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A poética do humano

Nenhuma definição do que é «o humano» faz sentido sem que, primeiro, se possa perceber o que é o ser humano em si mesmo, isso que coincide com esse que pode, único, definir o que é o humano, a partir da sua própria experiência.

Nenhuma definição, caída dos céus ou emersa dos infernos, é válida se não for coerente com o que é o ser humano em seu ato, ato que é irredutível a qualquer busca de definição não-natural, isto é, que não respeite a ontologia, o ser próprio do que é isto do «ser-humano».

Também nenhuma definição, não-celestial e não-infernal, mas simplesmente emitida pelo poder humano qualquer é aceitável: quem detém o poder pode não deter a inteligência, e nenhuma definição da humanidade emitida por um ser humano é por si só válida, a menos que respeite a ontologia humana. Sem este respeito, mais não é do que um ato de tirania, em que um ser humano impõe o seu modo de pensar aos outros seres humanos sobre quem tem o poder de tal impor. Note-se que este poder é sempre efémero e dura, no máximo, apenas o que a vida do tirano durar, caso de Adolf Hitler e de todos os outros que paradigmatiza.

A definição própria do que o humano é não depende, assim, do divino, apenas porque é divino, celestial ou infernal que seja; não depende apenas do humano, apenas porque tem o poder para tal.



A lição imediata que fica – e que é pertinente para os nossos dias – consiste em que o exercício de violência sobre os limites produz monstros ontológicos



A definição do que é o humano não depende de qualquer forma de poder ético ou político, pois ambos estes pressupõem a definição do que o humano seja para sequer poderem, em absoluto, ser.

Exemplifiquemos: não é porque um «deus» qualquer diz que o ser humano é «isto» ou «aquilo» que o ser humano é mesmo isso que o tal qualquer «deus» diz que é.

Todavia, também não é porque uma qualquer assembleia de bípedes falantes profere uma definição do que é humanidade que tal coincide necessariamente com o que a humanidade é.

De novo, podemos invocar o nazismo com as suas leis, perfeitamente legais em tal sistema e internacionalmente aceites, que redefiniam o que é ser-se humano; podemos, também, invocar as leis que redefinem a humanidade da presença humana intrauterina, a fim de se autodesculpabilizar na questão do aborto, não assumindo que, efetivamente, o que se aniquila é um ser humano e não uma coisa material-biológica não-humana, porque assim não considerada pela assembleia local.

O que o ser humano seja só pode ser inteligido a partir da própria experiência que constitui, em ato, e como movimento ontológico próprio, cada ser humano; e, precisamente, cada ser humano na interioridade própria da sua experiência, dado que não tem, que não há, acesso direto a qualquer outra.



Não é apenas no Génesis que o ser humano surge como convite divino a que se torne o autor da parte do poema cósmico a que pode, por causa de tal autoria, chamar de seu. Todo o ser humano, independentemente de tempo e lugar, é este poema, por outro encetado, mas que pode ser continuado por si mesmo



Mesmo no caso de uma revelação celestial-divina acerca do que é o ser humano, como é o caso da tradição judaico-cristã, o que se percebe é que, tendo Deus criado o ser humano – forma real de definir o que é o ser humano, pois dá-se-lhe o ser e a possibilidade de ser para lá do ser dado –, não pode haver (e, de facto, não houve) qualquer interiorização do que é ser-se humano sem que haja uma experiência própria disso.

Podemos perceber que o que faltou ao famoso casal inicial não foi inteligência ou qualquer dom de possibilidade de realização humana, mas ato de experiência de vida como propriamente humana para que não tivesse falhado a sua vocação primeira.

O bicho tentador serviu-se da inexperiência de tais prometedoras vidas para conseguir conduzi-las por onde lhes não convinha em termos do seu melhor possível. Como?

Sendo movimento, isto é, diferenciação segundo o ser, a realidade humana situa-se sempre no interior de limites próprios, inultrapassáveis. Estes limites, verdadeiramente inultrapassáveis, podem ser utilizados como marcadores necessários para a redefinição do âmbito da ação, sem que tal redefinição não respeite tais limites, antes os respeite servindo-se deles como indicadores de mudança de direção da possibilidade da ação.



O bem-comum é o único ato, universal e integrado, que permite que a cidade seja, sem mais. A sua violentação equivale à morte do princípio que mantém viva a cidade



Por exemplo, o ser humano naturalmente não voa como as aves que voam – há aves que não voam –, mas, respeitando tal limite no que é, mudando a direção da ação (não insistindo em voar, por exemplo, atirando-se de um penhasco), laborando na exploração de outras possibilidades, conseguiu não propriamente voar por si como as aves que voam, mas transportar-se espacialmente pelo ar de uma forma que até lhe permite pensar erradamente que voa: não voa, mas desloca-se pelo ar com auxílio de máquinas que pode construir, porque para tal construção não encontrou limites.

Este exemplo pode ser padrão de inúmeras atividades que só existem porque, encontrados limites para a ação humana, a direção da ação, do movimento humano, mudou e foi capaz de explorar possibilidades, até então, inauditas, que permitiram, não eliminar ou superar os limites, mas evoluir como se tais limites não existissem.

Note-se que o limite mais poderoso que existe para o ser humano é a morte. Ora, que limite tem sido mais rico e poderoso em termos de motivação de mudanças de direção na ação humana? Pense-se em todo o trabalho feito para lutar contra a adveniência da morte, sobretudo prematura. Sem vencer o limite, foi possível criar condições para que a vida – não a morte – tenha uma expressão muito mais esplendorosa, precisamente porque em dialética operativa com a morte como limite.

Ora, o que Adão e Eva não tinham era uma experiência dos limites que lhes permitisse ter a experiência do que é ser-se humano nos e com os limites próprios de tal condição, no mito, de tal natureza. Por isso, puderam pensar que o limite simbolizado pela árvore poderia não ser mesmo um limite e ser ultrapassado. A experiência ensinou-os que assim não era.



A maldade intrínseca do nazismo e de todas as formas que padroniza – e que hodiernamente são muitas e nele se inspiram – consiste em redefinir o mundo a seu bel-modo, mormente tudo o que define a realidade ontológica humana



A lição imediata que fica – e que é pertinente para os nossos dias – consiste em que o exercício de violência sobre os limites produz monstros ontológicos, sendo o maior o que é narrado no Génesis, precisamente o monstro da morte como consequência da violação dos limites próprios do real, mormente os que são próprios do humano e que, assim, o definem.

Note-se que o que sucede, ainda no Génesis, na narração do mito de Sodoma e Gomorra, é precisamente a violência contra o princípio do bem-comum, na forma da violação do bem de pessoas. Ora, o bem-comum é o único ato, universal e integrado, que permite que a cidade seja, sem mais. A sua violentação equivale à morte do princípio que mantém viva a cidade.

Sodoma e Gomorra morrem porque se suicidaram na forma do exercício de violência sobre o princípio que as mantinha vivas, isto é, sobre o limite de possibilidade da cidade, que é o bem para todos, formulável negativamente como morte para todos os que não respeitem tal princípio. O fundamental é o mesmo que era para Adão e Eva.

Nos dias que correm, generalizou-se a ideia de que os limites ou não existem ou, caso existam mesmo, são algo que não só pode como deve ser ultrapassado.

Toda uma nova forma de vida está a ser montada sobre tal noção. Ora, os limites existem; são objetivos; constituem formas de possibilidade de isso que limitam: são, em tal, positivos; a sua violação não implica a sua aniquilação, mas a aniquilação dos que promovem tal violação. É este o significado profundo do destino de Sodoma e Gomorra.



O ser humano é um ser que se constitui sempre em ato, a partir de possibilidades próprias e irredutíveis, propriamente inalienáveis, ainda que aniquiláveis, realizando tais possibilidades, sendo, assim, um poeta de seu próprio poema ontológico



No que diz respeito aos limites próprios da realidade humana, a tentativa de violação de tais limites cria sempre várias formas de monstruosidade ética, política, ontológica. Esta mesma monstruosidade, porque faz parte dos limites, exatamente como sua resposta à tentativa de violação, é o que acaba por eliminar quem tal violação intenta.

Relembre-se que o mito de Sodoma e Gomorra significa a eliminação de toda a sua humanidade ali pertinente, sem restrição. Se se alargar este âmbito, podemos perceber que a tentativa de violação dos limites próprios da humanidade pode acarretar e certamente acarretará a eliminação da humanidade, se esta assim persistir.

Não se trata de um cenário distópico ou catastrofista, mas de algo que pode sobrevir naturalmente – dado que as consequências da tentativa de violação de limites são respostas naturais, uma vez que são os limites que põem a possibilidade a que chamamos natureza, possibilidade de movimento, não coisa estática –, por exemplo, através de uma qualquer experiência dita científica com vírus que corra mal, vírus que se tornem de tal modo virulentos que eliminem a humanidade em poucos dias. Nada há de irrealista no que acabou de ser afirmado.

Deste modo, a definição do que a humanidade é depende sempre, sejam quais forem os dados teóricos que existam e seja qual for o modo da sua introdução na experiência humana, desta última e apenas desta última.



A humanidade pode desenvolver o seu ser, a partir da sua possibilidade própria, entre as balizas constituídas pelo bem-comum e pela guerra, pelo amor e pelo mal



Pense-se no que terá sido a experiência dos seres humanos atirados para os campos de morte, de forma tal que nem reagiram quando a sua vida era posta em causa. Pense-se em que estado estaria a sua relação com o que humanamente os definia. Um ser humano que ainda acreditasse na e vivesse a sua condição plenamente humana, isto é, como tal definida pelos limites próprios e apenas por eles, teria aceite ser morto sem sequer reagir?

A maldade intrínseca do nazismo e de todas as formas que padroniza – e que hodiernamente são muitas e nele se inspiram – consiste em redefinir o mundo a seu bel-modo, mormente tudo o que define a realidade ontológica humana. O seu triunfo, tornado pela história imperecível, não consistiu na matança das pessoas, mas em ter levado muitas delas a acreditar que já não eram pessoas. Esta forma de interação política sempre existiu, mesmo no ocidente, mas o nazismo conseguiu transformá-la num princípio cosmológico novo real, operacionalizando-o, falso, mas eficaz em extremo. Este falso princípio reafirma-se universalmente nos dias que correm.

A experiência humana é, assim, a experiência das possibilidades que os limites próprios da e para a humanidade permitem. É nesta experiência e como forma de intuição teórica – que pode ser dada na forma de uma revelação, mas que prende intelectualmente nesta experiência ou não prende de todo – do que é, em seu mesmo ser em movimento, que o ser humano descobre a sua humanidade e a pode definir como tal.

Ora, tal descoberta tem assumido ao longo da história muitas formas, todas elas em relação estreita com, não a cultura em que surgiram, mas com as culturas cuja formação permitiram, pois não é possível cultura alguma sem que haja, como forma lógica prévia, uma definição do que é a humanidade: no limite, seres humanos e bichos seriam indiscerníveis, o que nunca sucede, pois toda a cultura se forma por meio de um ato de fundação da distinção entre o que é propriamente humano e o que não é.



Como diria Platão mesmo perto do fim da sua “República”, a «culpa não é do deus», é mesmo da escolha que cada ser humano faz a partir da humanidade que para si próprio construiu



Mesmo que o humano seja instituído por uns quaisquer seres ditos superiores, é a partir do ato de narração em boca humana que tal transparece.

Pode ter sido o “grande cão” ou outra coisa qualquer a ter dito como o mundo se formou, mas é o sacerdote humano que tal narra em rito humanamente incarnado que lhe dá humano sentido, em humana temporalidade sagrada. Não há cultura sem humanidade. Pode haver bestas com figura humana sem cultura: seriam bichos, o sonho onto-político de Hitler.

Podemos, agora, melhor perceber que o ser humano é um ser que se constitui sempre em ato, a partir de possibilidades próprias e irredutíveis, propriamente inalienáveis, ainda que aniquiláveis, realizando tais possibilidades, sendo, assim, um poeta de seu próprio poema ontológico.

Não é apenas no Génesis que o ser humano surge como convite divino a que se torne o autor da parte do poema cósmico a que pode, por causa de tal autoria, chamar de seu.

Todo o ser humano, independentemente de tempo e lugar, é este poema, por outro encetado, mas que pode ser continuado por si mesmo. Todos os seres humanos são semelhantes porque são este ato, inicialmente heterónomo, que é posto como possibilidade de autonomia, de dignidade ontológica que consiste em poder dizer: «fui eu».

Esta possibilidade não se realiza sem que a humanidade se encontre presente em ato na forma, não de uma definição abstrata ou na forma concreta e carnal de apenas um só ser humano, mas de uma relação entre seres humanos.

Esta relação é o ato que constitui a pessoa e que matricia a humanidade como ato político, isto é, como ato de relação entre seres humanos, assim, pessoas.

Surge, deste modo, a questão do bem-comum, que se encontra também presente quer na parte do mito adâmico dedicado ao casal primeiro, quer, de forma mais evidente, na parte dedicada à evolução da humanidade, aquando da relação entre Abel e Caim.

Podemos, desde já, intuir que a humanidade pode desenvolver o seu ser, a partir da sua possibilidade própria, entre as balizas constituídas pelo bem-comum e pela guerra, pelo amor e pelo mal. Como diria Platão mesmo perto do fim da sua República (617e), a «culpa não é do deus», é mesmo da escolha que cada ser humano faz a partir da humanidade que para si próprio construiu.


 

Américo Pereira
Universidade Católica Portuguesa, Faculdade de Ciências Humanas
Imagem: "Criação" (det.) | Marc Chagall | 1960 | D.R.
Publicado em 24.10.2018

 

 
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