande multidão de corpos, de carne, que enche o "Juízo universal"?

Esse conjunto de corpos nus e musculosos, que foi motivo de escândalo, deve-se muito provavelmente ao facto de Miguel Ângelo ter tido possibilidade de estudar, talvez graças à oferta, por parte do próprio papa, de uma medalha cunhada no séc. XIII por Bertolo di Giovanni em honra de um bispo Família Médici.

De um lado da medalha está uma imagem do julgamento na qual se vê Cristo no céu, de torso nu, rodeado de anjos que ostentam os instrumentos da Paixão e outros que tocam trombetas, enquanto que em baixo os mortos, todos nus, são ajudados pelos anjos a sair dos sepulcros.

A outra face da medalha mostra uma inscrição - "Et in mea carne videbo Salvatorem Deum meum" (E eu, na minha carne verei Deus, meu Salvador): "in carne mea" é uma expressão exytaída do livro de Job tal como aparece na Vulgata.

Hoje os biblistas dão uma leitura diferente do texto hebraico, mas nos tempos de Miguel Ângeli usava-se ainda a tradução "in carne mea", de S. Jerónimo.

Miguel Ângelo, baseando-se nesta medalha e na sua composição, mostra o homem que, com todo o seu ser, com a sua carne, não só com o seu espírito, verá o Salvador.

Com aquele emaranhado de corpos, de carne nua, o "Juízo" proclama a verdade da ressurreição da carne. Se o objetivo da Sistina é mostrar a beleza do ser humano purificado, perdoado dos seus pecados, então tudo isso deverá manifestar-se um dia na jubilosa ressurreição do ser humano total.

 

«A maior parte das imagens da capela "traduzem" os conteúdo de textos específicos da Bíblia. Mas as imagens, como toda a forma de tradução, acrescentam algo», escreve no seu livro. As imagens não têm carácter acessório, ornamental, não se limitam a acender emoções epidérmicas.

No cristianismo, a imagem possui uma importância infinitamente maior do que a atribuída por outras religiões históricas, nas quais desempenha uma função exclusivamente narrativa e instrutiva.

No cristianismo, a imagem vai ao próprio coração da fé: as palavras acompanham-nos enquanto estamos nesta vida, no mundo que conhecemos, mas quando o mundo acabar e nos encontrarmos juntos diante do Senhor, não haverá mais Escrituras. O cristianismo concebeu a eternidade como uma visão beatífica. A imagem que já traduz a Palavra em visão antecipa, de certa forma, a experiência definitiva.

No prólogo do Evangelho segundo João, lê-se: «E o Verbo fez-se carne e habitou entre nós; e nós contemplámos a sua glória». Deus, que no Antigo Testamento é invisível, no Novo Testamento quer ser visto em Cristo: «Quem me viu, viu o Pai», diz Jesus a Filipe.

Numa religião em que Deus se faz homem de carne para ser visto, tocado, percebido pelos sentidos (como João escreve no prólogo da sua Primeira Carta), a imagem, mas também a obra escultórica ou outras expressões artísticas que apelam aos nossos sentidos, levam-nos, de alguma forma, de um modo mais próximo à experiência definitiva.

Isto não significa que palavras não sejam necessárias: são-no, obviamente. Mas seria um erro desvalorizar a imagem, considerando-a uma mera "tradução", um simples ornamento de carácter acessório, mais agradável mas incapaz de revelar-nos algo do mistério de Deus.



 

Cristina Uguccioni
In Vatican Insider
Trad.: SNPC
Imagem: D.R.
Publicado em 10.05.2018

 

 

 
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