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Leitura: "A religião dos portugueses - Testemunhos do tempo presente"

«Esgotadas há muito as duas primeiras edições de "A religião dos portugueses", nem por isso o texto de frei Bento Domingues deixou de ser continuamente citado em debates, artigos, conferências, seminários... Por isso se impunha a sua reedição e atualização», escreve António Marujo na introdução ao volume publicado pela Temas & Debates/Círculo de Leitores.

O jornalista especialista em atualidade religiosa, que com Maria Julieta Mendes Dias organizou a obra, explica que foram acrescentados novos contributos aos capítulos que compunham a edição original, de 1987, «sugeridos e escolhidos pelo Autor, de entre a vasta arca da sua produção».

"A religião dos portugueses", que será apresentado pelo P. José Tolentino Mendonça na próxima terça-feira, 29 de maio, no auditório da igreja do Sagrado Coração de Jesus, em Lisboa, às 18h30, «não é apenas um texto sobre o fenómeno relativo a Portugal».

Com efeito, prossegue António Marujo, o religioso dominicano «faz um percurso sobre a pesquisa recente (e, por vezes, também com pequenas incursões históricas) acerca da questão espiritual e religiosa, sobre as características e definições de religião e a relação desta(s) com a cultura».

No seu itinerário, fr. Bento Domingues (n. 1934) conduz o leitor «na companhia das reflexões de Lúcio de Azevedo, António José Saraiva e Eduardo Lourenço, Teixeira de Pascoaes, Natália Correia, Agustina Bessa-Lúis ou Fernando Pessoa, entre tantos outros» para «procurar entender se há uma "arte de ser católico português"».

"A religião dos portugueses", "Artes de ser católico português", "Uma religião do coração?", "Religião popular e Fátima", "Tornar Fátima o novo Livro do Desassossego - Dez crónicas no 'Público'", "Compreender e interpretar o que aconteceu desde 1917 ate hoje", "O medo e a segurança na religião", "A Igreja e a segurança na religião", "A Igreja e a implantação da democracia em Portugal" e "A primeira década do Concílio Vaticano II em Portugal" constituem os nove capítulos do livro, seguidos por um posfácio de Moisés de Lemos Martins.

 

Religião popular e Fátima
Fr. Bento Domingues, O.P.
In "A religião dos portugueses"

1. A religião popular passou de maldita a digna de todas as bênçãos. Ainda me lembro do tempo em que se procurava «cristianizar» as festas religiosas, tirando-lhes tudo o que era tradição popular para ficar apenas o que as legítimas autoridades clericais (bispos e padres) consideravam o verdadeiro culto da Igreja. Daí os conflitos permanentes entre as confrarias, as comissões de festas e os párocos por causa das devoções e aparições, das tradições dos santuários e suas peregrinações, dos costumes e das liberdades das romarias que eles não conseguiam enquadrar e dominar.

Veio, depois, o Vaticano II. O seu carácter algo «higiénico» na liturgia e no arranjo dos lugares de culto não ajudava a perceber o interesse da religiosidade popular. Por outro lado, o confronto e o diálogo do concílio eram com a cultura moderna – de que a Igreja se sentia divorciada – e com a ideologia do progresso.

Além disso, a sua aplicação foi, em muitos casos, demasiado autoritária e rubricista: «Antes, estava mandado de uma maneira e estava bem; agora, está mandado de outra e também está bem...» Surgiram novas tensões e confusões. A preparação antropológica e teológica do clero não era adequada ao entendimento quer da situação pré-conciliar, quer do sentido dos caminhos abertos por João XXIII.

 

2. Em 1968, a Conferência de Medellín (Colômbia), convocada por Paulo VI e organizada pelo Conselho Episcopal Latino-Americano (CELAM), elaborou um texto intitulado "Documento Final sobre Pastoral Popular", com uma ampla caracterização: «Ao apreciar a religiosidade popular, não podemos partir de uma interpretação cultural ocidentalizada, própria das classes média e alta urbanas, mas do significado que esta religiosidade popular tem no contexto da subcultura dos grupos rurais e urbanos marginalizados […] As suas expressões podem estar deformadas e misturadas em certa medida com um património religioso ancestral […] Apesar disso, podem constituir o balbuciar de uma autêntica religiosidade expressa com os elementos culturais de que dispõe. A fé chega sempre ao homem envolta numa linguagem cultural e, por isso, na religiosidade natural podem encontrar-se germes de um chamamento de Deus […] A fé e, por conseguinte, a Igreja semeiam-se e crescem na religiosidade culturalmente diversificada dos povos.»



Um dos conflitos mais constantes é precisamente este: os padres pensam que o povo deforma a verdadeira religião e o povo julga que os padres é que dão cabo da religião. Eu não teria dificuldade em reunir muitos testemunhos, ao longo de muitos anos, com estas e outras expressões similares



No III Sínodo dos Bispos (1974), consagrado à evangelização, Eduardo Pironio, como presidente do CELAM, ao apresentar uma informação sobre a situação da Igreja e da sua atividade evangelizadora na América Latina, esclarece: «Quando falamos de religiosidade popular, entendemos a maneira segundo a qual o cristianismo se encarnou nas culturas e grupos étnicos diferentes e graças à qual se encontra enraizado no povo com uma vivência profunda.»

Este Sínodo culminou na exortação apostólica Evangelii Nuntiandi, de Paulo VI (1975), na qual o Papa descreve e aprecia, de forma ziguezagueante, a chamada «religiosidade popular» para concluir: «Tendo em conta esses aspetos, chamamos de bom grado “piedade popular”, no sentido de religião do povo em vez de religiosidade.» Mas no final deste parágrafo conforma-se com a oscilante terminologia: «Bem orientada, esta religiosidade popular pode vir a ser cada vez mais, para as nossas massas populares, um verdadeiro encontro com Deus em Jesus Cristo (n.° 48).»

Não se esqueça que a década de 1970 foi a época do nascimento do tema bem-sucedido da «evangelização inculturada». Através dela, o caminho aberto em Medellín desabrochou em Puebla (1979). Entretanto, a revista "Concilium"(206, 1986/4) empenhou-se em apresentar um panorama da «religiosidade popular» em vários países europeus, na África e na América Latina em confronto com perspetivas teológicas e com desafios levantados à praxis eclesial. Em 2002, depois de muitos percursos, é publicado, pela Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos, o "Diretório"sobre a piedade popular e a liturgia.

 

3. Estes documentos não caíram do céu. Em vários países, as ciências sociais começaram a interessar-se pela «religião semiclandestina» ao longo dos séculos, como a designou o historiador Jean Delumeau. Em Portugal, são bem conhecidas as obras de antropólogos como Moisés Espírito Santo, Pierre Sanchis, João de Pina Cabral, etc., e as arrojadas iniciativas do padre António Lourenço Fontes, de Vilar de Perdizes (Montalegre). Como referimos, alguns teólogos e pastoralistas não passaram ao lado deste fenómeno, tanto mais que a temática da «inculturação da fé» convidava a teologia a olhar, com discernimento, a Igreja a partir das artes de viver das populações. Dentro e fora da Igreja Católica, foram surgindo ensaios, teses de mestrado, de doutoramento, muitos seminários e colóquios de encontro de investigações, dedicados à religiosidade popular e piedade popular. No campo católico português, José da Silva Lima tornou-se uma referência a partir da sua tese "Deus: Não tenho nada contra"(1994). É ele quem assina, no "Dicionário de história religiosa de Portugal", o artigo "Religiosidade popular" com as respetivas indicações bibliográficas. Importa, no entanto, não esquecer que é um campo que está sempre a receber novas sementeiras e a recolher novos frutos.

 

4. Quando se fala em religião popular, alguns preferem falar de religiões locais e outros de religiões das classes subalternas. José Mattoso classifica «a religião popular por oposição ao culto oficial e público promovido pelas legítimas autoridades clericais. A sua especificidade não lhe advém só, naturalmente, desta distinção, mas também, no caso histórico do Ocidente europeu, da preservação de rituais e práticas mágicas de origem não exclusivamente cristã, tenha a sua forma ou conteúdo sido ou não diretamente censurado como condenável pelo clero. A preservação destas práticas advém, evidentemente, de uma cultura diferente, ou seja, de uma diferente forma de dominar e compreender a natureza no seu sentido mais amplo. O facto de os seus protagonistas se submeterem também aos ritos e sacramentos prescritos pelo clero em nada modifica a diferença cultural. Apenas pode significar que aquelas não se preocupam com a questão de saber se as práticas próprias são ou não coerentes com os ritos oficiais. A coerência pode existir para eles ao nível da sua cultura própria e do seu modo de vida específico, sobretudo da necessidade de respeitarem a ordem do universo tal como a concebem, e de assegurarem a propiciação das forças naturais de cujo favor necessitam, creem eles, para subsistir».



Para Paul Tillich, ser religioso significa «interrogar-se apaixonadamente sobre o sentido da nossa vida e estar atento às respostas, mesmo que elas nos abalem em profundidade». Mas antes de ser uma interrogação, a religião é uma experiência, é algo vivido



A religião popular é movida pela preocupação de colocar o poder divino ao alcance das necessidades quotidianas dos indivíduos. Danièle Hervieu-Léger continuava, em 2002, com a pergunta que já tinha feito em 1986, referindo-se à França: «Como explicar – no próprio momento onde parece que temos razões para falar de perda de religião no mundo moderno – esta persistência da religiosidade popular que a instituição canaliza tão mal?»

Apresentar-se como a verdadeira religião a dos antepassados é uma das características da religião popular. O padre Christian Duquoc espanta-se com algo que lhe contaram. A cena passa-se no sopé dos montes do Limousin. Os poucos habitantes que aí residiam de forma permanente eram indiferentes à Igreja e ao seu ensino. A frequência dominical era praticamente nula. Nos tempos livres, algumas pessoas vinham aí gozar do silêncio e respirar esses ares revigorantes. O acontecimento deu-se numa Sexta-Feira Santa. Um desses, católico praticante, estava a revolver a terra do seu jardim. Ele era bem conhecido e estimado pela população autóctone. Contou-me a conversa com um aldeão que tinha um pequeno café-taberna, um lugar mais de conversa do que de consumo. O homem parou diante do que trabalhava o jardim só para se descontrair e diz-lhe: «Que está a fazer? Você está a blasfemar. Não sabe que é Sexta-Feira Santa? Revolver a terra, hoje, é arriscar-se a fazer correr o sangue de Cristo.» Este ímpio inconsciente replicou-lhe com espanto: «Nunca ouvi tal coisa na Igreja.» «Sem dúvida», retorquiu-lhe o taberneiro, «os padres não sabem nada da religião, nós, os antigos, é que a conhecemos!»

Um dos conflitos mais constantes é precisamente este: os padres pensam que o povo deforma a verdadeira religião e o povo julga que os padres é que dão cabo da religião. Eu não teria dificuldade em reunir muitos testemunhos, ao longo de muitos anos, com estas e outras expressões similares.

Por outro lado, enquanto a medicina está sempre a realizar progressos técnicos que abrem, cada vez mais, perspetivas de cura, as práticas «supersticiosas», muitas delas já enumeradas por Martinho de Braga (século VI), autor da instrução pastoral sobre superstições populares ("De correctione rusticorum"), nem por isso se extinguiram. É certo que, em Portugal, segundo a tese de José Pedro Paiva, por diversos motivos, a «caça às bruxas» nunca foi severa. Ainda bem. E agora, em muitos lugares, até parece que ganharam um novo impulso. Os curandeiros, os feiticeiros renovam a sua clientela. É verdade que a magia e a superstição são pseudociências e técnicas tristes, não são religiosas. A religião popular é, em geral, uma religião alegre.

 

5. Mas o que é uma religião? Hans Küng pensa que definir de maneira inequívoca o que é religião vem a ser tão difícil como definir o que é a arte. Embora não seja um conceito totalmente ambíguo, é um conceito analógico, isto é, que congrega fatores semelhantes e distintos.

Religião é uma palavra de origem latina. Não tem equivalentes linguísticos noutras áreas religiosas. Todavia, nas línguas ocidentais nenhuma outra palavra conseguiu impor-se para dizer o que nós dizemos com religião. Na opinião de Cícero, a palavra religio deriva do verbo relegere (recolher, compreender, revisitar, percorrer de novo, reler): «Daqueles que retomam com diligência todas as coisas que dizem respeito ao culto dos deuses e assim as releem, diz-se que são religiosos, precisamente a partir da palavra relegendo, isto é, o que deve ser lido, colhido, revisitado.» É uma hipótese. Nesta linha, religião é o oposto de negligência.



Quem quiser saber o que é a unidade sentimental do povo português vá à Procissão do Adeus, a Fátima, e veja aquela doce arte de chorar juntos sem nenhum motivo muito evidente: “Acaso sois português, que tanto chorais?” (Lope de Vega)



O cristão Lactâncio (c. 260-340 d.C.) propôs uma etimologia um tanto diferente. Para ele, a palavra deriva do verbo religare (ligar, conjugar). É também a hipótese preferida de Santo Agostinho n’"A Cidade de Deus". Sublinha, no entanto, que religio não é apenas um laço social, mas um movimento que vai do homem para Deus, que o liga a Deus. A religião é o laço restabelecido entre a criatura e o criador, de quem se teria afastado por negligência, pecado ou abandono ao que é profano. Para Paul Tillich, ser religioso significa «interrogar-se apaixonadamente sobre o sentido da nossa vida e estar atento às respostas, mesmo que elas nos abalem em profundidade». Mas antes de ser uma interrogação, a religião é uma experiência, é algo vivido, o contacto com a dimensão última da realidade que se revela como origem e fim de tudo o que existe. Pode manifestar-se em todas as criações do ser humano.

Os sociólogos Claude Bovay e Roland Campiche, articulando definições funcionais e substantivas, apresentam a religião como «o conjunto de crenças e de práticas, mais ou menos organizado, relativo a uma realidade supraempírica transcendente, que desempenha, numa dada sociedade, uma ou várias das seguintes funções: integração, identificação, explicação da experiência coletiva, resposta ao carácter estruturalmente incerto da vida individual e social».

 

6. Fátima pertence à religião popular ou à religião clerical? Não é fácil responder. Diríamos que Fátima é, até agora, a última grande peregrinação do Ocidente. Não há santuário, na Europa, que consiga atrair tantos populares e tantos bispos e papas. Umas vezes, é Fátima que se muda para Roma e, outras, é Roma que se muda para Fátima. Este intercâmbio atingiu o seu cume com João Paulo II e o desfecho da terceira parte do «Segredo», mas já se esboçou com Pio XI. Pio XII teve, nos jardins do Vaticano, réplicas das aparições de Fátima, e Paulo VI veio de Roma até à Cova da Iria com uma rosa de ouro. Para começar a responder à pergunta – Fátima, uma religião popular ou uma religião clerical? – transcrevo uma conversa:

D. Manuel Vieira Pinto, o pregador português do Mundo Melhor e bispo expulso de Nampula antes do 25 de Abril e que a Nampula regressou como herói da independência de Moçambique e da Igreja Católica, contou-me o seguinte: estava ele à janela da Casa de Retiros do santuário e observava, com tristeza, os peregrinos rastejantes a cumprirem promessas a Nossa Senhora.



A noite da vida dos peregrinos é iluminada por um imenso mar de pequeninas luzes e também todos se despedem de Nossa Senhora como se Fátima fosse o cais de todas as despedidas. Na Procissão das Velas, o recolhimento é impressionante; na Procissão do Adeus, a comoção vai até às lágrimas



Encheu-se de coragem e dirigiu-se a uma senhora alquebrada que, apoiada no marido, seguia rastejante para a Capelinha das Aparições. Saudou-a e acabou por lhe perguntar: «Tem filhos?» «Claro que tenho», respondeu. O bispo sentiu o dever de a catequizar: «A senhora certamente que não suportava que um dos seus filhos a fosse visitar de rastos. Ora, se a senhora não era capaz de aguentar um seu filho nessa situação, quanto mais a Senhora de Fátima, nossa mãe! Poderá ela gostar de ver a senhora de joelhos a percorrer esta distância com tanto sofrimento? Se está a cumprir uma promessa, eu, como bispo, posso mudá-la por outra que seja mais do agrado de Nossa Senhora e de proveito para os pobres.» E lá foi argumentando. A mulher continuava muda. De repente, vira-se para o bispo e diz-lhe: «Ouça lá, foi a você que eu fiz a promessa? Então, meta-se na sua vida e não me aborreça mais.»

Nesta história está Fátima quase inteira. Esta nasceu de crianças e de gente do povo, em 1917, nos finais da Primeira Guerra Mundial. Pouco a pouco, foi sendo enquadrada pelo clero. Em 1930, o bispo de Leiria, D. José, declara as «aparições dignas de crédito». O cardeal Cerejeira acrescenta que «não foi a Igreja que impôs Fátima; foi Fátima que se impôs à Igreja». Desde há muito tempo que as celebrações dos dias 13, sobretudo de maio e de outubro, são enquadradas por uma solene liturgia eucarística, mas tanto a reza do terço como a Procissão das Velas e a do Adeus – os dois momentos «mágicos» de todas as cerimónias – também seguem um percurso e um ritmo impostos pelo clero. No entanto, nesses dois momentos, a noite da vida dos peregrinos é iluminada por um imenso mar de pequeninas luzes e também todos se despedem de Nossa Senhora como se Fátima fosse o cais de todas as despedidas. Na Procissão das Velas, o recolhimento é impressionante; na Procissão do Adeus, a comoção vai até às lágrimas. Apetece-me retomar o que escrevi nas páginas 74 e 75:

«Fátima é, sobretudo, uma fala ao coração, um estremecimento da alma. Refiro-me a essa coisa rara e que supera todos os apetites de milagres, todas as experiências místicas de que se ufanam outros santuários, essa coisa única que revela Portugal a si mesmo e o que na sua alma existe de inconfundível: a Procissão do Adeus. Em Fátima anda tudo um bocado distraído. Anda sempre alguém à procura de alguém que se perdeu e andam muitos entregues àquilo que mais custa perder ao português: o gosto da feira barata e da romaria. É preciso estar sempre a pedir silêncio e a dizer que aquele lugar é sagrado sem que ninguém ligue muito. Quando os portugueses vão a Lourdes ficam espantados com o recolhimento e o silêncio daquela gente e daquele sítio. Mas quando, na Cova da Iria, irrompe o cântico nostálgico: De Vós me aparto, ó Virgem... ó Fátima, adeus, Virgem e Mãe, adeus... Fátima transforma-se num imenso cais, o cais de todas as lágrimas que os portugueses verteram nos quatro cantos do mundo, onde andaram sempre a despedir-se sem nunca saberem bem onde era a sua terra. Vasto mundo, mundo nunca nosso e do qual sempre fomos. Quem quiser saber o que é a unidade sentimental do povo português vá à Procissão do Adeus, a Fátima, e veja aquela doce arte de chorar juntos sem nenhum motivo muito evidente: “Acaso sois português, que tanto chorais?” (Lope de Vega).

Uma hipótese: é esse intenso momento de saudade que resgata Fátima da repetição do mesmo cerimonial e, de forma triste e doce, compensa, um pouco, a perda das tradicionais e criadoras manifestações da religião popular

É estranho que um fenómeno social desta envergadura tenha interessado tão pouco os cientistas sociais. Fátima atrai milhões de peregrinos, mas não seduz os investigadores. Pedro Pereira escreveu "Peregrinos: Um estudo antropológico das peregrinações a pé a Fátima" e, por razões de método – «de observação participante » –, caminhou com os peregrinos do Porto até Fátima. Creio, no entanto, que há tantas Fátimas quantos «os peregrinos e os convertidos», duas categorias importantes da mais atual sociologia da religião.

A Fátima dos segredos e das «histórias de vida» de cada um dos peregrinos não se confunde, totalmente, com a das grandes peregrinações, enquadradas por papas, cardeais, bispos e padres. A grande originalidade de Fátima talvez consista nessa distinção e nessa coexistência. Cada um tem direito a viver a relação com as «aparições» como quer e não tem de pedir a aprovação de ninguém. Nesse aspeto, é a religião da liberdade individual. Mas não é uma religião «selvagem». Está integrada na mais oficial liturgia da Igreja.

E talvez seja por isto que os chamados «novos movimentos religiosos» ou seitas tenham tão pouco êxito em Portugal. O movimento da religião de muitos peregrinos é o movimento da sua alma e das almas gémeas que encontram pelo caminho. Fátima é muito popular e muito oficial.


 

SNPC
Imagem: Capa | D.R.
Publicado em 24.05.2018

 

Título: A religião dos portugueses
Autor / Organizadores: Fr. Bento Domingues / António Marujo, Maria Julieta Mendes Dias
Editora: Temas e Debates / Círculo de Leitores
Páginas: 280
Preço: 17,70 €
ISBN: 9789896444945

 

 
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